Pílulas 43

Poucos diretores filmam ação realista tão bem quanto Paul Greengrass. CAPITÃO PHILLIPS é mais uma demonstração desse talento de lidar com espaço amplos e exíguos, ritmo impecável, senso de medida perfeito, pegada pseudodocumental. Mas aqui o roteiro não é dos mais estimulantes. Nem falo das falhas de lógica dos comandantes de cada lado, pois talvez sejam fiéis aos fatos, e os fatos falham, claro. Falo do enjoo que o filme me causou, e não foi enjoo marítimo. A oposição entre os americanos competentes/racionais/humanos e os piratas somalis estúpidos/barulhentos/animalescos me deu vontade de pedir o saco de vômito. Em vez de uma análise geopolítica da relação Norte-Sul, temos mais um elogio milimetricamente construído da inteligência bélica e da superioridade moral americana. Ou seja, já cansamos de ver esse filme.

Talhado sob medida para disputar Oscars, O MORDOMO DA CASA BRANCA usa a trajetória pessoal e familiar do personagem-título como contraponto para a história da luta contra o racismo nos EUA ao longo do século XX e até a eleição de Obama em 2008. Lee Daniels confirma seu engajamento na causa de uma maneira pouco panfletária, encampando a tese de Martin Luther King, para quem os “negros domésticos” (empregados, mordomos etc) também faziam sua parte na afirmação da raça e não deviam ser tratados como inimigos. Não sei até que ponto tudo é verdade na história de Cecil (na verdade Eugene Allen, morto em 2010 aos 90 anos), que serviu a oito presidentes enquanto um filho ia para o Vietnã e outro entrava para os Panteras Negras e se transformava num líder político. O filme tem tudo no lugar certo, certinho até demais: indignação, lágrimas, civismo, melodrama. E, como é praxe em filmes de Daniels, vários músicos e figuras do firmamento pop em papéis importantes. Os sucessivos presidentes americanos são retratados como caricaturas, de modo a passarem batidos e não ofuscarem o brilho do mordomo. A fala de Cecil na última cena faria inveja a Billy Wilder. 

AMOR BANDIDO (eta título rasteiro) não me alimentava grandes expectativas e assim se confirmou. Essa história de amadurecimento amoroso de um garoto do Arkansas, espelhado (o amadurecimento) no encontro com um fora-da-lei apaixonado, é movida a chavões dramatúrgicos manjadíssimos e um suposto tom enigmático que em nenhum momento me fisgou. Meninos aventureiros, lobos solitários, matadores mal encarados e mulheres de conduta duvidosa fazem o que se espera de cada tipo, conduzindo a trama com uma solenidade postiça e lances inconvincentes a torto e a direito. O personagem de Matthew McConaughey me pareceu maçante e nada inspirador, ao contrário do que o roteiro pretendia. Enfim, American bull shit com pretensões de conto moral.

LA GRANDE BELLEZZA pode vir a enfrentar “O Som ao Redor” na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. Aposto que divide os votantes. De um lado, a exuberância cênica de Paolo Sorrentino deixa aquela impressão de que estamos diante de uma obra de arte inquestionável. As extravagâncias incluem um transatlântico naufragado, uma girafa nas ruínas imperiais e um terraço coalhado de cisnes ao lado do Coliseu. Gruas e steadicams abundam na mise-en-scène “líquida” que flui veloz e acetinadamente entre espaços, tempos e ambientes. A augusta Roma dos monumentos e interiores de palácios e de clubes noturnos desfila em seu esplendor quase irreal e vacuidade imponente. As imagens e a trilha sonora exigem respeito. Reconhecer as qualidades do filme equivaleria a reverenciar mais uma vez Fellini e o cinema italiano moderno. Por outro lado, a crônica meio absurda da cidade, uma espécie de La Dolce Vita atualizada, pode desorientar bastante plateias menos iniciadas nas mitologias romanas e em estruturas mais experimentais. No rastro do personagem de Toni Servillo, um escritor conhecido como “rei dos mundanos”, passeamos por festas desvairadas, funerais, performances, cultos religiosos, clínicas de botox, sempre acompanhados pelos espectros da frustração e da morte. A liberdade narrativa de Sorrentino tangencia o operístico e o surreal. Fala mais ao gosto dos anos 1960 que à demanda por solidez e clareza do cinema atual. Por isso, em caso de confronto direto, acho que o filme do Kleber levaria a melhor.  

LE PASSÉ, o novo filme de Asghar Farhadi, deu a Bérénice Bejo o prêmio de melhor atriz em Cannes. Ela realmente está ótima, mas não menos do que todo o elenco do filme. Farhadi dirige com precisão milimétrica mais uma história montada em torno de uma mentira (ou omissão) central que desencadeia o inferno ao redor. Dessa vez, na França, envolvendo imigrantes. Mas não encontrei aqui a mesma força de Procurando Elly nem muito menos de A Separação. Prevalece um tom meio novelesco, que nos outros filmes era dissimulado pela pegada policial, a resolução de um mistério. Aqui há também uma questão mal explicada que dificulta a vida de uma mulher na relação com seu marido anterior, o amante atual e os filhos de diversas uniões. Os filhos personificam o passado do título, que parece não querer desgrudar dos personagens, provocando desarmonia e sofrimento. Um belo e sóbrio filme, sem dúvida, mas sem o brilho dos anteriores. 

CHILD’S POSE, o filme que ganhou Berlim e representa a Romênia na corrida ao Oscar, examina o choque de classes na era pós-comunista através de um acidente em que um filho da  elite atropela e mata um menino pobre. Mas o eixo da observação é deslocado para a relação entre o motorista e sua mãe, uma socialite a quem ele não tolera. Um melodrama seco corta o ar em fatias. Diálogos magistrais ditos por atores excepcionais, com destaque para a mais impressionante conversa que já vi entre uma mulher e sua nora indesejada. A câmera inquieta tem algo de Lars Von Trier, enquanto o naturalismo radical é completamente romeno mesmo. Romena também é a fixação dos personagens e do filme nos detalhes da burocracia, dos procedimentos policiais e até de um mero exame de sangue. Uma curiosidade: o filme parece armar uma denúncia da corrupção que favorece os mais ricos, mas acaba pendendo para o drama familiar e concentrando-se numa parábola sobre a dor materna e a compaixão humana, que pairam acima das diferenças sociais. 

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