A engajada e o desbundado

Nos últimos anos, têm sido vários e bons os documentários que se debruçam sobre os anos de chumbo do Brasil no século passado: Vlado 30 Anos Depois, Condor, Hércules 56, Cidadão Boilesen, Diário de uma Busca. Em cada um deles, uma maneira diferente de olhar para trás. Em alguns, formas distintas de mobilizar as subjetividades em torno da História. Esse filão vem se enriquecer agora com o trabalho original, corajoso e afirmativo de Lucia Murat em Uma Longa Viagem.

Talvez pela primeira vez um filme contemple os dois lados da resistência ao déficit de liberdades dos anos 1960 e 70. A partir da dor da perda do irmão Miguel, Lúcia e Heitor se dispuseram a contar a história deles próprios no período. Lúcia participou da luta armada, foi presa, torturada e já havia tratado dessa experiência no seu segundo longa, Que Bom te Ver Viva (1989). Heitor foi enviado pela família, aos 18 anos, para Londres, onde descobriu a alternativa mais radical de liberação individual, que na época atendia por desbunde.

O filme reconstrói a trajetória dos dois, mas com ênfase na de Heitor, que não só conversa com a irmã diante da câmera como é representado pelo ator Caio Blat dentro de um dispositivo audiovisual bastante inspirador. Em vez de montar as cartas, documentos e materiais de arquivo no formato tradicional do documentário expositivo, Lúcia criou um aparato performático em que o ator recebe sobre o corpo e interage ludicamente com a projeção das imagens. Ou seja, o que usualmente seria linearidade e justaposição vira simultaneidade e sobreposição.

Nada disso é gratuito, na base do velho fetiche multimídia, mas uma opção orgânica de representar o psicodelismo da longa viagem de Heitor através de países e drogas cada vez mais radicais. A cenografia das vinhetas ficcionais também assume um caráter alusivo, complementando um corpo coeso de recriação e rememoração.

Se Heitor é um personagem fascinante em sua inteligência e no modo como traz no corpo e na voz os ecos de suas mil experiências, Caio Blat não fica atrás como o ator perfeito para lidar com o personagem, num curioso misto de identificação e distanciamento, leveza e gravidade.

Vendo o filme, às vezes tive a sensação de que Lucia “invadia” um pouco “o filme do irmão” com sua própria história. Os dois meses e meio que ela passou incomunicável e sofrendo torturas na prisão do DOI-CODI parecem correr em paralelo a um longo trecho da vida de Heitor. Mas, pensando bem, esse é o contraponto buscado. Esse é o grau de complexidade que se estabelece na forma como Lucia traz à luz a história do irmão sem inferiorizá-la perante a sua própria história. A engajada e o desbundado aparecem, enfim, como duas faces de uma mesma moeda.

Um comentário sobre “A engajada e o desbundado

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