Crônicas do fim do mundo

Apesar do sobrenome, o doc-artista catalão Carlos Casas não parece muito enamorado pela ideia de ficar em casa. Longe disso, ele escolheu lugares extremos do mundo para fazer seus filmes bastante peculiares. Sejam madeireiros da Patagônia argentina, sejam pescadores do Mar do Aral ou caçadores da Sibéria profunda, seus personagens são figuras desgarradas em paisagens imensas, pessoas convivendo quase que só consigo mesmas e com uma natureza inóspita e esmagadora.

Carlos Casas estará amanhã (sexta) no Instituto Cervantes (Rua Visconde de Ouro Preto, 62, Botafogo), a partir das 19 horas, num evento do Festival Multiplicidade. Vai abrir a exposição End, de fotos tiradas durante as expedições que geraram a trilogia homônima de filmes. Na ocasião, será exibido o terceiro tomo da trilogia, Hunters Since the Beginning of Time, sua odisseia siberiana. Em seguida, ele fará um bate-papo público com o documentarista Bebeto Abrantes e comigo.

Hunters (foto acima) é a coroação de uma maneira toda própria de filmar lugares e homens. Se quisermos fazer aproximações indicativas, podemos imaginar Robert Flaherty menos a dramatização e Werner Herzog menos a retórica. Casas faz uma espécie de observação radical da rotina de seus personagens. Articula uma dimensão épica – a árdua extração vegetal ou animal nos imensos cenários naturais – e uma visão intimista das pessoas dentro de casa, em suas refeições e hábitos domésticos. Combina também o desejo etnográfico de informar, ainda que sem entrevistas e quase nenhuma narração, com a busca da beleza, sempre impactante nessas geladas bordas do planeta.

A câmera, manipulada pelo próprio diretor, raramente se atrela ao movimento dos objetos filmados, mas mantém-se em escolhas impassíveis, ora fixa, ora em lentas panorâmicas laterais que lembram as de Jia Zhang-Ke. Ou seja, o estilo subjuga a realidade filmada, traduzindo não a procura de um decalque, mas a criação de um terceiro objeto a partir da soma realidade+cinema.

A Trilogia End foi iniciada há dez anos com Solitude at the End of the World, na Patagônia (foto à esquerda). Ali já se impunham os personagens solitários em cenários ermos, os solilóquios de gente ensimesmada, a trilha atmosférica mais baseada em pulsões sonoras que em música e uma certa tendência à contemplação, na medida em que o tempo das tomadas absorve algo da temporalidade esgarçada daquelas lonjuras.

Em seguida veio Fishing in an Invisible Sea (foto à direita), rodado entre pescadores nos 20% que sobraram do Mar de Aral (na verdade um grande lago), no Caracalpaquistão (ex-URSS). Ali os moradores remanescentes esperam o mar e os peixes “voltarem” num mítico ciclo de 40 ou 50 anos após a desertificação quase total. Dos três, este é o único filme que possui alguma narração, repartida entre os representantes das três gerações enfocadas. E também o único que contém uma sequência de diálogo efetivo entre personagens.

Por fim, Hunters me parece a obra-prima de Carlos Casas. Ao concentrar-se na dualidade básica da sobrevivência, caçar e comer, ele chega ao âmago de sua proposta. O tempo do filme é o tempo das tocaias na divisa entre neve e mar. A beleza congelada do lugar sugere às vezes cenários de ficção científica, enquanto as lentes captam cromatismos indefiníveis, mágicas refrações de luz e composições fascinantes. As cenas da caça à baleia, filmadas no interior de um barco, são igualmente de tirar o fôlego.

No encontro do Instituto Cervantes, vamos conversar sobre isso e muito mais. Carlos Casas vai falar das diversas formas como vem apresentando a Trilogia End ao redor do mundo, inclusive em instalações. No Rio de Janeiro, ele já produziu com Batman Zavareze, diretor do Multiplicidade, o vídeo Rocinha – Daylight of a Favela.

Se quiser saber mais sobre Casas e ver alguns de seus trabalhos, use os links abaixo:

Site do artista
Carlos Casas no blog Multiplicidade
Videos de Carlos Casas no Vimeo
Filme da Patagonia
Filme do Aral

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