Pílulas na rede 11

Gabriela Amaral Almeida é uma diretora e roteirista de cinema das mais inteligentes e sensíveis que conheço. Vi ontem seu novo curta, A MÃO QUE AFAGA. Uma operadora de telemarketing prepara uma festinha de aniversário para seu filho em meio a uma terrível crise de comunicação e solidão. Gabriela faz um comentário profundo sobre o nosso tempo sem inflar nenhum discurso, sem empurrar significados pela nossa garganta, sem apertar nenhum botão especial. Apenas um cotidiano bem decupado e atravessado por um subtexto sutil, e lá estamos no cerne da questão. Tenho dúvidas sobre o estilo um tanto esfíngico das atuações, algo que me incomoda também em TRABALHAR CANSA, por exemplo, mas não sei se as coisas funcionariam tão bem numa chave mais naturalista. O fato é que o filme cola na gente como um ímã e por isso tem sido tão premiado em festivais.

O pacotaço de 12 novos curtas cavidianos exibidos ontem no Odeon trazia a diversidade característica das produções daquela usina. Mas havia uma dado relativamente novo pra mim: a sofisticação da imagem e do som na maioria deles. Em alguns, até um certo virtuosismo que periga esvaziar o argumento. Eu sei que uma aparência visual e sonora requintada hoje é mais fácil de se obter com poucos recursos, mas esse cuidado parece fazer parte da proposta dos filmes, muitos deles ensaios na fronteira da dança e da performance. A fotografia de Vinicius Brum é o dado mais comum a essa safra de curtas que pegam a gente primeiro pelos sentidos e só depois pelo pensamento.

Uma impressão de esquizofrenia me passou em ELEFANTE BRANCO. De um lado, temos um retrato provavelmente realista de uma favela portenha, em ritmo tenso mas sem espetacularização. De outro, temos uma linguagem muito “limpa”, com planos-sequência em steadicam e decupagem tão clássica quanto num drama de William Wyler. De um lado, atuações naturalistas e a busca de uma representação sob todos os aspectos convincente. De outro, personagens e comportamentos que vão ficando cada vez mais implausíveis, (atenção spoiler!) com um padre que namora em público e outro que não hesita em pegar em arma contra a polícia. Sei lá, achei muito esquisito esse filme do Trapero. Entendo que ele estivesse interessado em denunciar a todos, sem maniqueismo, mas acho que o filme, além de demorar a engrenar, quando pega, não vai muito além da esquina seguinte.

7 DIAS EM HAVANA é um dos piores filmes em episódios que vi ultimamente. Visões caricatas e surradas do cotidiano de Cuba, exploração disfarçada de clichês sobre pobreza, prostituição, musicalidade e suspensão de compromissos. Afora os bons momentos tatianos do episódio de/com Elia Suleiman, eu olhava o relógio o tempo todo, como quem esperava os velhos discursos infindáveis de Fidel – algo, aliás, muito bem usado pelo Suleiman. Kusturica estrela um dos curtas mais chatos do filme. Por que ainda insistem nessa fórmula que quase nunca dá certo?

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