Pílulas 27

Crítico nota zero, eu nunca tinha visto um filme do Moacyr Góes. Estreei com BONITINHA MAS ORDINÁRIA. Dizem que é o melhor dele. De fato, não é de todo ruim porque o elenco principal segura as pontas nos diálogos-chave, que são nelsonrodrigueanamente infalíveis. Mas a falta de imaginação cinematográfica da direção é constrangedora. Não deve ter havido material decente para a montagem, o que resulta num açougue de planos sem a menor noção de eixo nem continuidade. Parece teatro enlatado em má televisão dos anos 70, com uma edição de som do mesmo nível. E não vamos falar do anacronismo que é equiparar, nos dias de hoje, virgindade e dignidade no mesmo patamar moral. Se já nos tempos de Nelson Rodrigues isso era uma forma de espicaçar o conservadorismo da classe média à sua maneira, agora tudo soa como uma peça de época da qual só atualizaram o figurino. 

TERAPIA DE RISCO é um coquetel de remédios contra o tédio no cinema. Tem gente lutando contra a depressão, tem sonambulismo, esfaqueamento, conspirações da indústria farmacêutica e mais um bocado de coisa que a gente vai descobrindo ao longo do filme. Mas, justamente por combinar tantos ingredientes numa mesma fórmula, os efeitos colaterais são danosos: trama tortuosa demais, revelações estapafúrdias, viradas inconvincentes e o desperdício de um bom argumento sobre a mercantilização dos medicamentos. Steven Soderbergh caminha célere para ser o mais eclético realizador da história do cinema. Cada filme seu é praticamente um gênero a mais em sua filmografia. O estilo nunca deixa de ser interessante, mas quando o material cheira a bestseller barato, como aqui, as reações adversas podem incluir desnorteamento do espectador e descrença na capacidade de escolha do diretor.  

O HOMEM QUE RI parece aqueles “filmes de qualidade” franceses pré-Nouvelle Vague, mas sem a metade do talento de um Carné ou de um Ophuls. Jean-Pierre Améris acumula cenas quadradonas, com um casal de atores sem graça e um Depardieu cansadão. Ainda que a história de Victor Hugo tangencie o conto de fadas para chegar a seu libelo em prol dos miseráveis, não há desculpa para um roteiro tão estapafúrdio, em que a personalidade do protagonista Gwynplaine oscila mais que uma biruta no vento. Não há como o espectador se sensibilizar, nem pelo lado social, nem pelo romântico. Sem a atenuante do musical nem um tratamento atualizado, o filme ficou sendo apenas um melodrama anacrônico.  

Apesar de um certo didatismo na passagem de informações e de uma “vilã” esquemática (a diretora da escola), O SONHO DE WADJDA é uma façanha de coragem e qualidade para um primeiro filme rodado inteiramente na Arábia Saudita. O roteiro condensa uma visão detalhada de como o fundamentalismo religioso e moral se manifesta no cotidiano das pessoas, especialmente das mulheres. Bem mais crítico que a maioria dos filmes iranianos em cujo modelo se inspira, o trabalho da diretora Haifaa Al Mansour toca no nervo de muitas questões vitais para os sauditas, da inferiorização feminina à demagogia do apoio aos palestinos. E o faz sempre com leveza, humor e eficácia. A menina Wadjda é nossa mediadora e nos conduz magneticamente ao longo de todo o filme, graças sobretudo ao carisma e à naturalidade da atriz Waad Mohammed. Para mim, que sou turista de cinema, teve o atrativo a mais de mostrar os subúrbios de Ryad, espaço monocromático tão fechado aos olhos ocidentais, mas que se abre globalizado na padronização dos shoppings. 

Uma coisa me chamou a atenção sobre o mundo dos altos traficantes de drogas como retratado em SELVAGENS, de Oliver Stone, que só vi agora: eles atuam como corporações, com equipes de rastreamento financeiro e cibernético e até ações humanitárias na África. Pode ser mais um delírio grandiloquente típico do diretor, mas ele geralmente gosta de evoluir a partir de possibilidades reais. Stone é como um documentarista que tomou mescalina e desembarcou na hiperrealidade. De resto, o filme é divertido o tempo todo, exceto quando desova violência, que aí fica faltando a verve de Tarantino para conciliar as duas coisas. É notável a sensualidade com que Stone filma, captando na paisagem física e humana americana o esplendor das epidermes, o prazer das alternâncias de velocidade e suspensão, o senso de viagem explorado em múltiplos sentidos. SELVAGENS é tolo e vazio como um gibi animado, mas é uma “prise” e tanto para os sentidos. 

Graças ao meu amigo Julio Cesar de Miranda, vi enfim o prestigiado LE QUATTRO VOLTE, do italiano Michelangelo Frammartino. Sem diálogos (se não considerarmos as conversas entre as cabras), se passa numa aldeia perdida na Calábria. Dizem que Pitágoras viveu lá, e que o filme segue sua teoria das “quatro vezes”: o homem é mineral, depois vegetal, em seguida animal e por fim racional. Mas isso é exigir demais de um filme relativamente simples. É aquele tipo de obra tão concreta que logo sugere leituras filosóficas. O que vi foi, sim, uma sucessão de ciclos vitais: o velho pastor que morre no único dia em que não toma sua beberagem milagrosa, o cabritinho que nasce e aprende as primeiras lições de sobrevivência, a árvore altíssima que é cortada e reciclada em diversão dos homens e finalmente em carvão. Tudo termina ciclicamente com a fumaça que sai das chaminés e alimenta a vida na aldeia. O filme muda de gênero a cada uma dessas etapas: primeiro é uma fantasia camponesa à moda de Olmi/Taviani, depois uma aventura do tipo Mundo Animal, concluindo com um jeitão de documentário etnográfico. Em dado momento, o filme interrompe seu fluxo para uma cena memorável envolvendo um cachorrinho esperto, uma procissão de Via Sacra e um caminhãozinho desgovernado. Tudo muito elíptico, muito silencioso e muito misterioso no que diz respeito aos limites entre registro e encenação. Mas não acho que justifique toda a admiração que tenho lido por aí.  

4 comentários sobre “Pílulas 27

  1. PS:
    Hoje, segunda-feira, palavrões como “Woody Allen” já estão liberados até o próximo sábado…

    PS:
    Carlos, por favor, peço que me comunique [ via:
    fernandomonteiro@superig.com.br ]
    um endereço para o qual eu possa lhe remeter um livro editado em Portugal, e que, em parte, trata de Cinema…
    Grato,

    F.

  2. Exatamente o que precisava ser dito sobre o filme do Goés. Tem gente até admirando esse filme do cara (gente boa, quero dizer), como se ele por acaso tivesse alguma noção do que faz — inclusive comercialmente etc etc. Entendo não.
    Então, parabéns pra você C.A.M.

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