Boilesen, braço civil da ditadura

O ótimo roteiro de Cidadão Boilesen constrói três narrativas paralelas. Uma se refere à história da Operação Bandeirante (Oban), que reuniu empresários e militares na repressão ao ativismo de esquerda nos primeiros anos da ditadura. Outra reconta as circunstâncias do atentado contra Henning Boilesen, dono do grupo Ultra e um dos principais financiadores da caça aos ativistas. Uma terceira narrativa faz o estudo do personagem Boilesen, definido em certo momento como “uma síntese das contradições humanas”, ou algo parecido.

A forma como essa três linhas convergem e se articulam responde pela eficiência do filme, premiado na competição nacional do É Tudo Verdade de 2009. 

Há uma ideia-guia a percorrer o doc, expressa mais claramente pelo historiador Carlos Fico: a chamada ditadura militar foi na verdade civil-militar, dado o alto nível de conivência de parte expressiva da sociedade civil com o regime de força. Partes consideráveis do empresariado e da imprensa tiveram papel protagonista na reação dos generais contra o que consideravam a ameaça do comunismo. Cidadão Boilesen conta com uma grande candura da parte de próceres da repressão para relatarem como foi criada e funcionou a Oban. Em todos esses depoimentos, a figura de Henning Boilesen se destaca como um brilhante entre grãos de café. O lendário Coronel Erasmo Dias, antes de vangloriar-se por sua intimidade com os agentes da CIA, afirma que Boilesen “pensava como a gente”.

Enquanto essa recuperação histórica é feita de maneira mais sóbria, na costura hábil de entrevistas, a morte de Boilesen, executada por militantes do MRT e da ALN, recebe de Chaim Litewski um tratamento de choque: cada depoimento sobre o assunto é introduzido por um flash na imagem e um som de tiro. Esse tipo de opção pode desagradar aos puristas, ainda mais quando o atentado passa a ser reconstituído como uma espécie de gibi animado. O fato é que Litewski não se furtou a mesclar linguagens para valorizar o story-telling do seu doc. Daí o uso frequente de cenas de filmes como Lamarca, Pra Frente Brasil, Batismo de Sangue e o pouco conhecido Brazil: A Report on Torture, filmado por Haskel Wexler e Saul Landau no Chile, em 1970. Fica clara a intenção de inscrever Cidadão Boilesen numa tradição de filmes sobre o Brasil dos anos de chumbo.

O colunista Marcelo Coelho já criticou o doc por não entrevistar Delfim Netto, então Ministro da Fazenda, parceiro fundamental da Oban e amigo de Boilesen. Obviamente, isso não foi por desinteresse ou falha da pesquisa. Delfim, assim como Romeu Tuma, recusaram terminantemente o convite da produção.

Com palavras duras, na revista piauí, Eduardo Escorel acusou o filme de diluir o assunto com a fragmentação das entrevistas. De fato, não se vê aqui o aprofundamento que Silvio Da-Rin deu a episódio semelhante em Hércules 56. Mas a dramaturgia que enfeixa os distintos depoimentos cria, sim, uma visão crítica dos fatos e das consciências dos envolvidos. A ausência de culpa, tanto nas falas dos repressores quanto dos militantes que executaram a vendetta, deixa clara a permanência dos sentimentos políticos para além de sua época. Isso não pode ser descartado como mera “reportagem descosida” (palavras de Escorel).

Por fim, o eixo mais “sensível” de Cidadão Boilesen é o estudo da personalidade do empresário dinamarquês que se tomou de amores pelo Brasil e ajudou a “salvá-lo” da “ameaça vermelha”. Reconstruir um personagem é juntar pontas dispersas, associar ideias, tecer fios. Nesse sentido, o filme reúne indícios e evidências de um homem de natureza ambígua, apto a ser elogiado como boa praça e demonizado como sádico. A linha patológica se estende com nitidez de tarde clara entre o menino que se comprazia com o castigo dos colegas na escola de Copenhague ao “guerreiro” (a expressão é de um ex-diretor do DOI-CODI) que curtia assistir a sessões de tortura e trouxe para o Brasil uma máquina de choques que ficaria conhecida como “pianola Boilesen”.

O tema ainda é incômodo. Deixa transparecerem feridas ainda não cicatrizadas dos dois lados do espectro ideológico. Um novo doc, aliás, está trazendo à tona a desfaçatez dos antigos torturadores. É Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira, onde o ex-agente do DOI-CODI Marival Chaves revela que diversos presos políticos tiveram os corpos esquartejados.

À virtude de iluminar um ângulo pouco explorado do período de exceção, Cidadão Boilesen soma qualidades de ritmo, narratividade e recursos pop pouco comuns – mas muito bem-vindos – à seriedade compulsória dos docs históricos.

Um comentário sobre “Boilesen, braço civil da ditadura

  1. Eu tinha 12 anos nesse época e morava nessa rua. Escutei os tiros e me lembro como se fosse hoje dos buracos na casa. Não entendia nada do que se passava no país, pensei que fosse apenas um crime qualquer.

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