Cabaré de cá

Filmes de cabaré usualmente nos trazem à memória o Cabaré de Bob Fosse. Tatuagem não foge à regra. Temos uma casa de espetáculos burlescos, sensuais e politicamente provocantes, liderados por um mestre de cerimônia exuberante, uma ideia de comunidade nos bastidores e um ambiente político pesado ao redor. Num dado momento, Clecinho (Irandhir Santos) chega a citar o número de Liza Minnelli com a cadeira.

Nada, porém, tão distante do modelo de espetáculo lustroso e milimétrico de Fosse quanto o filme de Hilton Lacerda. Estamos no terreno do cabaré artesanal, pobre e inventivo, o possível para a Recife de 1978. O Chão de Estrelas é quase um condensado dos caminhos do desbunde da época: homoerotismo, erudição, subversão comportamental, drogas, escracho, vida comunitária – e Super 8. É nesse cenário que dois personagens aparentemente (mas só aparentemente) antípodas vão se encontrar: o astro-administrador Clecinho e o soldado Arlindo ou “Fininha” (Jesuíta Barbosa). A partir desse encontro vamos testemunhar uma das mais ternas e carnais relações entre dois homens já mostradas num filme mainstream (vá lá, Tatuagem é um middlestream).

Em seu primeiro filme de ficção como diretor, o experimentado roteirista Hilton Lacerda dá mostras de dominar amplamente os vários setores, num trabalho coeso com o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo, a diretora de arte Renata Pinheiro e o elenco nunca menos que excepcional. Tatuagem tem o sabor das coisas vividas e sentidas até o osso. É provavelmente o filme mais hedonista e transgressor do cinema brasileiro em muito tempo. E talvez o recuo cronológico abra esse espaço de liberdade e sensualidade que os filmes atuais quase não sabem mais reconstituir. O retrato daquela comunidade em pleno processo de criar formas anticonvencionais de amor, família e propriedade chega até nós com a força da sedução e do convencimento. Por um instante, vi até um paralelo com as discussões recentes do Fora do Eixo, mas com tesão e entrega no lugar do proselitismo político.

Há talvez um certo proselitismo homoerótico, isso sim, na oposição um tanto fácil e retórica dos rigores ridículos e hipocrisias da caserna com o ambiente de liberação e prazer do Chão de Estrelas. Mas isso é nada perto da vivacidade e da delicadeza do filme em todo o resto.

Tatuagem, somado a Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro, e aos filmes de Cláudio Assis, define uma espécie de segundo campo dominante dentro do cinema pernambucano atual. Enquanto os filmes de Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso lidam com o sociológico e o antropológico, essa outra corrente explora condensações de vida e espetáculo em regime mais sensorial e poético. As interpretações de Esse Cara por Irandhir Santos em Tatuagem e de Chupa que é de Uva por Maeve Jinkings em Amor, Plástico e Barulho bastariam para fechar um circuito de momentos antológicos no cinema brasileiro recente. Imagens eloquentes, músicas sugestivas e atuações arrebatadoras são a marca desse ciclo auspicioso.  

3 comentários sobre “Cabaré de cá

  1. Carlos,

    A grandeza de seu texto está à altura da grandeza do filme. Como amante do Cinema e gay, mesmo assim, jamais escreveria algo tão belo. Você colocou em palavras tudo que senti assistindo o filme.

    O melhor filme brasileiro que conhecia a abordar, mas de forma indireta, a homossexualidade é “Crônica de Uma Casa Assassinada” de Paulo Cesar Saraceni . Depois viria “A Rainha Diaba” de Antônio Carlos Fontoura. Mas estes são filmes tanatológicos. “Tatuagem” não. É o império de Eros vencendo Thanatos. Dificilmente superável neste sentido.

    Abs,
    Nelson

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