Uma enfermeira em coma ético

MÃE E FILHO

Não faltam em Mãe e Filho (Zan o Bacheh) alguns ingredientes muito característicos do cinema iraniano: uma sucessão de discussões infindáveis entre os personagens, diálogos dentro de carros e o drama em torno da mentira ou da omissão numa sociedade que mantém as mulheres asfixiadas por padrões de comportamento. Mas há aqui também alguns diferenciais importantes, e nem todos positivos.

O melodrama se passa na classe média de Teerã, ambiente mais afeito ao cinema de Asghar Farhadi que aos dramas rurais que vêm logo à cabeça quando se pensa em filme iraniano. Não se trata de uma pauta contra o regime teocrático, o que tem marcado as obras recentes mais importantes. Outro aspecto divergente é a falta de consistência psicológica, qualidade indissociável da dramaturgia cinematográfica daquele país.

É duro suportar as incongruências na história dessa família abalada por uma tragédia e pelas vicissitudes do mercado de casamentos no Irã. A enfermeira Mahnaz (Parinaz Izadyar) é uma viúva de 45 anos às voltas com as travessuras do filho, ameaçado de expulsão da escola, e com o namoro semi-escondido com o solteirão Hamid (Payman Maadi), motorista de ambulância.

De uma hora para outra, Mahnaz tem que enfrentar uma morte na família e ainda ouvir que Hamid pretende se casar não com ela, mas com a irmã dela (a belíssima Soha Niasti). Mais que isso, ainda pretendem lhe tirar a tutela da filha pequena. O triplo choque faz Mahnaz enveredar por uma cruzada de vingança, punição e sabotagem, na qual todas as reservas éticas e de caráter vão ficando para trás.

Instala-se uma guerra dentro da família, onde as outras mulheres não se importam que Hamid seja um pequeno canalha. As coisas transbordam para as águas do dramalhão lacrimoso até um desfecho que soa ainda mais improvável do que tudo o que viera antes.

Se o filme merece ser visto, é mais pelo apuro do diretor e roteirista Saeed Roustayi. As composições de quadro com movimentos incessantes no seu interior, assim como a precisão do trabalho de câmera de Adib Sobhani (de O Apartamento, de Farhadi) e a excelência das atuações de todo o elenco garantem, quando nada, 131 minutos de um cinema tecnicamente impecável.

P.S. O título original tem um sentido mais amplo: Mulher e Criança, que remete às pinturas clássicas “Mulher com Criança”, mas também ao uso corrente no Irã como simplesmente família.

>> Mãe e Filho está nos cinemas.   

Deixe uma resposta