Nota dissonante em tempos de chanchada

Saiu recentemente pela Programadora Brasil o DVD de Também Somos Irmãos, filme pioneiro na abordagem da questão racial no Brasil. Escrevi esse texto para o encarte do disco:

“Preto com alma branca é fantasma”, diz a certo momento o personagem de Grande Otelo. Assim como essa, outras frases ouvidas em Também Somos Irmãos repercutem na história do cinema social brasileiro. Este foi o primeiro filme nacional a tratar frontalmente do preconceito racial, colocando-o em primeiro plano e sem meias-palavras.

Tratando conceitos controvertidos em chave de melodrama, José Carlos Burle criou uma obra “difícil” para os padrões da Atlântida numa época em que a chanchada começava a dar as cartas. Mas a importância desse filme só cresceu com o tempo. Grande Otelo venceu o prêmio da crítica de melhor ator em 1949, num elenco em que se destacavam também as estreias do menino-prodígio Agnaldo Rayol e do futuro astro Jece Valadão.

O panorama do cinema brasileiro em 1949 era marcado por comédias musicais, dramas rurais e adaptações literárias. Os temas sociais não costumavam ser encarados de frente. No máximo, perpassavam as entrelinhas de histórias de amor e de busca pelo sucesso. Daí a surpresa com que foi recebida a estreia de Também Somos Irmãos, um libelo contra o preconceito racial.

Além do ineditismo do tema na nossa filmografia, causava verdadeiro espanto o fato de ter sido produzido pela Atlântida Cinematográfica, uma fábrica de divertimentos despreocupados e das então nascentes chanchadas. Como entender o selo da Atlântida num filme passado em parte numa favela e com um personagem negro que suspirava pelo amor de uma moça branca criada na elite carioca?

O argumento de Alinor Azevedo mobilizava arquétipos poderosos em enredo acentuadamente melodramático. Os irmãos negros Renato (Aguinaldo Camargo) e Altamiro (Grande Otelo) foram criados por um viúvo milionário, que também adotara duas crianças brancas. Depois de crescidos, Renato e Miro vão compreender a diferença entre “ser filho” e “como se fosse filho”. A barreira racial se mostra mais forte que o suposto gesto humanitário, trazendo discriminação e humilhações para os rapazes “de cor”.

Um grande achado de Alinor foi abrir uma fenda entre os dois irmãos negros. Enquanto Renato é um homem de bem, advogado afeito às leituras e à música “branca”, Miro é um contraventor chegado ao samba, à cachaça e ao inconformismo. Para ele, o irmão tem “alma de escravo”. Numa das melhores sequências do filme, Renato, enfiado num impecável terno branco, sai para a formatura em Direito e é festejado na favela como doutor. O “embranquecimento” de Renato contrasta com a revolta de Miro, que se orgulha de seu “sangue negro”.

Essas visões dicotômicas dos personagens refletem, sem dúvida, certas convicções vigentes na época. Mas também antecipam uma discussão que iria nortear o advento de uma nova consciência da questão racial no Brasil algumas décadas mais tarde.

Entre o conflito de posturas e a solidariedade fraternal, Renato e Miro vivenciam uma das duas linhas dramáticas que atravessam todo o filme. Na outra vertente do roteiro, Renato corteja Marta (Vera Nunes), sua irmã adotiva e aspiração romântica, tendo que para isso rivalizar com um escroque (Jorge Dória) que pretende se casar com ela e se apoderar da fortuna do sogro.

Assunto ousado, como se vê, para a mentalidade dos anos 1940, bastante segmentada em termos sociais, morais e raciais. O atrevimento se deve sobretudo ao perfil do diretor José Carlos Burle, um dos fundadores da Atlântida, onde incentivava a produção de “filmes sérios”. O primeiro longa-metragem do estúdio, em 1943, fora uma biografia disfarçada de Grande Otelo, Moleque Tião, dirigida por Burle.

Também Somos Irmãos é uma amostra de como Burle tentava conciliar temas sociais com entretenimento típico da época. Renato e Miro são compositores, e suas canções irrompem na trama sem pedir licença. Uma delas é interpretada pelo cantor Agnaldo Rayol, então fazendo sua estreia aos 12 anos de idade no papel do quarto irmão. Outro que faz aqui sua primeira aparição no cinema é Jece Valadão, numa pequena ponta como garçom.

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