A viagem dos velhos expedicionários
março 28th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Navegar por diversos dias em pequenos barcos e caminhar 18 km numa picada no meio da floresta não é tarefa para qualquer viajante. Muito menos para um homem de 80 anos, andando de muletas. Mas foi isso o que Sérgio Vahia de Abreu se dispôs a fazer para reeditar uma aventura vivida 50 anos atrás. Em 1958, ele participou da expedição dos irmãos Villas-Bôas que demarcou o centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Em 2008, patrocinou uma nova expedição, que incorporaria pelo caminho dois outros expedicionários de 1958, o documentarista inglês Adrian Cowell, morto no ano passado, e o cacique Raoni.
Esses três senhores e seus reencontros emocionados são a maior graça e riqueza de Coração do Brasil, filme dirigido por Daniel Solá Santiago. A expedição é narrada através de muitos mapas, muitas informações históricas difíceis de assimilar completamente, e uma narração que se alterna entre os relatos das viagens de 1958 e de 2008. É interessante comparar esse filme com o mais coeso e objetivo Paralelo 10, de Silvio Da-Rin, que também acompanha uma viagem por territórios indígenas e está na competição do festival.
Em Coração do Brasil, alguns dados potencialmente interessantes acabam submergindo na linearidade um tanto monótona da viagem. Um maior sentido de resistência por parte dos índios, se comparado com o tempo dos Villas Bôas, é algo que se insinua mas não é aproveitado dramaticamente. Da mesma forma, a idade avançada dos viajantes é motivo de duas ou três referências passageiras, mas não parece interessar muito ao olhar do documentarista.
Uma curiosidade, no entanto, se impõe: enquanto em 1958 a árdua chegada ao centro geográfico do país foi empreitada de anos, conduzida por instâncias governamentais, a expedição recente foi empreendimento pessoal, uma espécie de reunião de amigos para celebrar um feito do passado. Com coisas que não existiam há 50 anos, como GPS, câmeras de vídeo e o cansaço nos corpos batidos pelo tempo.
Dino Cazzola: a diretora comenta
março 27th, 2012 § 2 Comentários
Pela importância do assunto, trago à frente o comentário enviado por Andrea Prates, uma das diretoras de Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília, à resenha que publiquei aqui.
Prezado Carlos Alberto,
Conforme a tua solicitação, trago as minhas considerações à tua resenha para discussão.
Acho importante considerar que Dino Cazzola foi um cinegrafista e produtor de Brasília, que tinha a produção de imagens como ofício. Desta forma, e considerando que o período em que trabalhou foi, essencialmente, o da ditadura militar, parece-me bastante natural que exista, em seu acervo, uma enorme quantidade do que você chama “cenas oficiais”; o Paulo Emílio, de “rituais do poder”; e eu, meramente, “chapa branca”!
Não há viés ideológico algum na trajetória do Dino Cazzola, assim como não há qualquer pretensão de valorar o acervo do cinegrafista, por sua relevância artística. O seu mérito foi ter reunido imagens… comerciais, institucionais, pessoais… que têm valor como memória! Como registros históricos de um tempo passado, da evolução urbanística de uma cidade, etc.
Todavia, essas imagens não são um fim em si mesmas! Os seus propósitos, neste caso, são o que menos importa. Note-se que, em sua esmagadora maioria, eram imagens mudas, cuja voz coube a nós promover. E, obviamente, demos a voz que quisemos dar. Não há ilusão de fidelidade de propósitos! A manipulação é rasgada, e isto grita nas cenas que nos remetem à ditadura. Nós usamos as imagens dos vencedores para contar a história dos vencidos. Está claro!
Quanto aos “registros de episódios desagradáveis para a ditadura”, se foram produzidos, ou mesmo reunidos pelo Dino, não sabemos. De fato, vamos ficar no “dizem” que foram feitos, e “dizem” que foram destruídos. Mas, nem por isto, a resistência ao Regime deixou de acontecer, e nem por isto haveríamos de sublimar esta importante parte da história de Brasília. Daí a razão de termos chamado um artista plástico, ex-estudante da UNB, a fim de nos fornecer elementos passíveis de melhor compreensão àquele momento.
Falando nisto, e se me permite ir além, acho um equívoco o entendimento de que a ditadura e todas as suas mazelas, não precisem mais ser sublinhadas! Isto é parte da história recente do País, e ainda hoje permanece na ordem do dia, a exemplo das discussões que vimos pulular aqui e ali, sobre a Comissão da Verdade, as comemorações ao golpe pretendidas e alardeadas pelos militares… e por aí vamos.
Enfim! É isto! Obrigada pela tua atenção e pela oportunidade de defendermos as nossas posturas com relação ao documentário.
Grande abraço,
Andrea Prates
O homem que ainda não conhecemos
março 27th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – O que você faria se tivesse um pai acusado de genocídio, que viveu sempre na sombra dos segredos de estado e que você nunca viu expressar um sentimento? Talvez fizesse um documentário. Foi o que fez Carl Colby em O Homem que Ninguém Conheceu (The Man Nobody Knew).
Seu pai, William Egan (Bill) Colby, foi agente especial da CIA na Itália do pós-II Guerra e no Vietnã. Chegou a presidente da agência no governo Nixon, cargo que passaria mais adiante para George Bush pai. Durante a guerra do Vietnã foi responsável pela implantação do Programa Phoenix, que ceifou cerca de 30.000 vidas como forma de aterrorizar os vietcongues. Até mesmo nos EUA ele foi criticado. Mais tarde, foi interrogado pelo Congresso por causa dos famosos assassinatos políticos (e tentativas) perpetrados pela CIA. Ou seja, um falcão negro americano por trás de uma fisionomia impassível de burocrata católico.
No filme, Carl pergunta-se pelo pai e ouve respostas da mãe, de jornalistas e políticos. Um misto de evocação familiar e arrazoado histórico se desenrola, calcado em massivo – e às vezes impactante – material de arquivo. As cenas do Vietnã são particularmente atrozes. Mas todo esse aparato não parece estar a serviço de uma verdadeira investigação sobre o caráter de Bill Colby. Carl faz um bom levantamento histórico, mas falha em desvendar a personalidade do pai. Ou talvez não fosse essa mesmo sua intenção, e aí o discurso em primeira pessoa serve apenas para “vender” melhor um projeto tradicional e superficial.
Os homens que eu tive
março 27th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Numa cena de Com Amor, Carolyn, a octogenária Carolyn Cassady mostra alguns lençóis onde teria dormido com Neal Cassady, seu marido, e Jack Kerouac, seu amante. “Se pudesse provar isso, venderia esses lençóis ao Johnny Depp por milhares e milhares de libras”, comenta. A fala condensa bem o quadro flagrado pelas jovens documentaristas suecas Maria Ramström e Malin Korkeasalo. Solitária, Carolyn vive basicamente das memórias de sua convivência íntima por 20 anos com os ícones da geração Beat. Daí tenta, não sem certa relutância, tirar seu sustento, no que é ajudada pelo filho, John Allen Cassady.
Quando o filme começa, Carolyn já se mostra uma mulher sem ilusões. Ela sabe que só está sendo objeto de atenção por ter tido os homens que teve, não por ser também uma escritora. Seu único livro, aliás, é Off the Road, um relato do seu ponto de vista da saga ficcionalizada em On the Road. Ou seja, é uma mulher ocupada por dois homens mortos há muito tempo, e que não conseguiu refazer sua vida amorosa. O atual revival dos beats é uma oportunidade para melhorar um pouquinho o baixo saldo bancário e colocar alguns pontos nos “is” – ou seja, dizer que a história gloriosa de Neal e Jack na verdade é uma história de autodestruição e desperdício de talento.
As diretoras transmitem nas imagens e sons o grau de intimidade que conseguiram estabelecer com a personagem. Não sei se algumas confissões envolvendo sexo e família já haviam sido antecipadas no livro, mas de qualquer forma ouvi-las de viva voz surte um efeito poderoso. No fim das contas, esse retrato de uma mulher forte e determinada fecha certos contornos da história maior que a envolveu e selou seu futuro. Como aperitivo para On the Road, de Walter Salles, é um dry martini no capricho.
Brasília segundo Cazzola
março 27th, 2012 § 1 Comentário
É Tudo Verdade – Nas sequências iniciais de Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília, vemos latas serem abertas para revelarem filmes em franca decomposição, alguns mesmo virando pasta de celuloide. Ouve-se a voz do técnico Francisco Sérgio Moreira repetindo: “lixo, lixo, lixo…”. Era o estado em que se encontrava a maior parte do acervo do produtor cinematográfico Dino Cazzola, sem contar o que já fora destruído pela censura e a incúria das redes de TV. Cazzola filmou Brasília de sua gestação até meados dos anos 1970. O filme de Andrea Prates e Cleisson Vidal (autores do essencial Missionários, de 2005) procura dar uma ideia e um sentido ao material restante, que não chega a 30% do que teria sido filmado.
O filme se organiza de maneira cronológica, como a recontar a história de Brasília através das cenas rodadas por Cazzola. Trata-se de uma opção problemática, já que o material não permite cobrir o período a não ser por saltos largos e sem muita conexão. Além disso, enquanto na maior parte do tempo as cenas de documentários e reportagens para a TV assumem corretamente o protagonismo como enunciadoras dos relatos, há trechos em que o artista plástico Xico Chaves parece ocupar o papel de narrador, fazendo com que as imagens se submetam a suas memórias, ligadas principalmente à resistência ao regime militar. Nesse desvio de prioridades, o filme corre o risco de se descaracterizar.
Da mesma forma, são discutíveis os recursos de edição para sublinhar o que não necessita mais ser sublinhado, como o golpe de 1964 e a decretação do AI-5. O epidódio da invasão da UnB é ilustrado com matérias de jornais e fotografias, o que reforça a impressão de que o acervo de Dino Cazzola se compunha basicamente de cenas oficiais – ou, como chamaria Paulo Emilio Salles Gomes – rituais do poder. Os registros de episódios desagradáveis para a ditadura, conta-se, teriam sido censurados e inutilizados pela TV Brasília.
O aspecto às vezes propagandístico da produção de Dino Cazzola talvez diga muito sobre seu lugar de imigrante agradecido ao país que o acolheu desde que ele se associou aos pracinhas na Itália durante a II Guerra. Sua história pessoal, se não fosse apenas ventilada, poderia jogar mais luz sobre a natureza dos seus filmes. O resgate está feito, mas ainda carece examinar com maior profundidade aquelas imagens.
Gata por lebre?
março 26th, 2012 § 2 Comentários

É Tudo Verdade – Frederick Wiseman tornou-se um mestre por observar o cotidiano de várias instituições americanas e, com isso, abrir janelas para o funcionamento da sociedade. Assim foi com escolas, delegacias, manicômio, forum judiciário, jardim zoológico, indústria da moda, academia de ginástica etc. Sua estratégia de não intervenção, supostamente neutra, catalisa toda a nossa atenção para os mecanismos e relações humanas observados, gerando uma impressão de testemunho direto. Vez por outra, Wiseman desloca seu olho – e sobretudo seus ouvidos, já que ele costuma captar o som de seus filmes – para Paris. Crazy Horse é o terceiro tomo de um trilogia parisiense que inclui La Comédie Française (1996) e La Danse (2009, sobre o Balé da Ópera de Paris).
