A hora da verdade

Cena de "El Cultivo de la Flor Invisible"

Esta quinta-feira, 12 de abril, será o Dia da Verdade no Brasil. O Supremo Tribunal Federal julgará a ação da OAB sobre o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia. Na mesma ação, decidirá se os crimes de desaparecimentos políticos estão abrigados pela lei de anistia e ficarão impunes. A sociedade civil está mobilizada para pedir aos ministros do STF que não deixem passar a oportunidade histórica de fazer justiça aos mortos pelo regime militar.

Um filme uruguaio que passou em mostra paralela do recente É Tudo Verdade dá um claro exemplo de como isso pode ser feito pelas vias da pressão popular, desde que haja um governo disposto a fazer a coisa certa. No Uruguai, por 30 anos um grupo organizado de familiares de desaparecidos políticos lutou para saber o que foi feito de seus entes queridos. Só no período 2005-2010, quando o socialista Tabaré Vasquez esteve no poder, foi que se conseguiu escavar, literalmente, o passado, localizar e exumar restos mortais enterrados clandestinamente pelas forças de repressão nos anos 1970.

El Cultivo de la Flor Invisible é o título um tanto alegórico do longa-metragem de estreia do jovem mas experiente Juan Alvarez Neme. Ele registrou passeatas, manifestações e o trabalho de arqueólogos na procura de restos em fazendas particulares e numa lagoa nas redondezas de Montevidéu. Sobretudo ouviu as mães de alguns desaparecidos e suas razões para persistir na busca de informações e, quando nada, dos ossos de seus filhos. Ou mesmo recusar-se a isso. Elas desfiam suas lembranças dos filhos, do pouco que sabem sobre as condições em que foram detidos e da imensa dor de, de uma hora para outra, nunca mais ter recebido qualquer notícia deles. São memórias para uso diário, para citar o belo título do doc de Beth Formaggini que tratou de tema semelhante junto ao grupo Tortura Nunca Mais no Brasil.

O doc de Neme é principalmente um filme sobre a vitória da luta e da perseverança. Aquelas senhoras e senhores são vistos em momentos de relativa conquista. Numa cena emocionante, eles se reúnem para assistir na TV a um comunicado decisivo de Tabaré Vásquez no sentido de proceder à localização dos corpos. De alguma forma, é como se víssemos um passo adiante na concretização do que está no filme de Beth e no extraordinário Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán. O diretor/roteirista conta com a inestimável colaboração de mulheres dotadas para o relato verbal e capazes de formar um espectro heterogêneo de motivações e experiências pessoais. Ou seja, embora haja um sentimento de grupo, há também uma riqueza de diferenças na forma como elas se posicionam frente ao passado e ao presente.

Outro aspecto forte do doc, embora tocado apenas superficialmente, é a colaboração entre as ditaduras argentina e uruguaia na prisão e repatriamento de ativistas – o que já vimos mais detalhadamente no brasileiro Condor, de Roberto Mader. Há apenas poucos anos descobriu-se que voos clandestinos transportavam de volta presos políticos uruguaios capturados em Buenos Aires. Eles eram levados para morrer “em casa”.

É curioso que ainda não tenha havido um sucedâneo dessa colaboração entre os governos de esquerda recentes na América do Sul para por fim a esse silêncio. Iniciativas como a de Tabaré Vásquez no Uruguai, o fim da lei da anistia na Argentina e a Comissão da Verdade brasileira poderiam se fortalecer se houvesse simultaneidade e coordenação. Numa escala pequena e simbólica, uma exibição mais ampla de El Cultivo de la Flor Invisible por aqui seria oportuna e benfazeja. O filme vai estrear no Uruguai em muito breve.

Um comentário sobre “A hora da verdade

  1. Porque as famílias ainda tem que viver sem saber onde estão enterrados seus filhos , maridos, pais e irmãos se seus algozes ainda estão soltos por aí e poderiam esclarecer esta dúvida? Se estes casos estão sendo apurados nos outros países latino-americanos porque aqui não se enfrenta a questão? Será que não temos coragem de encarar a verdade?

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