Vanessa, a rebelde

Entrevista de Vanessa Redgrave a Carlos Alberto Mattos durante o Festival de Moscou de 1987, publicada no Jornal do Brasil.

A atriz inglesa Vanessa Redgrave, 50 anos, não perde oportunidade, dentro e fora da tela, de defender suas vigorosas ideias. No Festival de Moscou, Vanessa apoiou Gorbachev e concedeu esta entrevista ao Jornal do Brasil.

JB – Qual sua impressão sobre a glasnost no cinema soviético?

VR – Esse festival é um microcosmo do país. Aqui eu vejo uma tremenda energia criadora como consequência direta da perestroika. Essa energia está nos filmes, nas decisões da União de Cineastas e nessa atmosfera salutar da Domkino. Aqui há lugar para os novos e os velhos, a troca de ideias e de filmes. É uma situação excepcional e está apenas começando.

JB – Qual a importância do cinema na discussão dos problemas atuais?

VR – O mundo vive hoje problemas perturbadores como a ameaça de guerra nuclear, a fome, a poluição, a censura etc. Os filmes soviéticos estão tratando desses assuntos à sua maneira e devem ser vistos o mais amplamente possível. A cooperação cinematográfica do Oriente com o Ocidente é de enorme importância, e Moscou está tomando a iniciativa nesse campo.

JB – O que tem visto do cinema brasileiro ultimamente?

VR – Em 1983 vi o brilhante Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman, um filme soberbo artística, social e politicamente. Aqui no festival assisti ao documentário Mulheres da Terra, de Marlene França, outro trabalho magnífico em sua simplicidade e objetividade.

JB – Como você lida com a função social do cinema?

VR – Infelizmente, as atrizes não têm muita escolha. Eu preciso trabalhar duro para viver. Mas um ator se deforma internamente quando se expõe por muito tempo a trabalhos nos quais não acredita. Eu jamais faria um filme racista, antissemita ou anticomunista.   

JB – Qual a personagem que mais lhe gratificou até hoje?

VR – Foi Julia, no filme de Fred Zinnemann, pela bela amizade entre Julia e Lilian Hellman. Curiosamente, eu só vim a conhecer a Lilian em 1983, sete anos depois do filme. Nosso encontro foi emocionante como o de duas velhas amigas. Até hoje choro ao pensar que ela já não vive.

JB – Como tem sido sua experiência de documentarista?

VR – Estimulante. Minha companhia produziu Os Palestinos em 1977, no qual eu conduzia as entrevistas no Líbano, tratando da questão do exílio. Fiz também as entrevistas para o documentário A Quinta Guerra, do Palestinian Film Institute, sobre a invasão israelense de 1978. Agora estou preparando outro filme sobre a Palestina ocupada e espero realizar mais um sobre o apartheid na África do Sul e o sionismo em Israel, dois estados criados em 1948 sobre fundações igualmente racistas.

JB – Seu trabalho tem despertado reações políticas?

VR – Por ter feito esses documentários e tê-los apresentado em várias partes do mundo, eu fiquei mais de um ano sem conseguir emprego. Muitas tentativas foram feitas para me remover dos estúdios, especialmente quando eu faziaHolocausto de Mulheres, aquele telefilme sobre a orquestra feminina em Auschwitz. Na ocasião, a Liga de Defesa Judaica, uma horrenda organização que tem por base o partido fascista KACH, de Israel, ameaçou o estúdio em vão. Mas em 1982 eu fui contratada para uma série de concertos de Stravinsky pela Sinfônica de Boston e o programa foi subitamente cancelado por razões claramente políticas. Eu impetrei e ganhei uma ação contra o Estado de Massachussetts, mas até agora não recebi a indenização por danos profissionais. O último texto de Lilian Hellman foi escrito em minha defesa nesse caso.

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