Alaíde entre a vida e a morte

Primeira e única adaptação de Vestido de Noiva para o cinema, o filme de Joffre Rodrigues passa hoje, à 0h10 de terça para quarta, na Mostra Centenário de Nelson Rodrigues do Canal Brasil. Abaixo, meu texto de introdução à sessão.

Vestido de Noiva foi a segunda peça de Nelson Rodrigues, mas é como se tivesse sido a primeira. Foi a obra que de fato lançou sua reputação de dramaturgo ousado, ambicioso e ao mesmo tempo popular. Segundo seu biógrafo Ruy Castro, Nelson a escreveu em apenas seis dias, e o poeta Manuel Bandeira, quando leu, disse que ela poderia consagrar não somente o autor, mas principalmente o público.

A primeira montagem estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em dezembro de 1943. Imediatamente, estava inaugurado o teatro moderno brasileiro. A direção e iluminação de Ziembinsky e os cenários de Tomás Santa Rosa traziam algo de revolucionário. Tornavam concreta a estrutura também inovadora do texto de Nelson, com seus vários planos e tempos superpostos.

Em Vestido de Noiva o dramaturgo estabelecia alguns de seus temas preferidos, como a desestruturação de uma família na iminência de um casamento, a rivalidade entre parentes próximos, as paranoias, a desconfiança em relação aos generosos em excesso, as fantasias sexuais de mulheres bem comportadas, a tentação e a sublimação do incesto, e por aí afora. A peça trazia também uma forte influência do cinema, com seus flashbacks, cortes bruscos e uma luz recortada que lembrava o expressionismo alemão.

O curioso é que tantas outras peças de Nelson Rodrigues foram adaptadas ao cinema, algumas mais de uma vez, mas Vestido de Noiva permanecia intocada pelos cineastas até o ano de 2005. Foi só então que Joffre Rodrigues, o filho mais velho de Nelson, produtor de vários filmes baseados em obras do pai, resolveu assumir os riscos pela primeira vez.

Ele escreveu, produziu e dirigiu um filme que se pode chamar “de câmara”. Ou seja, um trabalho muito concentrado em poucos espaços e nos corpos dos atores, sobretudo nos rostos. Simone Spoladore está irresistível no papel de Alaíde, a mulher atropelada na Rua da Carioca. Enquanto está sendo operada, entre a vida e a morte, Alaíde divaga entre lembranças, suposições e fantasias. Revê a disputa com a irmã Lúcia (Letícia Sabatella), em torno do amor de Pedro (Marcos Winter). Terá ela matado o marido ou tudo não passa de imaginação? Terá ela mesmo conhecido Madame Clessy, a dona do bordel, cujo diário tinha lido?

O essencial da peça está no filme: é o convite ao espectador para decifrar o quebra-cabeça dos pensamentos da moribunda Alaíde. Ela e Madame Clessy, interpretada com muita verve por Marília Pera, criam uma cumplicidade e desfrutam de uma liberdade que talvez só exista mesmo entre pessoas mortas. São elas que trazem à tona o inconsciente, marcando o gosto de Nelson Rodrigues por uma espécie de psicanálise selvagem, dessas que a gente vê em intrigas de gente comum.

No lusco-fusco da agonia de Alaíde, vivos e mortos convivem em cena aberta. Passado e presente se misturam, e de repente alguém pode conversar com outra pessoa diante do seu próprio cadáver. Acontecimentos se confundem com hipóteses, assim como o branco do casamento se junta ao preto do luto, a Marcha Nupcial se encontra com a Marcha Fúnebre. Os opostos se atraem porque, na visão de Nelson Rodrigues, são duas faces de uma mesma moeda. O que se deseja é o que se recebe, ainda que venha com o sinal trocado e o sangue das tragédias.

Esta única adaptação para as telas de Vestido de Noiva recupera um pouco da admiração de Nelson pelas óperas italianas. Num dado momento da peça, ele chega a intrometer na trama, como por engano de Alaíde, um personagem de La Traviata, de Verdi. Enquanto a montagem original da peça era minimalista no uso de elementos cênicos, o filme de Joffre Rodrigues capricha nos figurinos de Rita Murtinho e na cenografia dos ambientes. A música clássica, a música lírica e os chorinhos e maxixes brasileiros estão quase sempre presentes por trás dos diálogos, reforçando a pegada operística do filme. Um pesadelo, tudo bem, mas um pesadelo de ópera.

Nessas faces congeladas diante da câmera, nessas igrejas onde se pode casar ou ser velado, nesses fantasmas semivivos que entram na realidade sem pedir licença, está o tributo de um filho à obra-prima do pai.

2 comentários sobre “Alaíde entre a vida e a morte

  1. Porra, Carlinhos, escrevi um inspirado texto � partir do que vc escreveu sobre o Vestido de noiva, mas mais uma vez o blog n�o aceita e perco tudo! E isso n�o � a 1a vez que me acontece…desestimulante! Bjs. Bigo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s