Casamento-catástrofe

Amanhã, à 0h10 de segunda para terça-feira, o Canal Brasil vai mostrar O Casamento, dentro da Mostra Centenário de Nelson Rodrigues. Leia abaixo o texto que serviu de base para a apresentação da sessão por Leona Cavalli.

O Casamento, realizado em 1975, é uma das adaptações mais radicais da obra de Nelson Rodrigues para o cinema. É ainda mais complexo e dilacerante que a primeira investida de Arnaldo Jabor nesse terreno, três anos antes, com Toda Nudez Será Castigada.

Quando lançou o romance O Casamento, em 1966, Nelson Rodrigues já era acusado de querer destruir a família brasileira. O governo do general Castello Branco não demorou mais que um mês para mandar recolher os exemplares das livrarias e proibir a venda em todo o país. O livro tinha sido escrito a pedido de Carlos Lacerda para estrear sua editora, a Nova Fronteira. Mas quando ele leu, deu um jeito de passar a bomba para o amigo Alfredo Machado, da editora Guanabara.

Apesar de tudo isso, os estudiosos da obra de Nelson garantem que, em meio a tanta perversão e humilhação, o texto é, isso sim, uma defesa da instituição do matrimônio.

Tudo se passa na véspera do casamento de Glorinha, último papel da atriz Adriana Prieto, que morreu de um acidente automobilístico pouco depois das filmagens, quando não tinha mais que 25 anos. No filme, ela foi dublada pela voz de Norma Blum. O pai de Glorinha, interpretado por Paulo Porto, vê a união da filha como uma faca de dois gumes: é a concretização de um sonho pequeno-burguês e ao mesmo tempo a perda da pessoa que mais ama no mundo. E aqui estamos falando de incesto, mesmo.

Sabino, o pai, é um personagem constituído pela culpa. Jabor criou para ele um pesadelo que o define. O filme começa com as imagens de uma enchente, fato muito comum no Rio de Janeiro da época. Sabino é um empresário do ramo imobiliário e se sente culpado pelos desabamentos. Na verdade, Sabino se sente culpado por tudo, desde as lembranças da infância até o afeto que nutre pela filha.

As várias histórias que vão se desdobrar ao longo do filme fazem um strip tease moral de homens e mulheres, pais e filhos, pobres e remediados, patrões e empregados, pecadores e supostos “homens de bem”. É um raio X impiedoso das relações de poder e de afeto num contexto repressor e fundamentalmente conservador. Enquanto o projeto do casamento caminha para se concretizar, a sociedade ao redor está caindo aos pedaços. A fauna rodriguena está completa com funcionários públicos, esposa leprosa, homossexual edipiano, amantes fetichistas.

Pelas situações que vivem e pelas coisas que dizem, Sabino, Glorinha, Noêmia, Camarinha e Xavier são personagens que levamos na memória por muito tempo depois de assistir ao filme. O inesperado é um elemento fundamental na trajetória de cada um deles, mas principalmente na de Sabino, um homem que está sempre dividido entre a tentação e a expiação de seus remorsos.

O filme se desenrola como um fluxo de consciência dos personagens. A câmera poderia ser o analista de todos eles. Por isso as cenas aparecem em ordem não linear, como se uma revelação levasse a uma lembrança, daí a uma nova situação e novas revelações, e assim por diante. Jabor não tem medo de carregar nas tintas, pois esse é o tom do quadro que quer pintar. Depois desta segunda transposição para as telas, ficou claro que Nelson Rodrigues e Arnaldo Jabor tinham nascido um para o outro.

A fotografia é do mestre Dib Lutfi, que demonstra sua incrível capacidade de flutuar entre os atores e colher o melhor de cada cena. A trilha sonora faz um mix delicioso de música clássica, canções bregas e sucessos americanos. Não há limites para a mistura tropicalista que caracteriza alguns dos melhores filmes brasileiros daquela época. E esse é um deles.

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