Não conheço o primeiro, mas La Danse e Crazy Horse têm como alvo mais o espetáculo que o funcionamento da instituição. Essa mudança de ótica se intensifica em Crazy Horse, levando a uma das maiores decepções que já tive com um trabalho de Wiseman.
A começar pelo objeto em si. O Crazy Horse, com seus shows de strip tease e insinuações fetichistas e sadomasô, é um dos entretenimentos mais decadentes e ultrapassados que existem na Europa. Atende principalmente a turistas pequeno-burgueses, para quem ver mulheres “chiques” e seminuas dançando entre luzes coloridas ainda é um programa “ousado”. O conceito de mulher-objeto é celebrado em bundas iluminadas, meneios pseudoeróticos e sugestões de animalização dos corpos femininos.
Wiseman parece levar toda aquela vulgaridade a sério, submetendo-nos a longas performances aborrecidas. Quando vai para os bastidores, sucumbe a conversas sem rumo e claramente forjadas para a câmera. Ou então a falsas entrevistas para outros veículos, em que os responsáveis pela casa e o espetáculo se desdobram em autoelogios constrangedores. Tudo bem que o Crazy Horse seja uma “instituição” francesa em certo sentido, mas a falta de uma perspectiva crítica dá a entender que Wiseman estava colado àquela imagem ultrakitsch do erotismo comercial. Ou, quem sabe, comprando gata por lebre. Alguns poucos momentos mais reveladores, como a escolha das fotos dos clientes e das candidatas no teste, estão longe de justificar a opção por esse assunto nem muito menos um enfoque que se confunde com má publicidade.
Uma entrevista de Frederick Wiseman a propósito do filme: veja aqui
O outro lado
março 26th, 2012 § 1 Comentário
É Tudo Verdade – Para fazer Vivam os Antípodas!, Victor Kossakovsky dividiu o mundo em quatro quadrantes e foi filmar em oito locais antípodas que tivessem alguma população. Partiu um pouco assim como Cao Guimarães e Pablo Lobato partiram para as cidades mineiras filmadas em Acidente. Buscava um ponto fixo de onde pudesse retirar uma síntese poética do lugar. E daí construiu relações por contraste ou semelhança com os pares do outro lado do planeta.
Depois de curtir a suíte audiovisual resultante, o espectador pode se perguntar a que levou o filme. Talvez não leve mesmo a nenhuma conclusão sobre a vida na Terra, como era o caso da Trilogia katsi de Goddfrey Reggio, mas pelo menos leva a alguns lugares impressionantes. E é bonito como poucos documentários recentes. O virtuosismo fotográfico de Kossakovsky (ele mesmo faz a câmera e a edição) combina-se com o desenho sonoro muito criativo de Marc Lizier e a música de Alexander Popov para proporcionar um deleite praticamente ininterrupto.
A proposta é mais formalista do que, por exemplo, a do catalão Carlos Casas com sua Trilogia End, rodada em locais extremos do mundo. Kossakovsky tem um interesse apenas superficial pelos elementos humanos que escolhe, como se eles fossem mais um dado da paisagem. Os fragmentos de conversas e ações que percebemos – à exceção talvez dos irmãos argentinos que vivem isolados em Entre Rios – não chegam para caracterizar personagens. O foco do diretor está na ideia geográfico-poética (como bem disse Vitor Souza Lima) de que uma linha invisível uniria os antípodas. Kossakovsky brinca com os eixos – do planeta, da câmera e do nosso olhar – jogando com reflexos (reais e virtuais), imagens de ponta-cabeça, pessoas plantando bananeira etc.
O som também acompanha esse dispositivo de “eliminar” distâncias. Uma música havaiana parece animar um baile em Botswana, um coral russo empolga montanhas e lagos da Patagônia chilena.
Dois momentos me despertaram uma curiosidade especial: o plano de um leão bebendo água visto de dentro do lago (provavelmente filmado com fundo de vidro); e o longo travelling pelos hutongs (bairros populares) de Xangai, talvez a primeira influência que o documentário absorve do Google Street View.
Cara a cara com o monstro
março 25th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Em Duch, O Mestre das Forjas do Inferno, o documentarista cambojano Rithy Panh dá prosseguimento a seu acerto de contas com um passado que lhe custou uma tragédia. Aos 11 anos de idade, Panh viu seus pais e irmãs serem mortos pela polícia política e foi enviado a um campo de reeducação no interior. Em 2003, já consagrado como documentarista, fez o antológico S21 – A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, em que torturados e torturadores se reuniam para recontar os massacres da ditadura que ensanguentou a imagem do Camboja nos anos 1970 (leia mais aqui).
As imagens daquele filme voltam em Duch para serem confrontadas com o depoimento do carrasco Kaing Guek Eav, mais conhecido como Duch, o comandante do genocídio no S21. Só nas últimas cenas o filme revela a condição atual de Duch, mas a sinopse já informa que ele foi o primeiro oficial do Khmer Vermelho a ser condenado por uma corte internacional. Diante da câmera de Rithy Panh, ele desliza entre a assunção da culpa, a alegação de ter servido fielmente a uma ideologia e um tardio e vago arrependimento cristão. Suas reminiscências carregam um tom confessional de quem não espera mais o perdão. De resto, é um monstro capaz de racionalizar até a morte da própria mãe, ao mesmo tempo que o olhar esgazeado, os risos estranhos e as sinistras citações em francês dão conta de um homem frio e impiedoso.
Com seu habitual rigor, Panh usa rápidos flashes de arquivo dos tempos do Khmer como aparições do mundo dos mortos para assombrar o presente. O carrasco manipula e comenta documentos, slogans e fotos com impecável objetividade, enquanto admite ter se esforçado muito para esquecer os crimes que cometeu. Uma certa monotonia funciona como mote para essa minuciosa descrição das entranhas de um período de horror absoluto.
Sobreviver na revolução
março 25th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Muitas imagens correram o mundo simultaneamente e logo após a revolução egípcia do ano passado. O que ½ Revolução oferece de especial é basicamente a existência de um ponto de vista e de uma dramaturgia. Trata-se do testemunho de um grupo de amigos, alguns estrangeiros de origem árabe e residentes no Cairo, dos fatos ocorrido entre 25 de janeiro e 4 de fevereiro de 2011. Os protestos explodiam na Praça Tahrir, e esses jovens saíam às ruas com pequenas câmeras, como tantos outros. Filmavam as manifestações, os ataques da polícia, as nuvens de gás lacrimogêneo, os mortos e feridos, a trégua para as orações. Como tantos, eles também pediam pelo fim do regime.
A diferença é que o cinema estava nas veias deles. Por isso filmavam-se uns aos outros, as buscas desesperadas por notícias, as discussões caseiras a respeito de cada novo momento de uma revolta que começava a se transformar em guerra civil sem desfecho à vista. O que não conseguiam filmar, contavam uns aos outros diante da câmera. De alguma maneira, este é um filme sobre a revolução e como sobreviver dentro dela – desde comprar comida e leite para o bebê até safar a própria pele quando eles descobrem que moram numa rua infestada de gente pró-Hosni Mubarak.
O tratamento final das imagens e sons, numa reviravolta curiosa, tem algo dos filmes de ficção que emulam o estilo dos documentários de guerrilha urbana. A sensação é de estarmos vendo um filme de Roger Spottiswoode (Sob Fogo Cerrado) ou Paul Greengrass (Domingo Sangrento). Vivemos de fato uma era de hibridismo absoluto, em que os docs imitam as ficções que imitam os docs.
O filme assinado por Omar Shargawi e Karim El Hakim nos faz mergulhar no medo, na angústia e na esperança daquele pequeno grupo. Não os faz de heróis, como alguns críticos andaram apontando. Muito pelo contrário, o filme vai até o limite de sua tenacidade e desejo de sobrevivência. O título ½ Revolution sublinha a sensação que se seguiu à derrubada de Mubarak e à tomada do poder pelos militares: A Praça Tahrir protagonizou uma revolução ou apenas uma troca de guarda?
Ação e reflexão
março 25th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade – Pena que só depois de morto Augusto Boal ganhou um documentário capaz de sintetizar o seu trabalho seminal para a democratização do teatro no Brasil e no mundo. Vê-lo descrever suas experiências em Augusto Boal e o Teatro do Oprimido é talvez a melhor forma de apreendê-las, já que ele é sempre tão objetivo e convincente. O T.O., afinal, viveu sempre da ação e da reflexão, inseparáveis em sua proposta.
Zelito Viana e a produtora Vera de Paula pretendiam viajar com Boal registrando seus workshops em diversos países. Não conseguiram financiar o projeto, mas levaram o filme adiante assim mesmo. Obtiveram um material de arquivo fascinante de atuações do T.O. no Brasil, na Índia e em Moçambique. De resto, é o carisma de Boal que dá as cartas diante da câmera. Num dado momento, o próprio Zelito dá o seu depoimento, o que soa como se estivesse “assinando” o filme. Isso se justificaria melhor se estivesse claro que eles eram, de fato, velhos amigos.
O cordelista e os arquitetos
março 25th, 2012 § 1 Comentário
É Tudo Verdade – São relações que a gente só estabelece mesmo no âmbito de um festival como esse. Fora daqui, não faria o menor sentido. Mas, exibidos na mesma sala em sessões consecutivas, Cuíca de Santo Amaro e Os Irmãos Roberto acabam chamando atenção para as contaminações diversas que afetam a construção de um documentário.
Ambos tratam de personagens razoavelmente célebres, mas que não gozam da repercussão mais ampla de seus pares. O cordelista Jorge Gomes, vulgo Cuíca de Santo Amaro, foi um cronista social da Bahia nas décadas de1940 a 60, um empreendedor de si mesmo que ajudou a derrubar e eleger políticos, viveu da versificação de escândalos e do fruto de pequenas chantagens. Um “canalha modesto”, que, no dizer de Millôr Fernandes, apenas ecoou em escala miúda o comportamento da grande mídia. Já os irmãos Marcelo, Milton e Maurício Roberto foram expoentes um pouco menos conhecidos da arquitetura modernista carioca, responsáveis por prédios inovadores como a sede da ABI, o aeroporto Santos Dumont e os edifícios Marquês de Herval e Julio de Barros Barreto (junto à Universidade Santa Úrsula).
Cada um a sua maneira, os filmes procuram jogar luz sobre a atuação desses artistas, sem muita ênfase na sua vida pessoal. Os Irmãos Roberto, aliás, deixa esse aspecto completamente de fora. Os diretores Ivana Mendes e Tiago Arakilian concentram-se na discussão da obra do escritório MMM Roberto, capaz de tratar edifícios residenciais com requintes artísticos e atenção especial para o contexto urbano em que eles se inseriam. Algo muito diferente da arquitetura pretensamente luxuosa e indiferenciada que hoje prevalece. O que temos, então, é uma espécie de seminário de arquitetos e professores de arquitetura, ilustrado por descrições in loco de algumas dessas obras fundamentais. Uma apresentação, portanto, bastante racional e bem-comportada do assunto, com imagens enquadradas classicamente e alguma dificuldade na hora de se mover mais livremente pelos ambientes. A edição procura construir uma linha retórica sólida e única a partir dos vários depoimentos, realçando os pontos de continuidade e simetria. Ou seja, um doc que se pretende peça “arquitetônica” bem acabada e vistosa, inteligente e bem articulada. Como as construções que enfoca.
