Duras e a escrita

MARGUERITE, MON AMOUR, peça-filme

O repertório de peças-filme lançadas por Cavi Borges e Patricia Niedermeier na pequena sala 4 do Estação Botafogo se avoluma e se sofistica. Depois de O Censor e François Truffaut – o Cinema é Minha Vida (esta ainda em cartaz), estreou ontem Marguerite, mon Amour. Em cena, uma versão muito particular da escritora, roteirista e cineasta Marguerite Duras.

A criação é da atriz Cristina Mayrink, que interpreta Duras num monólogo sobre as delícias e angústias do ato de escrever. Cristina é uma figura bonita e imponente de mulher, que contrasta bastante com o físico miúdo e o jeito introspectivo da roteirista de Hiroshima mon Amour e diretora de India Song. Somos, portanto, levados a assimilar a peça como uma apropriação bastante assumida da personagem pela atriz.

Cristina – que lembra por vezes Clarice Lispector, o que não é nada fora de propósito – tem uma performance expansiva, justificada pela moldura dramatúrgica de uma festa. Ela recebe os espectadores como se fossem convivas antes de se entregar às reflexões da escritora sobre seu ofício. Um ofício que envolve solidão, desejo e desafio. “Escrever – não posso. É preciso dizer que não se pode. Mas se escreve.”

O diálogo com a tela tem momentos muito belos, como a projeção da letra de Marguerite sobre os papéis que Cristina joga no ar, a imagem verde sobre a qual ela aparece depois de um trecho aflitivo  na escuridão ou a bomba (Hiroshima?) que a faz sucumbir no palco. Em outros trechos, são projetadas cenas de filmes de Marguerite e de um documentário sobre a sua casa, além de trechos ligados conceitualmente à trajetória da escritora. Cavi e Patricia, que assinam a direção do espetáculo, se mostram cada vez mais afinados com a proposta de explorar o espaço exíguo da salinha e a interface entre as duas linguagens.

A duração é talvez um pouco curta demais, sobretudo porque o texto e a performance de Cristina nos deixam com um gostinho de quero (muito) mais. Ainda assim, é um convite irresistível a uma fusão de diversas mulheres magníficas pela magia das palavras.

Vale a pena conhecer a intensa programação (Ocupação) da sala 4 durante o mês de março, com três peças-filme em cartaz (no dia 10 estreia Naitsu – Os Tempos da Noite, da coreógrafa Regina Miranda), cineclubes, leitura de peças e homenagens. Com razão, Cavi Borges não se cansa de anunciar “a menor sala com a maior programação”.

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