Chora por Favio, Argentina

Foto: Carlos Alberto Mattos

Morreu hoje o legendário cineasta e compositor popular argentino Leonardo Favio. Em 1996, durante uma visita a Buenos Aires, entrevistei-o e fotografei-o para o jornal O Estado de S. Paulo. Àquela altura, conhecia apenas dois filmes dele. Mas o que mais me impressionou foi sua aparência misteriosa e triste, muito distante do que se esperava de um ídolo nacional. Segue abaixo o texto, conforme publicado na época:   

Imagine um ídolo da música popular como Roberto Carlos. Adicione um cineasta como Nelson Pereira dos Santos. Junte um peronista fervoroso. Agora reúna tudo numa pessoa só e você estará perto de compreender quem é Leonardo Favio, uma lenda viva da cultura argentina. Desde o enorme sucesso do seu filme Gatica, El Mono – que ele mandou retirar da lista de candidatos argentinos ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 1994 em protesto contra a falta de proteção do governo ao cinema nacional -, a obra cinematográfica de Favio vem sendo redescoberta pela intelectualidade argentina.

Incensado como gênio por críticos e cineastas de todas as latitudes ideológicas, cultuado pela gente comum que namorou ao som de suas baladas românticas nos anos 60 e 70, Leonardo Favio é sobretudo um personagem intrigante. Ele recebeu O Estado para uma entrevista em seu escritório no centro de Buenos Aires, decorado com fotografias de Evita Perón e estampas de São Jorge e da Virgem Maria. “Nem aqui, nem na minha casa tenho posters de meus filmes ou troféus pela vendagem de meus discos. Não me apego como um náufrago ao meu trabalho”, diz enquanto coloca um CD com ruídos de mar e pássaros para fazer fundo à conversa. “A posteridade é muito fugaz. Temos que estar sempre predispostos à solidariedade, mas ninguém é ‘a última Coca-Cola no deserto’. Visconti morreu e o mundo não se deteve por isso”.

O discurso da modéstia é apenas um dos ingredientes que já o entronizaram no concorrido panteão dos mitos portenhos, ao lado de Juan Perón, Evita, Gardel, Borges e Piazzolla. Com a diferença de que ele é uma legenda basicamente nacional. “Enquanto Fernando Solanas vê a Argentina de um ponto-de-vista europeu, Favio nos vê de dentro, como de fato somos”, situa o cineasta Gerardo Vallejo.

Nascido numa família pobre da província de Mendoza, de pai sírio e mãe escritora de radionovelas, batizado como Fuad Jorge Jury, ele passou a maior parte da infância em internatos e reformatórios. Fugiu de um deles para roubar rádios de carro. Preso diversas vezes, passou a roubar a cena como locutor de teatro radiofônico. Chegou a Buenos Aires em 1957 e projetou-se primeiro como ator, principalmente em filmes do mestre Leopoldo Torre-Nilsson, que lhe ensinaria a filmar. Nunca perdeu a intimidade com a marginália, agora transferida para o Retiro e a Boca (bairros boêmios de Buenos Aires). Tanto que, para concluir as filmagens de seu primeiro longa, não hesitou em vender jóias afanadas por um amigo fiel. Cronica de un Niño Solo (1964) é um relato autobiográfico das suas agruras de infância.

Freqüentador de cineclubes nos anos 60, Favio apurou seu estilo vendo muito Visconti, Fellini, Bresson, Truffaut. E também os filmes populares de Hugo del Carril e Luiz Cesar Amadori, seriados do Zorro, etc. Mas se recusa a admitir filiações. “Não tive tempo de aprender. Saí fazendo”, encerra o assunto. O irmão Zuhair Jorge Jury tornou-se o principal colaborador nos roteiros de seus filmes. El Romance del Aniceto y la Francisca (1965) e El Dependiente (1967) confirmaram o gosto do cineasta pelos temas populares de fundo social e pela construção de imagens meticulosas, com tomadas de câmera muito pesquisadas e forte sugestão plástica. Por conta de seu perfeccionismo, costuma dizer que faz “eterno-metragens”. A consagração nas bilheterias chegou com o épico Juan Moreira (1973) – sobre um herói-bandido do século 19 – e Nazareno Cruz y el Lobo (1975), uma história de amor protagonizada por um lobisomem. Ambos bateram recordes no cinema argentino, somando quase seis milhões de ingressos vendidos.

