Sobreviver na revolução

É Tudo Verdade – Muitas imagens correram o mundo simultaneamente e logo após a revolução egípcia do ano passado. O que ½ Revolução oferece de especial é basicamente a existência de um ponto de vista e de uma dramaturgia. Trata-se do testemunho de um grupo de amigos, alguns estrangeiros de origem árabe e residentes no Cairo, dos fatos ocorrido entre 25 de janeiro e 4 de fevereiro de 2011. Os protestos explodiam na Praça Tahrir, e esses jovens saíam às ruas com pequenas câmeras, como tantos outros. Filmavam as manifestações, os ataques da polícia, as nuvens de gás lacrimogêneo, os mortos e feridos, a trégua para as orações. Como tantos, eles também pediam pelo fim do regime.

A diferença é que o cinema estava nas veias deles. Por isso filmavam-se uns aos outros, as buscas desesperadas por notícias, as discussões caseiras a respeito de cada novo momento de uma revolta que começava a se transformar em guerra civil sem desfecho à vista. O que não conseguiam filmar, contavam uns aos outros diante da câmera. De alguma maneira, este é um filme sobre a revolução e como sobreviver dentro dela – desde comprar comida e leite para o bebê até safar a própria pele quando eles descobrem que moram numa rua infestada de gente pró-Hosni Mubarak.

O tratamento final das imagens e sons, numa reviravolta curiosa, tem algo dos filmes de ficção que emulam o estilo dos documentários de guerrilha urbana. A sensação é de estarmos vendo um filme de Roger Spottiswoode (Sob Fogo Cerrado) ou Paul Greengrass (Domingo Sangrento). Vivemos de fato uma era de hibridismo absoluto, em que os docs imitam as ficções que imitam os docs.

O filme assinado por Omar Shargawi e Karim El Hakim nos faz mergulhar no medo, na angústia e na esperança daquele pequeno grupo. Não os faz de heróis, como alguns críticos andaram apontando. Muito pelo contrário, o filme vai até o limite de sua tenacidade e desejo de sobrevivência. O título ½ Revolution sublinha a sensação que se seguiu à derrubada de Mubarak e à tomada do poder pelos militares: A Praça Tahrir protagonizou uma revolução ou apenas uma troca de guarda?

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