Cuíca de Santo Amaro, por sua vez, deixa-se contaminar pela verve baiana do personagem e dos demais “personagens” que falam sobre ele. A intenção dos diretores Joel de Almeida e Josias Pires, no fundo, não é muito diferente: trata-se de arquitetar um perfil tangível do poeta que se autodenominava “O Tal!” – assim mesmo, com ponto de exclamação. Há mesmo a necessidade de inscrevê-lo na história da cultura como sucessor de Gregório de Mattos e precursor do Tropicalismo. A diferença está no material, e isso vai afetar a relação que o espectador estabelece com o filme. Se em Irmãos Roberto, a gente ouve e tende a respeitar o que ouve, em Cuíca de Santo Amaro a gente ouve, duvida, ri e partilha a picardia.
Aparentemente muito distintos, mas com semelhanças subterrâneas, os dois filmes combinam o resgate de personalidades colocadas em segundo plano com denúncias de um estado de coisas (a arquitetura contemporânea, o jornalismo venal) e um grande desejo de mostrar seus personagens na moldura do seu tempo.
Fantasmas documentais
março 24th, 2012 § Deixe um comentário
É Tudo Verdade - Os 57 minutos de Tonia e seus Filhos se passam em torno de uma mesa. Pela iluminação e a gravidade das fisionomias, poderia ser uma mesa espírita. Diante do diretor Marcel Lozinski, dois irmãos confrontam-se com as memórias de sua mãe nos anos 1940, quando ela esteve presa por suposta colaboração com espiões americanos na Polônia. Não há espíritos, logicamente, mas fantasmas documentais que nos chegam através da leitura de cartas, relatórios de confissão e de tortura, além de umas poucas fotos e trechos de um filme inacabado. Há uma tensão no ar, pois Marcel (o personagem tem o mesmo nome do cineasta) desconhecia boa parte do que ocorrera com sua mãe. Chega a duvidar de que certos escritos sejam mesmo dela. A irmã, ligeiramente mais velha, o poupara das piores partes, ou talvez escondera por razões que o filme aos poucos vai descortinar.
Esse psicodrama familiar se desenrola com total sobriedade, apesar de os closes revelarem um mundo de emoções e algumas lágrimas. Em certos momentos, a acareação dos irmãos sugere uma nova sessão de tortura psicológica. Se o filme ganhou a competição nacional do Festival de Cracóvia é porque tem um apelo especial para o público polonês e a história do país. Entre nós, parece excessivamente austero e um tanto cifrado. Mais que tudo, é o nome do mestre Lozinski que, a meu ver, justifica sua seleção.
Um cabaré filosófico para Mautner
março 24th, 2012 § 2 Comentários
É Tudo Verdade – A abertura carioca do festival ontem (sexta) foi em total clima de festa. Amir Labaki, Jorge Mautner, o produtor Paulo Mendonça (Canal Brasil) e Heitor D’Alincourt, um dos diretores do filme, receberam uma plateia lotada (duas salas) para ver Jorge Mautner – O Filho do Holocausto. Ao final da sessão, não havia lugar para tantos sorrisos.
O filme de Pedro Bial e D’Alincourt (que passa hoje, sábado, em sessão aberta às 17h no Espaço Itaú de Cinema, ex-Arteplex) é de uma grande felicidade em captar o espírito performático de Mautner e abrir veredas para melhor compreendê-lo. Mautner é um tesouro semi-escondido na cultura brasileira: poeta, músico, pintor, filósofo, performer. Quem o conhece de fato além dos iniciados? Sem didatismo nem camisa-de-força biográfica, o doc faz esse serviço com graça e competência.
É um doc-show assumido. Nos muitos números musicais em que Mautner se apresenta com uma banda afiadíssima e participações de Caetano e Gil, assim como nas conversas gravadas numa estranha sala cheia de poltronas e móbiles – onde as pessoas falam frequentemente para “ninguém” –, rola um certo clima de estúdio de televisão, algo que tende a apequenar esteticamente as cenas. No entanto, esse handicap é sobejamente suplantado por uma indisciplina interna, uma impressão de caos (ou “kaos”) organizado que preenche tudo com a inteligência e a solenidade irônica do personagem.
Mautner ora aparece lendo trechos de suas memórias, O Filho do Holocausto, ora cantando ou declamando em clima de cabaré filosófico, ora trocando ideias com gente querida. A conversa com a filha Amora sobre os “micos” que ela pagou na infância por causa do pai está entre os momentos antológicos desse tipo de “papo-família” em documentários. O encontro com Gil e Caetano diante das imagens de O Demiurgo, piração filmada em Londres, 1970, é outra passagem fadada ao inesquecível. De uma ponta à outra, o filme diverte e adensa o perfil de Mautner, esse extremista de centro que tomou as ideologias como um parque de diversões.
O roteiro e a montagem são excelentes. Tiram partido de frases, canções e materiais de arquivo para construir um ensaio documental. As cenas de arquivo têm um papel criativo logo no início, quando imagens da II Guerra, ao som de Lágrimas Negras, marcam o ponto inicial de todas as obsessões do “filho do Holocausto”. Ou mais adiante, quando uma apresentação de palhaços num estádio de futebol comenta ironicamente o relato de uma briga (quase fatal) por causa do Corinthians.
Mas o melhor de tudo é a liberdade que Mautner e o filme se autoconcedem para aprofundar, sempre em tom de performance, o que existe de grave, complexo e ambíguo na persona desse pensador incansável.
Notas ao redor de “Pina”
março 23rd, 2012 § 4 Comentários
Por sorte, o primeiro grande filme sobre artes cênicas em 3D reúne dois nomes dignos da efeméride: Pina Bausch, a coreógrafa que alterou completamente o estatuto da dança no mundo, e Wim Wenders, um dos melhores pagadores de tributo via cinema. Pina é um filme glorioso, que nos encanta e arrebata, fazendo-nos sentir quase na carne o prazer e a dor da arte.
O filme está acima de comentários críticos, e eu mesmo não sinto a menor vontade de fazê-los. Prefiro chamar atenção para alguns pontos:
- Nos cinemas com projeção 3D, procure sentar-se nas últimas fileiras. Quanto mais longe, maior é o efeito de profundidade do palco onde os bailarinos evoluem.
- São três as participações brasileiras no doc: a canção Leãozinho, de Caetano Veloso, que marca um dos momentos mais “fofos” (a palavra é essa mesmo); a bailarina Morena Nascimento Regina Advento (obrigado, Liliam Hargreaves, pela correção), que integra a companhia e dá seu depoimento em português; e os desenhos de OsGêmeos, que aparecem nas paredes do túnel de uma ferrovia desativada perto de Wuppertal. Wenders também fotografou e expôs esse trabalho da dupla paulista (veja a nota no site deles). Além disso, consta que a coreografia Água, que encerra o filme, teria sido inspirada por uma visita de Pina ao Rio de Janeiro em 2001.
- A coreografia dos homens e mulheres perfilados frente a frente no salão é da obra Kontakthof. No filme, alternam-se adolescentes, adultos e pessoas idosas fazendo o mesmo número. Os adolescentes, que aparecem mais rapidamente (foto acima), eram amadores que toparam o desafio de aprender o método de Pina, muitos sem jamais terem ouvido sequer falar dela. Esse processo está no doc Sonhos de Dança – Nos Passos de Pina Bausch (Tanzträume), de Anne Linsel e Rainer Hoffmann (2010). Saiu em Portugal num DVD duplo com o Pina do Wenders. Um ótimo complemento, por sinal, já que mostra a árdua construção desse misto de dramaticidade e ludicidade, controle dos músculos e entrega radical que a gente vê no palco. E Pina aparece avaliando os alunos, reagindo às provas, etc. Ela era mesmo uma figura quase mítica, que despertava fascínio e medo nos jovens aspirantes, mas também era capaz de fazê-los descobrir o próprio corpo e perder a timidez.
- Wim Wenders é dono de uma magistral capacidade de compreender os objetos de seus documentários e forjar uma maneira orgânica de tratá-los. Basta ver como são diferentes os tributos que ele fez a Yasujiro Ozu em Tokyo-Ga, ao estilista Yoji Yamamoto em Notas Sobre Roupas e Cidades (no DVD brasileiro, Identidade de Nós Mesmos) e à velha guarda cubana em Buena Vista Social Club. Em Pina, a dança prepondera largamente sobre todo o resto, numa montagem excepcional que faz diversas coreografias se interpenetrarem e interagirem. Os curtos e multifocados depoimentos dos bailarinos não são ditos para a câmera, mas ouvidos por eles, como um eco de suas consciências.
- Veja e reveja o filme. Na segunda vez, é ainda melhor.
Meu souvenir de Tonino Guerra
março 22nd, 2012 § 2 Comentários
Por sugestão do Julio Miranda, publico aqui o autógrafo e a foto que colhi de Tonino Guerra (1920-2012) no Festival de Moscou de 1987. Eu estava no júri da crítica internacional (Fipresci). Ele estava lançando, com o diretor Francesco Rosi, a versão cinematográfica de Crônica de uma Morte Anunciada. Eu me arrepiava todo por estar hospedado no mesmo hotel que o grande roteirista de A Aventura e Blow Up (Antonioni), Amarcord e E La Nave Va (Fellini), A Noite de São Lourenço e Kaos (Tavianis), O Caso Mattei e Três Irmãos (Rosi), Nostalgia (Tarkovsky), Viagem a Cítera (Angelopoulos) e tantas outras obras-primas do cinema europeu.
Quando lhe pedi o autógrafo, ele perguntou meu nome e de onde eu era. Eu disse “Brasile” e ele, não sei por quê, desenhou esse patinho. É um dos meus raros animais de estimação.
Coutinho passo a passo
março 22nd, 2012 § 5 Comentários
A retrospectiva naciona
l do É Tudo Verdade este ano vai enfocar a trajetória de Eduardo Coutinho até Cabra Marcado para Morrer. Este foi um período em que o grande documentarista ainda tateava uma carreira. Estudou Direito, foi copidesque de revista, respondeu sobre Chaplin em programas de TV e fez seu primeiro curta como estudante do IDHEC de Paris. Ainda na França, dirigiu teatro infantil e seu primeiro documentário. De volta ao Brasil, envolveu-se com o CPC da UNE, Cinco Vezes Favela, roteiros de ficção como A Falecida, Garota de Ipanema e Dona Flor e seus Dois Maridos. Ao mesmo tempo, dirigia um episódio de ABC do Amor e os longas ficcionais O Homem que Comprou o Mundo e Faustão. Em seguida, “caiu na real” através do Globo Repórter, que iria prepará-lo para a aventura final do Cabra.