Era a época da volta de Perón. Favio o encontrara pela primeira vez em Madri, em 1971. O culto que já tinha herdado dos familiares transformava-se agora em adoração pessoal. Favio organizava espetáculos oficiais e chegou a trair o romantismo brega de suas canções compondo a elegíaca Estoy Orgulloso de mi General. Para aqueles que hoje o acusam de ser “o último artista peronista” (mas anti-Menem), ele rebate com convicção:  “Não sou um diretor peronista, mas um peronista que faz cinema. O peronismo não é um partido político, nem tampouco o que estamos vivendo hoje no país. É uma forma de amar as pessoas, e esse sentimento vai sempre palpitar nos meus filmes”. A recíproca foi verdadeira. Perón o transformou num darling do regime, favorecendo-lhe a realização de seus filmes mais ambiciosos.     

A queda do peronismo com o golpe militar de 1976 deu início a um período de pesadelo para Leonardo Favio. Naquele ano, Soñar, Soñar estreou sob ataques da crítica e só ficou uma semana em cartaz. Era a história de dois imigrantes que entravam no mundo dos artistas mambembes, tendo o famoso boxeador Carlos Monzón num dos papéis principais. “Os mesmos meios que antes me aplaudiam agora me chamavam de analfabeto. Por isso não acredito nos excessos de admiração”, queixa-se. Perseguido pelos militares, exilou-se no Chile e no México. Voltou à Argentina em 1979 e alternou residência no México e na Colômbia. Ficou 15 anos sem filmar, até que realizou o já célebre Gatica, El Mono, retrato nostálgico de um boxeador peronista dos anos 40, que após a deposição de Perón se torna artista clandestino. Para Favio, a relação afetiva entre Gatica, Evita e Perón no filme  “simboliza a relação que havia entre o povo e aqueles que conduziam os destinos do país”.

Embora tenha feito sempre um cinema essencialmente humanista, com leves insinuações políticas apenas nas entrelinhas, Favio está preparando há dois anos um documentário de explícita louvação ao seu General. “Não é fácil sintetizar, numa minissérie de cinco horas para a televisão, a história de como se construiu esse país a partir de uma colônia britânica”, diz. Ele contará com a ajuda de muitos efeitos eletrônicos e do fator emoção. “Não se trata de uma mera compilação de imagens, mas de uma recriação para que as crianças não façam zapping. Vai ter muito ritmo e um golpe direto no coração do espectador a cada três minutos, como nas canções”, planeja.

As canções, aliás, são um mundo à parte na carreira de Leonardo Favio. Seu primeiro disco, Fuíste Mía un Verano, também bateu recordes com a venda de 5 milhões de exemplares e transformou-se em filme pelas mãos de outro diretor. O estampido do sucesso levou-o a uma depressão profunda. Ganhou e dissipou centenas de milhares de dólares. Mas outros nove discos se seguiram, sem que a música jamais se misturasse com o cinema. Os intelectuais que louvam seus filmes deploram o primarismo de suas baladas. Tratam-no como se fossem dois artistas distintos. Ele nega. “Minhas canções saem espontaneamente do violão, as letras são as mais simples do mundo. Não posso voar mais alto que isso. Mas eu gosto e o povo gosta. Acho que meu cinema também tende à simplicidade. Ele só se completa com o público enchendo a sala”.

Seu último CD, Me Miró, por dentro de uma capa entulhada de flores e olhos femininos, traz versos do quilate de “el amor es un juego traidor”, “mi corazón no quiere dar un paso más sin ti” e “muchacha singular bella como una flor”. De fato, não dá para ver aí o sofisticado criador de Juan Moreira e Gatica, El Mono. Para seu total desconhecimento no Brasil, Favio só tem uma explicação: “Foi pura preguiça de minha parte. Não procurei o Brasil no momento certo”.

Com o andar levemente afetado por uma fratura na perna em 1980, o olhar meio cansado para um ídolo romântico, Leonardo Favio é hoje um pacato pai de quatro filhos. Isso não quer dizer que tenha perdido a vaidade que o fez um dia tentar a sorte no cinema somente “para conquistar as melhores mulheres”, como confessa sem pejo na autorizadíssima biografia escrita pela jornalista Adriana Schettini com o título hagiográfico de Pasen y Vean – La Vida de Favio” (Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1995). Há mais de dez anos ele nunca aparece em público sem um lenço supercolorido na cabeça. Qualquer garçom ou taxista de Buenos Aires sabe que é para cobrir a calvície acentuada. Mas ele próprio, questionado pelo repórter, opta por uma resposta que lembra as letras de suas canções:  “O lenço me faz feliz, é só isso”. Puro Favio.

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