Perto e longe de Bollywood

Junte as palavras Bombaim e cinema, e logo você pensará numa terceira: Bollywood. É da “cidade máxima” indiana que saem entre 120 e 150 “hindi films” por ano, os mais populares entre os vários cinemas das diversas regiões da Índia. Mas Bombaim, ou Mumbai para os não-colonizados, também joga suas fichas num tipo bem diferente de filme. A prova disso é que começa nesta sexta-feira a 12ª edição do Mumbai International Film Festival. Neste não haverá requebros na tela nem desfile de celebridades pop no tapete vermelho. O MIFF, realizado a cada dois anos desde 1990, é dedicado a documentários, curtas e animação.

Como jurado da Fipresci, vou me juntar ao dinamarquês Steffen Moestrup e ao indiano Utpal Borpujari para conferir o prêmio da crítica internacional. Não tenho ideia de como funciona um festival de cinema na Índia, mas a programação é das mais interessantes. A competição é dominada por filmes indianos, asiáticos e europeus, com poucas entradas americanas. Da América Latina comparecem apenas programas informativos de curtas da Venezuela e do México. O festival é ótimo principalmente para se tomar o pulso da produção não comercial do Oriente. Onde mais se pode ver filmes do Afeganistão, da Cachemira e animações produzidas em diversos países asiáticos?

Na programação paralela, constam também exibições comemorativas dos 100 anos de nascimento de Satyajit Ray, o célebre cineasta de Calcutá, e dos 150 anos do poeta e músico Rabindranath Tagore. Seminários e master classes completam o calendário. O documentarista David Bradbury (Chile: Hasta Quando?, Front Line), membro do júri oficial, fará uma palestra tipicamente intitulada Keep the Camera Rolling No Matter (Continue filmando aconteça o que acontecer). Um dos objetivos principais do MIFF é estimular a formação e a carreira de novos cineastas não comprometidos com o mainstream.

Promovido pelo Ministério da Informação e Difusão da Índia, o festival vai se beneficiar este ano da onda de prestígio que banha o cinema documental praticamente no mundo inteiro. Até Bollywood se descobriu agora interessada em investir no cinema do real. Javed Jaffrey, um dos mais festejados comediantes e dançarinos das telas, resolveu colocar seu prestígio no mercado da não-ficção. Ele criou a Indian Documentary Foundation para levantar fundos com vistas à produção e comercialização de documentários. Acaba de co-produzir um dos títulos que estarão na competição do MIFF, Inshallah Football (Futebol, se Deus Quiser). O doc enfoca uma família de Srinagar, capital da Cachemira, a disputada e belicosa região do noroeste do país, administrada pela Índia, o Paquistão e a China. O chefe da família é um ex-militante treinado por paquistaneses e casado com uma brasileira. Seu filho cresceu sob a guerra e encontrou no futebol uma razão de viver. Encorajado por um treinador argentino, ele sonha em vir para o Brasil num programa de intercâmbio. Mas a condição do pai torna as coisas muito difíceis para o garoto sair do país.

Na mão inversa, viajo hoje (terça) à noite via Frankfurt e Nova Delhi. Chego em Bombaim somente na tarde de quinta-feira. Depois do festival, que ninguém é de ferro, faço um pequeno périplo pelo sul da Índia, incluindo as cidades de Mysore, Chennai (ex-Madras), Madurai, Trivandrum, Kochi e as famosas Backwaters do estado de Kerala. Não sei como ficará a atualização do blog nesse período, mas pretendo manter um “diário de bordo” no Twitter e no Facebook. Se os deuses da conexão estiverem velando por mim, é claro.

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