Esse itinerário foi recomposto no meu livro Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real, feito para o Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira (Portugal), em 2003. Modestamente, posso afiançar que é uma boa fonte de pesquisa sobre essa fase multidisciplinar da carreira de Coutinho, já que o excelente livro de Consuelo Lins detém-se apenas sobre o trabalho nos documentários.
Coloco aqui o PDF do livro completo para consulta e download. Ele cobre até Edifício Master. Compõe-se de uma introdução, uma grande entrevista, uma biofilmografia e capítulos sobre cada filme ou grupo de programas de TV, divididos em “contexto” e “análise”. Minha intenção foi justamente detectar as linhas de continuidade e os pontos de ruptura que conduziram o realizador até o que ele viria a ser na maturidade.
Clique para abrir: Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real
Julia entre dois mundos
março 20th, 2012 § Deixe um comentário
Julia, a peça-filme que deu a Christiane Jatahy o Prêmio Shell de direção e fica em cartaz nos dois próximos fins de semana no Espaço Sérgio Porto, é uma das melhores coisas que há para ver na cidade. Adaptando a peça Senhorita Julia, de August Strindberg, para uma ambientação superficialmente brasileira, o espetáculo condensa toda uma discussão contemporânea sobre a convivência das linguagens do cinema e do teatro.
Tenho estado envolvido com o assunto por conta da próxima edição da revista Filme Cultura, que terá esse tema de capa. O momento é fértil em aproximações dos dois campos – basta ver a safra recente de filmes de jovens realizadores (leia aqui) e experiências como a de Enrique Diaz em seu primeiro vídeo-ensaio (aqui). Christiane é talvez a maior desbravadora da hora. Não vi sua peça anterior, A falta que nos move, mas não me incluo entre os maiores admiradores da transposição cinematográfica no filme homônimo. Se uma tensão beckettiana especial se desenvolvia a partir dos improvisos no palco, acho que esta não passou incólume para a tela. A questão da simultaneidade no tempo presente acaba sendo decisiva para o efeito de uma tal experiência.
Mas o que talvez me seduza e interesse mais propriamente não é o que acontece no cinema “ou” no teatro. O grande barato de Julia é justamente o que acontece no meio, entre uma expressão e outra. E isso só é possível quando as duas expressões convivem de verdade. Julia está muito além do uso habitual de projeções em montagens teatrais com vocação multimídia. Já vi muitos recursos bonitos e expressivos nessa área, mas em Julia toca-se um nervo da questão. Nossa atenção e deleite são atraídos por algo que não é bem cinema, nem é bem teatro, mas pontes entre os dois.
Tomemos alguns exemplos. Numa cena, Julia (Julia Bernat) está no filme pré-gravado, dançando num jardim, enquanto o motorista (Rodrigo dos Santos) a observa de longe, ao vivo no palco. Mas um cinegrafista (David Pacheco), onipresente no espetáculo, o filma contra um pedaço de cenário coberto por uma trepadeira. Temos, então, duas telas: a de Julia no jardim e outra com o close do rapaz contra as plantas, atirando-o virtualmente para fora do palco e para “dentro” do jardim. Outro momento: Julia e o motorista conversam durante um banho de piscina noturno pré-filmado. Em seguida decidem entrar na casa, isto é, ao vivo no palco. Diante do público, eles molham o corpo com a água de uma garrafa para simular a saída da piscina.
Um jogo lúdico assim se estabelece entre o teatro e o cinema. Numa cena, Julia parece flertar com a câmera e fotografa o cinegrafista com seu celular. O cameraman, por sua vez, dita ordens, pede repetições e acaba virando literalmente outro personagem. Mas se esse jogo repercute o jogo de poder, preconceito e sedução que rola entre Julia e o motorista de sua família (“pare de me filmar!”), não é somente de brincadeiras que ele é feito. A filmagem ao vivo (live cinema) também potencializa as emoções em pauta – como na cena em que os dois fazem sexo num quarto diminuto, apartados fisicamente das nossas vistas, mas extravasando nos closes do telão. Ou na primeira grande crise de Julia, quando as imagens filmadas de seu rosto sublinham a linguagem corporal da atriz ao vivo (foto acima).
Julia é excepcional porque toca alguma coisa que é essencial na percepção contemporânea. Real e virtual se comunicam, se intensificam mutuamente e geram, de fato, uma terceira coisa. O espetáculo está sendo transformado em filme para cinema. Christiane Jatahy demonstra domínio da decupagem e do tempo cinematográficos, como provam as belas cenas da piscina. Mas ainda não sei até que ponto a fruição excitante de Julia só se realizará plenamente nessa situação flutuante, nesse espaço meio mágico entre corpos e telas. O filme vai forçosamente subtrair uma dessas instâncias. Em que sentido a falta do palco vai mover a experimentação? Aguardamos ansiosamente.
Personagem de si mesmo
março 18th, 2012 § Deixe um comentário
Paulo Lima, grande curtidor de documentários e editor do Balaio de Notícias, comenta para nós o recém-lançado em DVD Um Retrato de Woody Allen, de Barbara Kopple.
Um Retrato de Woody Allen (Wild Man Blues), da cineasta americana Barbara Kopple, é uma rara oportunidade para os fãs conhecerem um pouco da intimidade do diretor americano.
O documentário, que acaba de sair no Brasil pela Flashstar Filmes, retrata a turnê que Woody fez em 1996 por 23 países da Europa com sua banda Woody Allen´s Jazz Band, destacando cenas das apresentações e de seus bastidores nas principais cidades, como Paris, Roma, Milão, Veneza e Londres.
Mas o filme não se resume a um mero road doc. Vai além de seu aspecto musical exatamente por expor hábitos e ideias de um dos mais controvertidos e criativos cineastas da história do cinema.
Acompanhado de sua irmã e da mulher Soon Yi Previn, a ex-enteada que foi pivô do ruidoso rompimento do diretor com Mia Farrow, Woody destila humor inteligente a cada cena, de tal modo que ficamos nos perguntando se não estaríamos diante de mais um de seus filmes.
É como se ele fosse personagem de si mesmo, enxergando a realidade pelas lentes prismáticas do cinema. Uma das cenas do filme mostra Woody e Soon em meio a um romântico passeio de gôndola, cortando um dos canais de Veneza. O barco atinge uma área deserta. Woody observa: o gondoleiro podia matá-los ali mesmo e ninguém ficaria sabendo.
Noutra cena, ele e Soon tomam o café da manhã num quarto de hotel. O serviço é falho e esquecem de servir as torradas incluídas no pedido do casal. Soon questiona se não seria o caso de reclamar. Woody alerta para deixar assim mesmo, pois o garçom é um psicopata que está tendo uma segunda chance.
A cada aparição em locais públicos, Woody recebe o tratamento de pop star, assediado por fãs e paparazzi. São várias as provas de admiração que lhe são devotadas. Num coquetel oferecido pelo prefeito de Veneza, ele é assediado por uma senhora que admite que sempre sonhou em conhecê-lo. Na apresentação da banda em Paris, uma francesa assanhada grita da plateia que gostaria de seguir viagem com ele.
Curiosamente, perante os insights genais de Woody, a exposição de seu lado de músico, que vem a ser o objetivo primeiro do documentário, acaba se revelando algo secundário. O jazz executado por sua banda remete à mais típica tradição de New Orleans, tão “cru”, na definição de um dos integrantes do grupo, que Woody teme não despertar o interesse das plateias. Mas, ao olhar do leigo, Woody parece não decepcionar como clarinetista. Digamos que ele não é exatamente um Benny Goodman, mas, bem, não podemos afirmar que, como músico, ele é um ótimo cineasta. Ao menos dedicação não lhe falta. Ele conta que costuma ensaiar duas horas por dia.
A partir do momento em que ficamos sabendo que Soon Yi Previn é personagem do filme, a nossa curiosidade de voyeurs se ilumina. Bem, há um abismo geracional entre eles. E, convenhamos, Woody Allen atraiu a ira conservadora contra si ao por fim ao seu relacionamento com Mia Farrow para se unir a uma filha adotiva dela com o maestro André Previn. Mesmo num meio em que atitudes bizarras exorbitam, a decisão de Woody assombrou a todos. Como seria, afinal, o relacionamento dos dois? Até onde as lentes de Barbara Kopple puderam captar, Soon não parece intimidada pela fama do marido. Numa cena em que discutem entre si o porquê de o cinema de Woody Allen fazer mais sucesso na Europa do que nos Estados Unidos, Soon chega mesmo a admitir que não viu todos os filmes dele. Ela desfila um humor leve e juvenil, em contraste com o olhar trágico de Woody, e parece se divertir como ninguém com o negócio da turnê.
Ao retornar para Nova York, Woody faz uma visita aos pais. No colóquio familiar que se segue, sua mãe revela que preferia vê-lo casado com uma moça judia em lugar de uma chinesa, para constrangimento da doce Soon Yi Previn, presente ao encontro. Nada seria mais representativo da atitude de uma mãe judaica. E nada seria mais típico de um filme de Woody Allen.
Paulo Lima
Os corpos de Steve McQueen
março 16th, 2012 § 1 Comentário
Seu nome artístico é idêntico ao do louro e anguloso galã americano de Bullitt, Papillon e Crown, o Magnífico. Mas as semelhanças terminam aí. Steve McQueen, o diretor de Shame, é um negro e corpulento inglês que já jogou muito futebol, mas cedo trocou os gramados pelo piso lustroso dos museus de arte contemporânea. Shame, com seus parcos diálogos e muita presença corporal, herda características de alguns curtas experimentais e videoinstalações do autor. Bear (1993), por exemplo, mostrava dois homens nus (um deles o próprio McQueen) que trocavam olhares variando entre o flerte homossexual e a agressão. Em Deadpan (1997), uma casa desmoronava em torno do corpo do artista, que permanecia imóvel e indiferente.
Brandon, o personagem de Shame vivido por Michael Fassbender numa atuação que muitos (eu nem tanto) consideraram digna de um Oscar, é mais uma variante desse corpo másculo colocado em situação-limite. Fassbender é o novo Daniel Day-Lewis, com quem divide a mesma intensidade e até certa semelhança física. Ele já fizera o papel central de Hunger, o primeiro longa de McQueen. Nesse filme, a meu ver bastante superior a Shame, o ator vivia Bobby Sands, o líder da greve de fome e de higiene dos prisioneiros do IRA em 1991. Fassbender emagreceu 16 quilos durante as filmagens, chegando a um estado semicadavérico nos dias finais do militante. Hunger mostrava a resistência do corpo como derradeira arma política.
Em Shame, o corpo é a fonte de vergonha que abala o cotidiano de Brandon, um homem viciado em sexo virtual e solidão. A maneira como McQueen constrói seu personagem, sem muitas explicações psicológicas nem contextualizações, é típica de seus procedimentos narrativos. Suas melhores cenas são aquelas sem diálogo, como a paquera no metrô que abre o filme – um contato sexual que progride pelos olhares e meios sorrisos. Ele faz um cinema basicamente de sensações, usando os tons da fotografia para “dizer” o que não vem em palavras nem cenas descritivas. “O que pode agarrar uma plateia são os elementos táteis do cotidiano”, já declarou a respeito de suas escolhas. A impressão de enclausuramento e mal-estar que prevalecia em Hunger, todo ele filmado em celas e corredores de um set-presídio, dá as cartas também em Shame, embora este se passe em ruas, prédios e principalmente no metrô de Nova York. Mas é uma Nova York átona, descolorida e depressiva, muito bem expressa na maneira como Sissy (Carey Mulligan), a irmã autodestrutiva de Brandon, canta New York, New York num clube noturno. Eu nunca imaginei que esta canção celebratória pudesse adquirir ritmo e tom de canto fúnebre (veja a cena).
