Como filmar um grande amor

O AMOR DENTRO DA CÂMERA no Florianópolis Audiovisual Mercosul online

Aos 80 e poucos anos, Conceição e Orlando Senna estão deitados na cama, filmados de corpo inteiro a partir dos seus pés. Ela está de calcinha e camiseta. Ele tem as mãos frias sendo aquecidas pelas dela. Mais adiante, a cena retorna no ponto em que ela fala com humor de sua perna “biônica”, remendada com um implante de titânio: “Está valendo uma fortuna. Se algum assaltante souber, ó”. Esses dois momentos ilustram bem o que Lara Belov e Jamille Fortunato nos oferecem nesse belíssimo ensaio de amor sobre o casal. Um carinho curtido em quase 60 anos de convivência íntima e artística, somado à mais pura entrega de si a um projeto de documentário.

Corpos marcados pelo tempo e espíritos imunes ao envelhecimento, Conceição e Orlando se deixaram filmar em sua intimidade por duas ex-alunas de uma oficina em Lençóis (BA), cidade natal de Orlando. O resultado é um filme que transborda amor não somente entre os dois e entre eles e a equipe (Conceição chega a chorar num dos últimos dias da filmagem), mas de amor traduzido em cuidado e em linguagem.

A sensibilidade do trabalho de câmera e da montagem atestam isso, independente dos flashes em que testemunhamos a relação afetiva entre as realizadoras e os personagens. Lara e Jamille, baianas como eles, conduzem esse retrato delicado sem jamais ceder ao óbvio. Elas filmam o cotidiano do casal em seu apartamento no Rio, deixando que cada um se exponha com inteira liberdade. O que vemos é uma doçura transposta em palavras, toques e compreensão mútua.

Lá está a história dos dois no cinema e na vida, desde que ele a descobriu como mulher e como atriz numa filmagem em 1961. Juntos ou separados, eles cruzaram o Cinema Novo, o Cinema Marginal e clássicos posteriores como Iracema – uma Transa Amazônica, Gitirana e Diamante Bruto. Viveram por dez anos em Cuba um sonho latino-americano que o Brasil infelizmente deixou para trás. Mas eles permaneceram fiéis a um modo de ser não propriamente “alternativo”, mas temperado por um leve misticismo e uma firme consciência política. “Somos hippies até hoje”, diz Orlando.

As recordações surgem com naturalidade, mescladas a reflexões sobre o cinema, o tempo, o amor, o sexo e aquilo que Orlando define tão bem como “a guerrilha do espírito”. Em certa medida, este é também um filme sobre como filmar um grande amor. Abraços e beijinhos são a face visível, mas não o mais importante. O que o tempo constrói e amadurece num casal pode ser visto num café da manhã em silêncio ou num olhar cúmplice perante a performance do outro.

A atriz, professora e escritora Conceição morreu em maio de 2020, depois de uma longa luta contra o câncer. Essa mulher forte, comunicativa e adorável deixa uma imagem viva no filme, que abre e fecha com o canto de sua voz marcante. O cinema cumpre, assim, uma de suas mais belas funções: eternizar a beleza material e espritual das relações humanas.

>> O Amor Dentro da Câmera passa nesta terça-feira (28/9) a partir das 18h20 e por apenas 24 horas no canal da InnsaeiTV.

4 comentários sobre “Como filmar um grande amor

  1. Lindo texto, Carmattos sobre estes amorosos artistas amados! Que o amor que transborda do filme contagie esse nosso mundo tão precisado de delicadeza, criação e generosidade.

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