Todas as Bahias num festival

Começa nesta segunda-feira (15/3) o 7º Feciba – Festival de Cinema Baiano. Inteiramente online e gratuito, terá 10 longas, 10 médias e 30 curtas-metragens produzidos por baianos nos últimos cinco anos. Eles foram escolhidos por um esquete de 11 curadores, também baianos. Segundo um deles, o cineasta José Araripe Jr., “ver o retorno do Feciba com uma safra de produções tão criativas, impactantes e comprometidas com o contexto cultural, histórico e social da Bahia não enche apenas os olhos do curador; faz bater mais forte o coração do cinéfilo”.

A professora Marialva Monteiro, do Cineduc, outra integrante da equipe de curadores, ressalta a participação feminina: “De 15 longas submetidos à curadoria, sete foram dirigidos por mulheres, o que diz muito sobre o cinema brasileiro atual”.

O festival terá também quatro oficinas e 20 lives/debates sobre temas que vão da religiosidade à pandemia, da sexualidade às narrativas afrocentradas. Confiram a programação completa no site do evento.

Comento abaixo o filme de abertura, Memórias Afro-atlânticas, e o longa Sol da Bahia, de Orlando Senna. Sobre Dorivando Saravá – o Preto que Virou Mar, de Henrique Dantas, já escrevi aqui.

Vozes e imagens redivivas

“Memórias Afro-atlânticas”

O festival começa sob o signo da mais absoluta africanidade. Memórias Afro-atlânticas é um documentário sobre o resgate de vozes e imagens de grandes figuras do candomblé da Bahia, registradas em 1940-41 pelo linguista afro-americano Lorenzo Turner. Em viagem ao Rio de Janeiro e à Bahia, Turner gravou cantos e rezas em línguas africanas como o iorubá e o fon, nas vozes de Mãe Menininha, Joãozinho da Gomeia, Manoel Falefá e outros famosos pais e mães de santo, todos ainda jovens. Esse acervo ficou por mais de 70 anos arquivado na Universidade de Indiana, nos EUA, até ser “descoberto” pelo etnomusicólogo francês Xavier Vatin, professor associado da Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

Diante da câmera, Vatin conduz com habilidade e simpatia os encontros com filhos, netos e conhecidos dos personagens registrados por Turner. Em terreiros, casas e quintais, ele mostra as fotografias e as gravações para recolher impressões, lembranças e reflexões sobre a herança africana transmitida pela oralidade. Para além da questão espiritual, as religiões de matriz africana são um patrimônio cultural inestimável. Por outro lado, a língua é a coluna de sustentação dos candomblés – assim mesmo no plural, pois são várias as nações do candomblé com seus respectivos idiomas. Por serem línguas não costumeiramente escritas, elas correm o risco de perder a legitimidade com o esquecimento. Daí a importância dessas gravações. É bonito vê-las sendo ouvidas e repetidas por gente de hoje, prova de que a expressão original africana permaneceu, ao menos nesses núcleos.

A diretora Gabriela Barreto poderia ter buscado uma edição mais cuidadosa do material fotográfico exibido por Vatin, deixando-nos usufruir melhor da beleza e das informações ali contidas. De qualquer maneira, o contato que o filme nos proporciona com o acervo de Turner e com a emoção e o orgulho desses baianos que mantêm acesa a chama africana é coisa que não tem preço.


O dia em que até o sol é brasileiro

Gabriela Barreto em “Sol da Bahia”

Lembro-me dos desfiles de 2 de julho a que minha mãe me levava na infância em Salvador. Eu ficava um pouco assustado com os andores que levavam o caboclo e a cabocla envolvidos em folhagem, a imagem de Joana Angélica com ares de agonizante, a multidão seguindo e cantando. Custei a entender aquela mistura de raças, signos e referências que celebrava a vitória dos baianos contra os portugueses a 2 de julho de 1823, na guerra da independência do Brasil.

Esse episódio histórico, tratado como regional, tem, no entanto, importância estratégica na consolidação de uma identidade nacional. Orlando Senna dá sobre ele uma aula cinematográfica em Sol da Bahia. O filme parte do desfile festivo do 2 de julho pelas ruas da cidade. Não é carnaval, nem parada militar, nem passeata política, nem procissão religiosa. Mas tem um pouco de cada coisa. No evento captado pelo filme, era grande a participação de sindicatos com reivindicações trabalhistas, protestos contra o prefeito e clamores de Lula Livre.

Dois filmes de Walter Lima Jr. me vieram à memória. De A Lira do Delírio, os personagens que participam do desfile e são destacados para interpretar as figuras-chave do movimento. Do média-metragem Joana Angélica, a mescla de encenação e documentário para dar conta do mesmo episódio. Cada personagem tem o seu momento de relatar sua participação: o brigadeiro Madeira de Melo, comandante do Exército português (Caco Monteiro), a freira Joana Angélica (Clara Alves), a escrava capoeirista e revolucionária Maria Filipa (Negona Irará), a soldada do Exército de Libertação Maria Quitéria (Gabriela Barreto, a bela diretora de Memórias Afro-atlânticas), o cacique tupinambá Bartolomeu Jacaré (Jaime da Cunha), que se juntou à luta contra os colonizadores, e o Corneteiro Lopes (Moreno Matos), que trocou o toque na hora H e mudou o rumo da história a favor dos rebelados.

O nível de interpretação desses atores é bastante irregular, mas a proposta não deixa de ter sua graça. O relato de cada um é ilustrado com uma vasta iconografia que evoca e mitifica a luta dos baianos. O humor também está presente, seja na performance brincalhona dos desfilantes, seja em pormenores da parte dramatizada. Joana Angélica, por exemplo, narra sua história desde o além-túmulo, chegando a apresentar o local onde foi enterrada. O Corneteiro Lopes, por sua vez, desfaz com picardia a dúvida histórica sobre o seu “erro”.

O 7º Feciba vai até o dia 26 de março.

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