A trilha sonora atmosférica de Shame é um de seus pontos fortes, ao passo que Hunger não tinha um único acorde musical. De resto, o filme se organiza em tempos flutuantes, descontínuos e fragmentados, que em certas cenas de rua evocam o estilo de John Cassavetes, sobretudo em Amantes. Críticos-psicanalistas como meu colega Luiz Fernando Gallego poderão apontar vínculos entre as relações que Brandon estabelece (ou tenta estabelecer) com parceiras de todo tipo e o laço neurótico e possivelmente traumático entre ele e a irmã. Mas as pistas que McQueen deixa pelo caminho são tênues e vagas. O que lhe interessa é sobretudo usar o cinema como uma espécie de espelho deformante, mas que assim mesmo restitui uma verdade mais profunda sobre os corpos que reflete.
20 anos de teatro cidadão
março 14th, 2012 § Deixe um comentário
De Brecht à Bósnia, de Lima Barreto a Heiner Müller, de Martins Penna a João Cabral de Melo Neto, o repertório da Companhia Ensaio Aberto é um elogio do teatro como mix de divertimento e reflexão política. Luiz Fernando Lobo, Tuca Moraes e sua trupe estão há 20 anos na estrada e comemoram a data com um belo livro sobre sua trajetória. O lançamento será na próxima sexta-feira, às 19 horas, na Livraria Travessa do Shopping Leblon.
A documentação do fazer teatral é sempre uma forma precária, mas a única, de preservar o que nasceu para durar apenas uma temporada. A Ensaio Aberto teve o privilégio de ter seus 20 espetáculos fotografados por Antonio Augusto Fontes. Esse material, junto com o de outros fotógrafos (a companhia sempre permitiu a qualquer um registrar seus espetáculos), faz as delícias visuais do livro. De resto, há textos de Lionel Fischer, Iná Camargo Costa, Felipe Radicetti, Pedro Tierra, Batman Zavarese e Tuca Moraes sobre vários aspectos do trabalho e uma entrevista de Luiz Fernando Vianna com o diretor do grupo.
Assisti a muitas montagens da companhia (leia sobre a última de Missa dos Quilombos) e testemunhei como eles se lançaram com enorme apetite a vários formatos teatrais. Cemitério dos Vivos (sobre Lima Barreto) e A Missão (de Heiner Müller) explodiam o palco por diversas dependências do Palácio da Praia Vermelha e do Paço Imperial, respectivamente. Cabaré Youkali e Café Havana exploravam as ambiguidades do estilo cabaré em espaços naturalmente mais confinados. Estação Terminal estimulava performances interativas com a plateia. Bósnia, Bósnia e Olga Benário – Um Breve Futuro expandiam sua ação através de recursos multimídia no rumo do teatro-documentário em parcerias com Silvio Tendler e o pesquisador de imagens Antonio Venâncio. Companheiros e Missa dos Quilombos investiam no musical de contornos sociais e fatura épica. A dar unidade a essas várias experiências estava sempre o compromisso com um senso de coletivo, não só dentro do grupo, mas também para fora dele.
A Ensaio Aberto leva a sério o seu título tentando atrair para o teatro parcelas da população que não têm o hábito de frequentá-lo. Para isso, sempre ofereceu espetáculos a preços populares ou gratuitos a populações de baixa renda, assim como articulou a formação de plateias cidadãs em comunidades, colégios (preferencialmente públicos), sindicatos, associações de moradores e movimentos sociais organizados. Levou a suas peças grupos de presos em regime semi-aberto, crianças em situação de risco, mendigos e doentes mentais. A proposta é “refuncionalizar o teatro”, tornando-o mais includente e mobilizador.
Aos 20 anos, com esse livro, a Ensaio Aberto dá mais um passo no sentido de superar a natural efemeridade do teatro. Uma próxima etapa desejável seria o lançamento de uma caixa de DVDs com os registros de alguns espetáculos. Não custa nada sonhar.
O livro do DOC TV
março 12th, 2012 § 3 Comentários
Uma das mais felizes iniciativas do governo Lula na área do audiovisual, aparentemente descontinuada no governo Dilma, o programa DOC TV possibilitou a criação de quase 200 documentários e a exibição de mais de 3.000 horas de material nas TVs públicas de todo o país. O programa foi reeditado por outros países da América Latina e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Essa história de sucesso acaba de ser contada em livro, organizado pela jornalista Maria do Rosário Caetano. Com textos de apresentação de Orlando Senna, Silvio Crespo e Maria do Rosário, resenhas críticas de 10 docs e sinopse e ficha técnica de toda a coleção, Doc TV Operação em Rede será lançado em São Paulo durante o Festival É Tudo Verdade, em fins deste mês. No Rio, articula-se um lançamento possivelmente no âmbito do Cinesul, em junho.
A seguir, adianto o texto que me coube fazer a respeito de Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato, um dos vários rebentos do programa que viraram pequenos clássicos do doc brasileiro contemporâneo.
Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem
Crianças vestidas de anjo numa procissão, uma carroça subindo a ladeira, um homem olhando o vazio, dois copos de plástico rolando na brisa. Imagens assim banais e descontextualizadas intrigaram os primeiros espectadores de Acidente. Que informações elas transmitiam, perguntavam-se os objetivistas do documentário. Que relação havia entre elas, além do fato de terem sido colhidas em pequenas cidades do interior de Minas Gerais, indagavam-se os ciosos da narratividade. Melhor deixar a análise para uma segunda visão, ponderavam críticos responsáveis.
De fato, os pequenos mistérios de Acidente se revelam com calma – e melhor ainda numa revisita ao filme. Arquitetos do acaso, Cao Guimarães e Pablo Lobato deixaram-se guiar pelo fortuito quando visitavam aquelas cidades de nomes sugestivos. Lançavam sobre elas um olhar sem pautas, uma observação interessada não nos nexos possíveis entre fatos e pessoas, mas nos eventos imprevistos, flagrantes mínimos ou micro-histórias que fossem capazes de produzir um sopro de identidade para cada lugar.
Assim, alguns são representados por metáforas alusivas ao seu próprio nome. O município de Tombos, por exemplo, é visto em fragmentos de prédios enquadrados contra um imenso céu azul, assim como se a cidade tivesse virado de ponta-cabeça. Fervedouro, por sua vez, é mostrada na figura de um caminhoneiro que troca seu veículo abrasador pelo mergulho numa piscina. Espera Feliz, minha favorita, faz-se presente através de diversos planos curtos e estáticos onde subitamente se desenha uma ação, criando no público uma (feliz) expectativa a cada momento. Há mesmo o recurso ao mero trocadilho, como na cidade de Jacinto, presente na pele de um velho (aparente morador de rua) que entoa uma canção de dor de cotovelo.
Mas a funcionalidade das figuras de linguagem não são o único procedimento de que se valem Cao e Pablo. A cidade de Ferros comparece por meio de duas ações infantis em direções opostas: um menino que escala um pau-de-sebo e outro que mergulha nas águas de um rio. Abre Campo e Descoberto se inserem por meio de imagens de ruas semidesertas ou de uma movimentação de pessoas estranhamente desconectadas, como num sonho. Vazante e Heliodora se mostram mais confessionais, com personagens que interagem com a câmera.
O acidental se opera em vários níveis. O material gravado em cada cidade contém o seu próprio dispositivo, fruto da escolha momentânea dos realizadores: ora a observação estendida, como no balcão do bar em Entre Folhas; ora um esboço de interação; ora, ainda, a pura busca da plasticidade de um pedaço de chão, um céu noturno, o vento na relva. O campo semântico do título inclui, naturalmente, os acidentes geográficos que determinam a topografia das cidades e em boa medida a relação que com elas estabelecem os seus moradores.
Por outro lado, se a ordenação das cidades atende ao desejo de formar um (duvidoso) poema com seus nomes, pode-se perfeitamente argumentar que outras várias ordens seriam possíveis e igualmente poéticas. Prevalece, então, mais uma vez, a impressão de casualidade, tanto no interior de cada episódio, como na sua sucessão.
Dizer, porém, que o acidental do filme quer corresponder ao acidental da vida seria reduzi-lo ao que não é. A impressão do imprevisto contrasta com sinais de uma construção minuciosa na edição de imagens e de sons (offs, ambientação sonora do Grivo, um latido de cão que transborda de Pai Pedro para Abre Campo). O acidente, no fundo, é uma reconstrução a que se chega na base do recorte, da aproximação de coisas distantes e do acréscimo desmotivado.
Realizado em 2005 e exibido com êxito e prêmios em vários festivais nacionais e internacionais, Acidente foi um dos primeiros rebentos a demonstrar o potencial do programa DOC-TV, seja em termos de diversidade de modelos documentais, seja em abertura para a modernização da prática no Brasil. O filme tornou-se referência nos estudos do chamado “documentário de dispositivo”, que substitui os tradicionais roteiros e pesquisas por eleições prévias e critérios predefinidos de filmagem que vão gerar a unidade e a força do filme.
Acidente também ajudou a consolidar certos tipos de experiência que caracterizam o documentário mineiro contemporâneo. Entre elas, a rarefação do aspecto narrativo em troca de uma lógica mais lírica; a atenção a uma fenomenologia do contato entre homens e natureza; a tematização de acontecimentos miúdos, corriqueiros ou levemente excêntricos; e por fim a convivência de estéticas do documentário, da videoarte e das texturas mais evocativas do Super 8.
Os montadores se organizam
março 8th, 2012 § 2 Comentários
Embora só vá ser oficialmente fundada no próximo sábado, a Associação de Editores e Montadores do Rio de Janeiro, a primeira da categoria no Brasil, já conta com mais de 120 associados. Quem nos relata a história e os objetivos dessa iniciativa é a editora e diretora Nina Galanternick:
“O grupo começou a ser fomentado no Facebook e, com o desejo de ser muito mais que um movimento virtual, teve seu primeiro encontro presencial em agosto de 2011. Sete meses depois, já foram mobilizados mais de 120 editores, montadores e assistentes de edição atuantes no mercado do Rio de Janeiro. Profissionais experientes como Eduardo Escorel, Mair Tavares, Diana Vasconcelos, Ricardo Miranda, João Paulo de Carvalho e Jordana Berg apoiam essa iniciativa histórica.
As principais linhas de ação da associação serão a elaboração de um contrato-padrão para ser implementado junto às produtoras do Rio de Janeiro (hoje muitos profissionais ainda trabalham sem contrato); incentivar a melhor formação dos editores e assistentes de edição; elaborar uma ferramenta de comunicação que possibilite a troca de informações técnicas, a divulgação dos profissionais associados, bem como um mural de oportunidades profissionais.
