Pílulas na rede 6

Notas sobre filmes que vi recentemente, postadas nas redes sociais:

Alguma coisa está acontecendo comigo ou com o cinema. Filmes incensados por aí afora me parecem extremamente óbvios e gratuitos, como é o caso desse AQUI É O MEU LUGAR. Sean Penn mais me entediou do que divertiu com sua caracterização de roqueiro velho e deprimido, numa atuação robótica e caricata, sem nenhuma espessura humana. O estilo publicitário de Paolo Sorrentino, tão bem usado em IL DIVO, aqui é um pastiche exagerado e sem função. É impressionante a quantidade de ideias visuais que passam vadias pela tela, significando nada. David Byrne é convocado para dar o diapasão desse road movie ocioso, mas só faz dar saudade do seu magnífico TRUE STORIES, este sim, um retrato desolado e hilariante da América profunda. O filme de Sorrentino é só um punhado de ideias conflitantes dançando em cadência desencontrada.

Antes de mais nada, é uma heresia chamar BEM AMADAS de “musical”. A música não produz nada de estrutural no filme, então não é musical. É drama com gente que canta, numa tradição bem francesa que vem de Jacques Demy. Outra heresia é relacionar esse filme com a Nouvelle Vague. Não há nada do frescor nem da densidade (sim, as duas coisas juntas) da NV no mamute de Christophe Honoré. Aquilo parece mais um Lelouch sem humor ou um Ozon sem charme. Canções medíocres e prontamente esquecíveis pontuam uma história onde nada se aproveita. Os dois tempos não “conversam”, os personagens são aborrecidos. O filme tem muito sapato e cabelos, mas não tem pé nem cabeça. E pra terminar: não acredito em personagens femininas que saem pra rua sem bolsa. Pronto, falei.

O MOINHO E A CRUZ traz a incrível proposta de penetrar na gênese, no sentido e nas derivações de um quadro de Bruegel. Mesclando de maneira indissociável atores, desenhos e computação gráfica, o filme nos leva a passear pelo quadro, pela intimidade dos personagens em suas casas, as torturas e diversões da época (Flandres séc. 16). Um espanto de filme!

ELLES tem um argumento batido e “fácil” – jornalista e esposa burguesa se erotiza com matéria que está fazendo sobre jovens prostitutas -, mas o filme se salva pelo tratamento inventivo da diretora polonesa, pela fotografia eletrizante, pelas performances de primeira (Juliette Binoche à frente) e algumas cenas difíceis de esquecer. A romântica canção “Feuilles Mortes” nunca mais será a mesma depois de ouvida nesse filme. La Binoche, sempre buscando papéis de anti-diva, faz coisas que só grandes e corajosas atrizes podem fazer e sair inteiras.

Grande fim de noite vendo WANDA, de Barbara Loden (1970). Ela era casada com Elia Kazan quando fez esse curiosíssimo filme sobre o encontro de uma mulher passiva e solitária (Barbara) e um ladrão estressado e imprudente (Michael Higgins). Uma câmera na mão sensacional, atuações impecáveis dos protagonistas, influências de Antonioni, Cassavetes e do cinema direto. Culmina com um assalto a banco e é considerado o anti Bonnie & Clyde por excelência. Cinema independente e melancólico da melhor cepa. Tem em DVD da Lume.

5 comentários sobre “Pílulas na rede 6

  1. seus comentários nos deixam menos sozinhos num momento em que quase nos dobramos à ladainha de que envelhecemos, estamos nostalgicos, distantes das novas gerações .etc…… etc…. etc…
    Mônica e Pablo

  2. Também achei o filme do Sorrentino uma enorme decepção. Também me cansei com o Sean Penn chapado cronicamente ou com os neurônios carcomidos por anos de químicas exógenas. Também achei o filme do Honoré uma grossa porcaria. “Elles” (por que não “Elas”? “elles” parece coisa de collor, ‘sconjuro!) vale pela presença sempre fascinante da Juliette Binoche, mas se perde na ambição de retratar – ou mais: entender – a prostituiçãso feminina em uma visão moralista/pequeno burguesa. “O Moinho e a Cruz” é bonito. Esó. E aluguei “Wanda”, valeu a dica, mas ainda não pude ver, depois te digo o que achei. Abraços. Parabéns pela objetividade das pílulas. Quando eu crescer não vou ser prolixo, vou ser objetivo como vc nas pílulas.

  3. Concordo com todas as suas cinco visões, cara. Aliás, concordo bastante com vosmicê, sobre outros filmes e cineastas. Nossa discordância básica, parece,
    é quase que só a respeito do — intrujão, depois de metido a “sério” (?) — Woody Allien…

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