O bom moço do futebol

ZICO, O SAMURAI DE QUINTINO

O perfil pessoal de Arthur Antunes Coimbra transpira uma inegável simpatia. Ao contrário de tantos astros do futebol, Zico não sucumbiu ao estrelismo desenfreado, nem à cafajestice de quem se julga acima das leis. Zico, o Samurai de Quintino tem amostras de seu jeitão doméstico e simples, que nunca abandonou de todo as origens no subúrbio carioca de Quintino Bocaiúva.

Essa índole de bom moço do futebol não deixa de ter o seu lado contestável. Em 2018 ele invocava “ordem e disciplina” para o Brasil e apoiava a eleição de Jair Bolsonaro. Já seu irmão Nando foi preso e torturado na ditadura por trabalhar no Plano Nacional de Alfabetização idealizado por Paulo Freire.

Mas o cidadão Zico fica de fora do documentário autorizado de João Wainer. A primeira sequência já quer definir um tanto do caráter desprendido do jogador. Depois de consagrado internacionalmente, ele aceitava o convite para jogar num time de fábrica no Japão, em condições logísticas bem mais modestas do que cabia a sua fama – e tendo de lavar os seus próprios uniformes. A Sumitomo Metals também usava o futebol para “lavar” sua imagem de poluidora.

Embora mencione alguns percalços – como derrotas fatais, o pênalti perdido na Copa de 1986 e a falta sentida pelos filhos enquanto ele vivia distante –, o filme é basicamente um elogio do craque. Amável, sem arroubos de bajulação. Familiares, o biógrafo, o tradutor japonês e companheiros como Júnior e Carpegiani ajudam a contar sua história. Percurso que vai desde os estudos de Contabilidade e Educação Física na primeira juventude, passando pela ascensão simultânea à do Flamengo nos anos 1970, a passagem pelo Udinese italiano, a temporada em Kashima (Japão) e a escolinha de futebol que mantém até hoje no bairro popular de Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio.

Lá estão o quase infalível batedor de faltas, o jogador ético que ajudava a organizar os companheiros em campo, o metódico anotador de toda a sua carreira em cadernos, a vítima de uma maldade do zagueiro Márcio, do Bangu, que o deixou fora de campo e a torcida flamenguista em suspense por cerca de seis meses. No Japão, onde o Galinho ganhou status de samurai, suas qualidades de conduta e profissionalismo criaram um valor conhecido como “Espírito Zico”.

O documentário visa empolgar a plateia com um tratamento sonoro vibrante e uma montagem cheia de ginga. Os materiais de arquivo, em grande parte inéditos, propiciam diálogos interessantes entre passado e presente, como na visita à casa do filho que em 2024 morava no Japão. Uma partida de botão habilmente editada com cenas do gramado ilustra a intenção de entreter o público ininterruptamente.

É também irresistível a chance de rever uma profusão de gols do Galinho, numa sucessão eufórica que se confunde com a elegia ao Flamengo. Não que esse seja um filme só para flamenguistas, pois a afabilidade e os feitos de Zico transcendem a paixão clubística.

>> Zico, o Samurai de Quintino está nos cinemas.

Quem quiser ler um pouco mais sobre atletas de direita pode clicar aqui.

Deixe uma resposta