A pré-chapa para diretoria é composta por Fernando Vidor (presidente), Pedro Bronz (vice-presidente), Fernanda Bastos (secretária), Helena Lent (1ª tesoureira) e Gabi Paschoal (2ª tesoureira); e para o conselho fiscal: Nina Galanternick, Rodolfo Vaz e João Velho.
Segue um dos textos de convocação para a assembleia:
“O antigo desejo de fundar uma associação de montadores e editores no Rio de Janeiro está prestes a se concretizar. Essa associação vai nos fortalecer, não para impor o que quisermos, mas para termos voz. Tendo voz, poderemos mostrar quem somos. E quem nós somos? Precisamos ser auto-conscientes da nossa importância e do nosso valor, ser conscientes de que cada um é exemplo para os outros e cada ação ou omissão repercute. Está ao alcance de todos participar e incentivar outros montadores, editores e assistentes a participar, assim a Associação vai ficar ainda mais forte e, ao mesmo tempo, mais acessível para todos. É o pequeno esforço individual gerando grande benefício coletivo. Vamos oferecer o melhor que pudermos para nos orgulharmos de quem somos e da Associação que construiremos. Venha fazer parte e chame outros editores. A força está na nossa união.”
A assembleia de fundação da associação ocorrerá no dia 10 de março de 2012, no espaço do teatro da Escola Edem (Rua Gago Coutinho, 14 – Catete), a partir das 17 horas.”
Nina Galanternick
E-mail para contato: associacaodemontadores@gmail.com
O inferno da paixão sem meias-palavras
março 6th, 2012 § 1 Comentário
Vai até quinta-feira no Cine Olido, em São Paulo, a mostra “A Chave Mágica do Cinema de Alberto Salvá”. É uma rara oportunidade de ver o conjunto da obra desse realizador um tanto especial no panorama do cinema brasilero. Nascido em Barcelona, chegado ao Brasil aos 14 anos de idade, Salvá não era dos mais conhecidos cineastas brasileiros, mas tinha seu nome tatuado em filmes seus e alheios, programas da TV Globo e no ensino de roteiro (saiba mais sobre ele). A Menina do Lado (1987) foi seu maior sucesso comercial e Um Homem sem Importância (1971), sua obra-prima. Faleceu em outubro do ano passado, depois de ver pronto seu último longa, Na Carne e na Alma.
Este filme, ainda inédito em circuito, passa terça, quarta e quinta às 19h30 no Olido. No Rio, será reprisado pela Mostra do Filme Livre (CCBB) no próximo dia 20, às 17h30. Agende-se porque esse conto de uma paixão infernal merece ser visto.
Na Carne e na Alma tem ingredientes comuns a outros filmes de Salvá, como o erotismo e os rumos desvairados a que o amor pode levar as pessoas mais comuns. Nesse caso, um jovem universitário tipo garanhão (Karan Cabral) que mora em Niterói e exerce seu donjuanismo numa faculdade da Zona Sul do Rio. Quando ele conhece Mariana (Raquel Maia), sobretudo quando é apresentado aos seios perfeitos da moça, o vírus da dependência se instala inapelavelmente. Ele passa a querer “tudo” de Mariana, inclusive o que está além de todas as conveniências. A paixão não conhece limites escatológicos, nem Salvá estava disposto a respeitá-los. Nesse sentido, é um dos filmes mais ousados já feitos no Brasil.
Essa potência de ousadia é atenuada por um enfoque bastante romântico, como se fosse um teste para ver até onde o lírico das intenções resiste à crueza da exposição. Essa mesma potência vai compensar as deficiências mais evidentes no vácuo entre roteiro (baseado no romance Deusa Cadela, de André Abi-Ramia) e realização. Embora os diálogos sejam quase sempre inspirados e adequados, há uma defasagem entre a maneira de os atores se colocarem em cena – mais o ator que a atriz – e as situações que os personagens se dispõem a viver. Isso faz alguns momentos parecerem gratuitos ou desmotivados, assim como a caracterização dos pais se acomoda em estereótipos.
É curioso, porém, como certas imperfeições acabam contribuindo um pouco para a estranheza e o desconforto causados pelo filme. Elas parecem emanar da própria natureza desse amor sujeito ao imprevisto dos humores, às banalidades do cotidiano e à imperfeição básica, afinal, de qualquer caso de paixão.
Veja o trailer:
Máquinas do tempo
março 2nd, 2012 § 4 Comentários
Três filmes oscarizados este ano compartilham o diálogo entre os cinemas americano e francês (e as respectivas culturas, de certa maneira) e o interesse pelo retorno no tempo como matéria de suas dramaturgias. O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e Meia-noite em Paris propõem viagens ao passado como legítimo escapismo, sem estabelecer conflitos nessa passagem nem propor discussões diretas sobre a atualidade. Gosto do artigo de Leandro Calbente no seu blog, em que ele faz paralelos entre a crise do ator na virada para o cinema silencioso e a resistência atual de muita gente ao novo estado da cultura digital e à consequente revolução no conceito de direitos autorais. Se a lembrança é cabível, é também necessário reconhecer que o filme de Michel Hazanavicius está longe de carregar qualquer intenção nesse sentido.
O Artista é mais um tributo a uma maneira estritamente americana de fazer e pensar o cinema, baseada na sucessão de inovações tecnológicas e na balança do sucesso estelar. Esse elogio a um modelo clássico – que repercute Cantando na Chuva, Nasce uma Estrela e tantas efemérides hollywoodianas – certamente influenciou na paixão dos americanos pelo filme e na consagração da Academia, mesmo que falte o que deveria ser o ingrediente principal num candidato a melhor filme: originalidade. O Artista é um pastiche, extremamente simpático, sem dúvida, e muito bem realizado. Mas só adquire personalidade própria aqui e ali, quando lança mão da metalinguagem para abordar o trauma do som no personagem de Jean Dujardin. A volta ao passado é feita como alguém que veste uma roupa completa de outra época e imita todos os gestos daquele tempo. Em O Artista, o passado é uma imitação.
Já em Hugo, o passado é algo a resgatar, a retirar do esquecimento. Scorsese lida com dois passados distintos: o tempo de Hugo (passado para nós) e o de Méliès (passado para Hugo). Por muitas razões, é o filme mais rico dos três, já que trabalha com a própria ideia do mecanismo, das máquinas do tempo (relógios, cinema), tudo encadeado num trem de referências que nunca sai dos trilhos. O passado é objeto de carinho e reconhecimento, bem de acordo com a reverência de Scorsese às forças vitais do cinema, à recuperação de filmes perdidos e ao que poderíamos chamar de uma cinefilia produtiva, que não se contenta com o consumo e a admiração.
Assim como o filme de Woody Allen, Hugo faz “pontes” entre os tempos históricos da arte, conectando os pioneiros do cinema com os filmes de aventura e as comédias screwball dos anos 1930, o espírito dos livros de Charles Dickens e, entre outras coisas, a era do cinema digital em 3D. Embora inteiramente situado no passado, Hugo é um filme que, ao contrário de O Artista, esbanja contemporaneidade. O uso do 3D é o melhor que já vi até hoje, na medida em que explora suas potencialidades poéticas (as fumaças, a poeira no ar, a radical separação de personagens e objetos do fundo quando isso importa dramaticamente) e tematiza o poder projetivo que está na constituição mesmo do cinema. Nesse aspecto, é magistral a recriação da famosa reação da plateia à chegada do trem dos Lumière, como se ali estivesse contida a antecipação da tridimensionalidade. Não passa despercebida também a discreta conversão para 3D de um velho filme de cavalaria de guerra, num momento em que grandes épicos de Hollywood estão voltando reconfigurados para essa tecnologia.
Mesmo sendo a obra-prima que é, mesmo sendo o filme da vida de Martin Scorsese, a Academia de certa maneira o puniu negando-lhe os prêmios mais destacados no setor de criação. Um raciocínio não pode ser descartado: em O Artista, os americanos se viram homenageados pelos franceses com um filme que eles poderiam (ou gostariam de) ter feito. Hugo, ao contrário, usou os melhores recursos do cinema americano para homenagear o cinema francês, como a reafirmar sua precedência histórica. Mais uma vez, o Oscar premiou o elogio a sua própria indústria. Preferiu o business à arte.
Por fim, Meia-noite em Paris mostra o passado como uma fuga, uma distração e também uma espécie de consolo para um americano entediado. Reforça a ideia de um Woody Allen que se aconchega cada vez mais no afeto do público europeu. Dos três filmes, é o único que enfoca diretamente a atualidade. A mitologia da Paris dos anos 1920 abre uma “porta” mágica na realidade atual, avizinhando-se de um ficção científica poética. Dos três, é também o mais kitsch em sua aproximação embevecida dos mitos da cultura francesa. Ainda assim, talvez seja o mais realista, na medida em que destaca, junto com as seduções da fantasia, também as suas limitações. O destino dos personagens não deixa dúvidas: por mais que a imaginação, o cinema e as outras máquinas de transporte nos abram portas e pontes, estamos irremediavelmente acorrentados ao nosso tempo.
“Hello, sir!”
fevereiro 28th, 2012 § 6 Comentários
Inquietações de um foreigner no sul da Índia
Venho de passar 22 dias na Índia. Os primeiros oito dias como jurado da crítica no Mumbai International Film Festival, os demais como turista solitário por várias cidades do sul do país. A experiência de estrangeiro na Índia é sempre um mix de sensações muito diversas, às vezes opostas. Fascinação e constrangimento, identificação e repulsa se alternam e se confundem. E isso de ambas as partes, tanto entre os locais como entre os visitantes.
O sul é ainda mais particular na relação com os foreigners, uma vez que lá há muito menos turistas ocidentais que no Norte, a parte mais “épica” e pitoresca do país. O sul é mais resguardado, mais conservador e menos chamativo. À exceção do estado de Kerala – aliás, excepcional em muitas coisas –, no sul o visitante estrangeiro se vê na companhia principalmente de turistas internos, ou mesmo peregrinos no rumo de lugares sagrados.
Muitas das minhas observações aqui dizem respeito à Índia em geral, mas algumas podem se referir especificamente a particularidades do sul.
Not allowed
Em Bombaim, Cidade Máxima, o autor Suketu Mehta escreveu que a Índia é o país do não. Já em Suíte Elefanta, Paul Theroux afirma o contrário: é o país do sim. De alguma maneira, os dois têm razão. Mehta descreve o seu próprio país do ponto de vista de um indiano que viveu fora e voltou para vivenciá-lo de novo. Theroux de alguma forma projeta-se nos seus personagens, traduzindo a experiência do estrangeiro. Em uma palavra, a vida é dura para os indianos pobres, mas pode ser muito privilegiada para os foreigners com cor de pele diferente e moeda forte no bolso.
A expressão “not allowed” talvez seja a mais popular no caminho do turista na Índia. Não é permitido tirar fotos ou entrar de sapatos na maioria dos museus e em todos os templos; não se pode tomar bebidas alcoólicas na maioria dos restaurantes; as placas de proibição se multiplicam como moscas no mercado de peixe. Há um respeito religioso pelas regras formais, em contraste com a ausência total de regras, por exemplo, no trânsito e no corpo-a-corpo das cidades. Filas são para ser furadas, faixas de tráfico são para ser atravessadas, um corpo à sua frente é para ser suavemente empurrado para o lado por quem abre caminho. Mas se você tenta pedir autorização para o que seja, a resposta é invariavelmente “not allowed, sir”.
Notei uma tendência a elogiar os empreendimentos e companhias do governo como se fosse um padrão esperado de comportamento. No entanto, um pouquinho mais de conversa vai mostrar que o cidadão, no fundo, confia mais na eficiência das empresas privadas.
100 rúpias
Aos poucos, a gente vai descobrindo que há caminhos alternativos para aquilo que se quer fazer. E eles geralmente custam 100 rúpias (o correspondente a 4 reais). Um guarda de museu pode autorizar sua entrada com uma câmera no Palácio de Mysore por 50 ou 100 rúpias, muito embora se outro policial o flagrar utilizando-a, vai chamá-lo no canto para cobrar uma “multa”: provavelmente mais 100 rúpias, entregues sem nenhuma discrição. Ou seja, a pequena corrupção é tão clara e oficial como um ticket alternativo.
O turista estrangeiro é visto como potencial complementação de salário. Em Fort Cochin, simpaticíssimo recanto de Kerala com traços de colonização portuguesa e muitas igrejas católicas, os pescadores que utilizam as famosas redes chinesas tiram seu sustento mais da “pesca” de turistas que de peixes. Seja no início da manhã, quando manejam os contrapesos para mergulhar e recolher as imensas redes, seja no por do sol, quando o melhor ângulo fotográfico é no pier de madeira daquelas traquitanas, eles tentam atrair os turistas para o perímetro de seus domínios privados: “Hello, sir, come, come!” À saída, o papo é sempre o mesmo: “Você sabe, a pesca hoje foi ruim, a família está em casa esperando que eu leve alguma coisa…” Resumo: 100 rúpias.
Até em alguns templos prevalece esse “jeitinho indiano”. Em Kanyakumari, extremo sul da Índia, onde hordas de hindus acorrem para venerar a deusa Kanya Devi no local onde três mares se encontram, o foreigner é rapidamente abordado à entrada do templo por um “sacerdote” que oferece, por 100 rúpias, a oportunidade de furar a longuíssima fila de fiéis. Em vez de aguardar por até duas horas, você pode usar a “special entrance” e ir direto ao coração do templo, onde brilha o anel dourado no nariz da deusa.
Cem rúpias é quanto custa em média o ingresso de estrangeiros em monumentos que dos indianos cobram apenas 5 rúpias. Muito natural e louvável, não fossem as diferenças de tratamento que isso acarreta. Quando entrei num pequeno museu histórico de Madurai, notei que o coletor de tickets apontou para mim e fez um gesto imperioso na direção de outro empregado, que correu a acender mais luzes e ligar os ventiladores de teto. Aparentemente, os pobres locais de 5 rúpias que lá se encontravam não faziam jus a tais confortos.
Cada um no seu lugar
Um misto de dogma religioso hinduista, conservadorismo político e talvez um pouco de herança colonialista cria um determinismo social característico. Para o indiano comum, os homens nasceram para ser diferentes, e pronto. As coisas podem ser melhoradas numa futura encarnação, mas na atual cada um deve aceitar o seu lugar, o seu dharma. Isso se reflete numa segmentação social estrita e cruel. Certo dia, num restaurante de classe média, vi uma criança deixar cair no chão um guardanapo de tecido. A menina olhou rapidamente e voltou a comer. O pai olhou e não se moveu. O maitre e os garçons passavam e se desviavam do guardanapo. O pedaço de pano ficou um longo tempo no chão à espera de um auxiliar, possivelmente de casta inferior, que o recolhesse. Funções de limpeza não se confudem com atribuições mais “nobres” de serviço.
Da mesma forma, um motorista, por exemplo, não deve dividir a mesa de refeição com as pessoas a quem está servindo. Contra essa lei eu me rebelei desde cedo. Viajando sozinho, tive três motoristas me conduzindo em diferentes partes da viagem. Era uma convivência de vários dias que não podia ficar refém de normas tão segregadoras. Com todos insisti para que fizessem algumas refeições comigo, como meus convidados. Devo dizer que não relutaram muito em aceitar. E se sentiam melhor ainda quando eu os “autorizava” a comer com a mão, como fazem 90% dos indianos de todas as classes, mesmo nos melhores endereços gastronômicos do sul.
Nos primeiros contatos, a coisa parece resquício da era dos marajás. A função de um desses motoristas compreende desde abrir a porta do carro para você até limpar sua roupa caso você se encoste num muro sujo. Mas, curiosamente, não inclui retirar sua bagagem do carro na entrada do hotel. Ele abre o porta-malas e fica esperando aparecer o bellboy para cumprir o seu dharma.
Olhos e óculos
No sul como no norte, a presença do foreigner entre populares é motivo de curiosidade, atração e desconfiança. Sem qualquer dissimulação. Um rapaz pode simplesmente parar diante de você na rua e ficar lhe olhando sem nenhuma expressão predominante, como se estivesse examinando uma peça rara num museu. De repente, os papéis parecem se inverter: você é o visitado e ele o visitante. Mas há também muitos sorrisos, muitas cabecinhas balançando para os lados de satisfação com uma troca de olhares, muitas crianças pedindo para ser fotografadas ou filmadas – e agradecendo, felizes da vida por terem sua imagem levada para não sabem onde – e também adultos mandando a gente fotografar o amigo ao lado. Nunca entendi essa forma de gozação entre eles.
Em mais de uma ocasião pessoas apontaram para os meus olhos. Na verdade, estavam curtindo os meus óculos (adoro o uso que eles fazem do termo “spectacles” em vez de “glasses”). Poucos indianos usam óculos. Nos velhos filmes que conheço, os óculos eram sempre distintivos de certo poder aquisitivo combinado com prestígio intelectual. Eram geralmente acessório de professores, escritores e filósofos. Lembro que em A Grande Cidade, de Satyajit Ray, uma família de classe média de Calcutá vive atribulações na tentativa de prover um par de óculos para as leituras do avô. Pelo jeito, este ainda é um objeto de consumo pouco acessível à massa indiana.
Encantos de Kerala
Não cabe aqui listar as melhores coisas que passaram pelos meus óculos nem os melhores sabores e odores que senti nessa viagem. Foram muitos. Meus álbuns de fotos no Picasa (Mumbai, Sul da Índia – Lugares, Cenas e Gente) podem dar uma pequena ideia. Mas cabe mencionar a grande exceção do meu passeio pelo sul. Apesar de tão tradicional e estrito quanto Maharastra, Karnataka e Tamil Nadu, o estado de Kerala tem particularidades que me encantaram. Lá a natureza tropical é farta em coqueiros, bananeiras, canais tranquilos que lembram braços de rios da Amazônia, praias e recantos que convidam a relaxar. Trivandrum, a capital, e Fort Cochin, um oásis de tranquilidade ao lado da industrial e feia Cochin, são dos poucos lugares da Índia onde eu toparia viver. E curtir muito teatro Kathakali, um parente da ópera chinesa. Em matéria de cultura e arquitetura, Kerala é um caldeirão de influências de China, Portugal, Holanda e Inglaterra. Tem mais igrejas católicas que em Goa, o que relativiza um pouco o fanatismo hinduista de outros locais. Este, por sinal, é o único estado sem maioria absoluta de hinduistas.
Mas Kerala me agradou sobretudo por seu diferencial social. Mesmo ocupando uma faixa territorial estreita, a concentração demográfica ali é menor. Menos multidões, menos estresse, menos olhares escaneando os foreigners. Mais cortesia, mais sorrisos, um jeito meio baiano de ser. A ênfase de sucessivos governos na educação gerou o maior índice de alfabetização do país e um preparo e eficiência que talvez só se comparem às médias de Bombaim e Bangalore. Nos dias em que estive lá, cartazes e bandeiras do Partido Comunista da Índia coalhavam as ruas de várias cidades anunciando seu congresso anual. Os comunistas já estiveram no poder em Kerala e continuam por perto. Os sindicatos são fortes e várias medidas de equalização social fazem hoje o estado com menos desigualdade em todo o país. A gente sente isso quando vê menos sinais de miséria, uma maior convivência entre as classes e menos convites à corrupção. Não chega a ser o paraíso, mas é o que mais se aproxima do que a Índia um dia poderá ser.
Nosso primeiro Oscar?
fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário
João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil.
O primeiro Oscar para o nosso cinema
Felipe Haurelhuk
A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.
Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).
Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.
Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.
Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.
Felipe Haurelhuk
Luz tropical brasileira
fevereiro 18th, 2012 § 2 Comentários
Waldemar Lima, o fotógrafo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, morreram recentemente no espaço de pouco mais de uma semana. Ambos tinham a ver com a descoberta de uma luz especificamente brasileira para o cinema, ali na primeira metade dos anos 1960. Hoje publico aqui um texto que Waldemar escreveu especialmente para a dissertação de mestrado de Iara Magalhães, de Uberlândia (MG). Essa preciosidade me chegou às mãos através de Joel Pizzini, a quem agradeço.
LUZ TROPICAL BRASILEIRA
Waldemar Lima
A qualidade da luz do sol, originalmente branca, que chega à terra, pode ser dura ou suave dependendo da incidência e da largura da camada atmosférica que ela atravessa. Nas regiões tropicais, a largura da atmosfera é estreita, a luz do sol a atravessa perpendicularmente e chega à superfície da terra como uma luz dura e branca com sombras negras e cores fortes.
Se não houvesse absolutamente nada no espaço terrestre, nem poeira nem gases (como acontece no espaço sideral), o céu seria negro. A luz do sol, ao atravessar a atmosfera terrestre, encontra moléculas de gases de várias densidades, poeira e minúsculas gotas de água em suspensão, que refletem, refratam, difundem e dispersam a luz. O céu tem, dependendo da hora do dia e da região, luz de diferentes intensidades. As minúsculas gotas de água em suspensão são os principais dispersadores das ondas luminosas curtas (a extremidade azul de espectro) e responsáveis pela tonalidade azulada do céu. Continue lendo
As ricas, as pobres, as heroicas
fevereiro 14th, 2012 § 2 Comentários
Um único festival não é suficiente para propiciar grandes conclusões, mas pode fornecer algumas pistas sobre como um tema ou personagem está sendo tratado no cinema atual. Durante o 12º Mumbai International Film Festival eu focalizei minha atenção nas imagens de mulher indiana que emergiam dos documentários exibidos em várias seções do festival.
Uma variedade de personagens e approachs cobria desde uma princesa do Rajastão filmada por uma cineasta belga até meninas lutadoras de boxe de Uttar Pradesh documentadas por uma jovem diretora recém-saída de uma escola de cinema de Calcutá, passando por mães de aluguel numa “babies farm” do Gujarat. E incluía heroínas contemporâneas envolvidas com a assistência a moças vilipendiadas e com protestos políticos anti-castas. Um vasto espectro da sociedade indiana e seus problemas passava pelos sáris e jeans dessas mulheres.
Memórias de uma Princesa Hindu põe em contraste imagens do fausto da era dos marajás com a ruína atual de seu patrimônio através das reminiscências e cenas de arquivo de Gayatri Devi, a última Maharani (esposa de marajá) da Índia. Ainda uma mulher bonita e elegante quando filmada por Françoise Levi em 1996, Gayatri em seus dias de maior glória foi amiga de reis e presidentes, chegou a ser comparada com Jacqueline Onassis, fundou o primeiro colégio para moças do Rajastão e liderou um partido de oposição a Indira Gandhi. Morreu em 2010, como sempre reverenciada por todas as castas – sobretudo pelas humildes mulheres “intocáveis” que então habitavam seu antigo e imenso palácio em Jaipur. As imagens de Gayatri revisitando seus palácios em ruínas estão entre as mais potentes do filme. Boa parte da história da Índia moderna está representada por sua história particular: a perda de poder e privilégios pelos marajás e, ainda assim, a manutenção de certo grandeur, quase ficcional, nas atitudes e nos ideais. “Nada me influencia”, é como ela responde a uma pergunta da cineasta sobre sua formação.
Se Gayatri Devi, em seus últimos anos, praticava a caridade como elo com seu passado de opulência, a protagonista de Pink Saris, Sampat Devi, é uma mulher do povo que devota sua vida a ajudar outras mulheres. Ela lidera uma certa Gangue Cor-de-Rosa, teoricamente dedicada a defender e acolher mulheres vítimas de violência e abandono numa paupérrima região do norte da Índia. Digo teoricamente por que não vemos a ação da gangue – o que pode ser uma deficiência do filme ou a insinuação de um artifício político da líder. Testemunhamos apenas o empenho individual de Sampat ao afrontar maridos irresponsáveis e sogros violentos, proteger meninas em fuga de casamentos arranjados e advogar por namorados de castas diferentes que desejam concretizar seu romance.
A relação maternal de Sampat com uma dessas meninas forma o núcleo emocional do filme, onde repercute a própria história pregressa daquela mulher forte e aparentemente invulnerável. Mas o conjunto de situações, envolvendo também familiares de Sampat, mostra a complexidade dessa personagem megalomaníaca, contraditória e, no fundo, uma grande farsante do bem. Os “processos” informais abraçados por Sampat desnudam na prática as convenções mais retrógradas da sociedade indiana. Nesse bojo há lugar para o espanto, o humor e instantes de tamanha comoção que poderiam ter saído da criação de Ingmar Bergman. Pink Saris foi exibido no É Tudo Verdade de 2011.
Atuando em esfera diferente de Sampat Devi, mas em front ainda mais arriscado, está Sheetal Sathe, a jovem cantora de protesto que domina os momentos finais de Jai Bhim Comrade, do veterano Anand Patwardhan, um dos mestres do doc político na Índia. Um grande painel da luta contra a discriminação dos “intocáveis”, esse longo e detalhado libelo revela nas entrelinhas a crescente participação das mulheres nos Ambedkarite Dalits. Esse movimento inspira-se no legado antissegregacionista de B.R. Ambedkar, um raro dalit bem-sucedido a quem Gandhi chamou para redigir a Constituição da Índia independente. A cantora, vivendo atualmente na clandestinidade depois que companheiros do seu grupo musical foram presos sob acusação de “maoísmo”, pode rapidamente vir a ser uma heroína na luta dos dalits contra os tabus religiosos e sociais que mantêm em vigor o hediondo sistema de castas. Mais interessante que ela, porém, é a tomada de consciência de sua mãe, flagrada em processo no próprio filme. Uma mulher a princípio devota e temerosa pelas atividades da filha, converte-se numa das cenas finais em mãe gorkiana, pregando abertamente pela mesma causa.
Um dos aspectos mais dramáticos das relações globais Norte-Sul é o fornecimento de recursos corporais das mulheres indianas para o mercado de aquisições europeu e norte-americano. Outros documentários já enfocaram o comércio internacional de transplante de órgãos e de cabelos. Womb of the World, de Rajendra Srivathsa Kondapalli, aborda a contratação de mães de aluguel (surrogates) para atender à demanda de casais de países mais ricos. O filme se concentra numa clínica de Anand, cidade do estado do Gujarat, onde as surrogates se internam pelos nove meses em que carregam no ventre o ovário e o sêmen alheios. Para essas indianas, o contrato representa a possibilidade de saldar dívidas, comprar uma casa e pagar a educação dos seus próprios filhos. Para os pais contratantes, é a chance de realizar um sonho impossível.
Womb of the World sublinha seu tema com ênfases de um estilo por demais televisivo e às vezes pode soar como um institucional da clínica, na medida em que rapidamente descarta os argumentos contrários a essa prática bastante discutida. Mas não se pode negar a eficácia com que acompanha o processo de um casal canadense em sua relação emocionada com a gravidez vendida por uma humilde surrogate indiana. Um estudo de caso como esse, mesmo se conduzido de maneira um tanto parcial e excessivamente dramatizada, pode ser mais elucidativo que um painel genérico cheio de estatísticas e depoimentos “especializados”.
No outro extremo da submissão representada pelos ventres de aluguel estão o fairplay e a autoconfiança das três irmãs retratadas em The Boxing Ladies. Recém-saídas da adolescência numa favela de Calcutá, as irmãs Fatma desafiam convenções de gênero e do comportamento muçulmano ao abraçarem o boxe como diversão e posteriormente profissão. O curta da também jovem Anusha Nandakumar consegue, a par de um grande poder de síntese, evidenciar o que há de semelhante e de diferente entre Zainab, Bushra e Sughra. Cada uma tem suas particularidades no que julga ser feminino, mas todas se igualam na forma lúdica e resoluta com que enfrentam socos e preconceitos.
Nesses cinco filmes muito distintos, alguns dirigidos por cineastas estrangeiras, pulsam retratos capazes de pontuar as dinâmicas do feminino num país onde essa ainda é uma questão crucial. O cruzamento de tradições religiosas, culturais, sociais e econômicas faz hoje da mulher indiana um laboratório onde se passa de tudo: da nobreza à vilipendiação; da precariedade ao heroísmo.
Imagens urgentes
fevereiro 10th, 2012 § 1 Comentário
O Prêmio do Júri da Crítica (Fipresci) do 12º Mumbai International Film Festival, encerrado ontem, foi para o documentário Nargis – When Time Stopped Breathing, realizado por dois cineastas sob pseudônimo. Uma semana depois do ciclone que arrasou uma região de Myanmar (ex-Burma) em 2008, eles foram para o local desafiando a censura do governo militar contra qualquer mídia que não fosse oficial. O que colheram são imagens eloquentes e dolorosas da catástrofe ainda úmida. Imagens capazes de conectar a tragédia humana com a devastação material ao redor. O filme não tem uma cena sequer de arquivo nem qualquer retórica narrativa. Apenas um comentário eventual e meditativo dos realizadores, além das memórias ainda latejantes dos sobreviventes. De alguma maneira, lembrou-me a pureza documental de Shoah. Só assim teríamos a dimensão humana de um desastre em região extremamente fechada para o mundo.
Veja o trailer aqui:
Outros filmes que impressionam nosso júri:
Dreaming Taj Mahal, de Nirmal Chander. Um motorista de táxi paquistanês e sua família sonham com visitar a Índia, especialmente o Taj Mahal, mas seu pedido de visa é constantemente negado. O contencioso entre os dois países desde a Partição em 1947 é referido aqui pela visão de cidadãos comuns do Paquistão, que sofrem os efeitos da política e do terrorismo. Esse enfoque íntimo de uma família particularmente simpática toca a sensibilidade das pessoas nos dois lados da fronteira. O média-metragem foi nosso segundo candidato ao prêmio.
Shape of Shapeless, de Jayan Cherian. Esse diretor malaio radicado em Nova York é familiarizado com documentários experimentais. Shape of Shapeless é um perfil bastante ousado de um personagem idem: um travesti judeu que é artista burlesco, iogue e artesão. O filme exibe sem rodeios diversos processos corporais de uma criatura que desafia praticamente todas as noções de gênero, sexualidade, religião e comportamento. Foi talvez o filme mais agudo da competição internacional.
Flamenco de Raiz, de Vicente Perez Herrero. Exibido em Bombaim com um título em inglês, é talvez o melhor filme sobre flamenco que já vi. Enquanto os maravilhosos filmes de Carlos Saura, por exemplo, concentram-se no espetáculo e em grandes estrelas, esse doc vai ao encontro de figuras menos conhecidas, sobretudo o visceral cantor “El Álvaro”, que prefere ganhar a vida como varredor de rua em Málaga. Herrero quis falar das raízes populares do flamenco, da emoção legítima que turva os olhos dos ouvintes identificados com a emoção do canto, histórias de um gênero musical que nasceu como grito dos despossuídos. A montagem de falas intercaladas com passos de dança deixa clara a interação entre arte e modo de vida dos praticantes do flamenco.
Dancing With Dictators, de Hugh Piper. Perfil de um pequeno magnata da imprensa australiano que investe em jornais de países “tranquilos” como Vietnã, Camboja e Myanmar. Ross Dunkley é visto gerindo o Myanmar Times em meio ao processo das primeiras eleições no país em 20 anos. A equipe do filme trabalha clandestinamente, o tempo todo ameaçada por agentes da inteligência e próceres do governo militar que não estava nem um pouco disposto a entregar o poder a civis em 2010. Num tour de force documental de primeira ordem, Hugh Piper e seus colaboradores não perdem uma oportunidade de flagrar o que é fazer jornalismo numa ditadura implacável. Cobre as relações com a censura, o medo e os riscos da profissão, e o episódio que levou Ross Dunkley a passar 47 dias na prisão.
Prince, de Kurnal Rawat e Anand Tharaney. Uma pequena joia no cruzamento entre animação, ficção e documentário. Em seis minutos, a jornada de um táxi comum de Bombaim do nascimento à morte num mercado de carros desmontados. O curta explora a estética da “taxi-art” da cidade, remanescente dos filmes de Bollywood e da iconografia religiosa hindu. Seria meu candidato, não fosse o prêmio Fipresci um pouco sério demais para um curta-curtição.
Sobre outros filmes vou escrever num próximo artigo, dedicado a imagens da mulher indiana.
Premiados em Mumbai
fevereiro 9th, 2012 § Deixe um comentário
Uma lista rápida dos principais prêmios do 12º Mumbai International Film Festival. Nos próximos dias vou postar textos sobre alguns desses filmes e outros mais.
Competição internacional:
Melhor longa doc: Pink Saris (Inglaterra/Índia) resenha aqui
Melhor curta/média doc: I am Your Poet (India)
Melhor curta fi: Music in the Blood (Romênia)
Melhor curta animação: Prince (Índia)
Prêmio Fipresci (o júri de que participei): Nargis - When Time Stopped Breathing (Birmânia)
Competição indiana:
Melhor doc: At the Stairs
Melhor curta fic: Midnight Bioscope
Melhor animação: Journey to Nagaland
Prêmio Fipresci: Good Morning Mumbai! (animação)



















