Os quase épicos de Humberto Mauro

(Resenha publicada originalmente na revista Filme Cultura nº 61)

A obra de Humberto Mauro teve a sorte de ser abordada em profundidade por grandes pesquisadores como Paulo Emilio Salles Gomes, Alex Viany e Sheila Schvartzman, para citar somente os que publicaram ou organizaram livros a respeito. As diversas fases do seu cinema – Cataguases, Cinédia, INCE/Instituto Nacional de Cinema Educativo, Rancho Alegre – suscitaram abordagens diferenciadas do trabalho de um realizador que personifica boa parte das transformações ocorridas no cinema brasileiro na primeira metade do século passado.

Em Humberto Mauro, cinema, história (Alameda, SP, 2013), o professor e pesquisador Eduardo Morettin debruça-se sobre um recorte muito específico do trabalho de Mauro: apenas dois filmes históricos que ele realizou em fins dos anos 1930: o longa O descobrimento do Brasil (1937), produzido pelo Instituto de Cacau da Bahia com apoio do INCE, e o média Bandeirantes (1939, referido no livro como “Os Bandeirantes”), já integralmente produzido pelo instituto.

A imersão vertical da pesquisa de Morettin na gênese e na produção desses filmes vai gerar alguns efeitos bastante curiosos. Primeiro, o de inverter o movimento usual desse tipo de investigação, que é no sentido da História para o filme. O pesquisador geralmente vai colher na História os subsídios para uma análise mais aprofundada da obra cinematográfica, que é seu objeto e alvo. Morettin, ao contrário, parte dos filmes para esquadrinhar a História, que é seu horizonte. Assim, o processo de concepção e realização dos filmes vai atrair os documentos e as ideias que caracterizavam um momento histórico, a que os filmes pretendiam servir.

O outro efeito é o de fazer a figura de Humberto Mauro esmaecer um pouco em vista da magnitude do projeto ideológico que regia a implantação de um cinema educativo durante o Estado Novo. Tanto O descobrimento do Brasil quanto Bandeirantes contaram com a pesquisa e a orientação do historiador Affonso de Taunay, diretor do Museu Paulista, e do antropólogo Edgar Roquette-Pinto, intelectuais plenamente identificados com a recuperação e monumentalização do passado empreendidas pelo governo Vargas no rumo da construção de um “nacionalismo de massas”. Mauro, portanto, embora assine como diretor, vai ser solicitado a atuar mais como técnico cinematográfico, alguém capaz de converter em imagens as propostas da “intelectualidade dominante”.

Apesar dessa evidência, Morettin vai buscar, numa análise fílmica pormenorizada, as opções e também as insuficiências que subverteram, aqui e ali, o cumprimento da encomenda pelo cineasta. Para tanto, ele se debruça sobre os textos e as demandas dos educadores que fomentaram os pressupostos ideológicos dessa apropriação da arte pela educação cívica e pela cristalização de uma História oficial. Localiza os documentos que identificam a intenção de criar, em O descobrimento, um padrão “limpo” e “fidedigno” de filme histórico; e em Bandeirantes, um veículo audiovisual para o projeto da “Marcha para o Oeste”, criado por Vargas para ocupar vazios demográficos à base de idealismo e sacrifícios.

Um dos elementos que mais impressionam nesse livro de quase 500 páginas, com mancha gráfica mais larga que a média, são as 23 páginas de referências bibliográficas. O escopo da pesquisa é realmente extraordinário e inclui arquivos históricos e institucionais, livros didáticos e um sem-número de quadros, gravuras e desenhos.

Os parâmetros de legitimação do filme histórico estavam principalmente em documentos (como a Carta de Pero Vaz de Caminha) e nas artes plásticas, o que Morettin vai examinar com lupa de investigador. E aqui não se trata apenas de apontar inspirações, mas também de detectar as diferenças que torcem o sentido para adaptá-lo às conveniências do momento. Especialmente interessante é o apagamento de todo sinal de violência e imposição dos portugueses sobre os índios, em troca de uma dramaturgia da harmonia, da cordialidade e da submissão espontânea. O mesmo se verifica em relação a Bandeirantes. Nesse caso, havia mesmo indicações de batalhas sangrentas no roteiro original de Mauro, mas que não chegaram a ser encenadas. A escravidão e a dizimação dos índios não têm lugar no filme, diluídas em imagens de colaboração inter-racial – perfeito modelo para o ideal de servir à Pátria com disciplina, trabalho coletivo e alegria.

A tenacidade do autor o leva a analisar desde as motivações da trilha musical de Villa-Lobos para O descobrimento até as relações entre a decoração do Museu Paulista e a configuração estética de Bandeirantes. Tudo, porém, navega na direção final de Humberto Mauro. Morettin utiliza o conceito de “pluralidade de canais”, cunhado por seu orientador Ismail Xavier, para examinar a contribuição específica do diretor, vale dizer seu grau de autoria. A conclusão mais evidente diz respeito a uma certa incompatibilidade de Mauro com a linguagem do épico. Daí sua preferência pelo registro da melancolia, do cansaço e do sacrifício do bandeirante, isto sem falar na tradição de precariedade do próprio cinema brasileiro que redunda em aventuras sem exaltação, erros de continuidade e inadequações na direção de atores. Um aspecto, porém, é destacado como clara opção pela imagem antiépica: o plano final de O descobrimento, que enfoca dois degredados deixados no Brasil após a partida da esquadra de Cabral.  

Descontadas algumas reiterações típicas da exposição acadêmica, mas que até ajudam a preservar as linhas de raciocínio em trabalho de tal fôlego, Humberto Mauro, cinema, história é um texto de rara fluência e poder sugestivo. É provável que nenhum filme brasileiro tenha sido objeto de empreitada semelhante à que dissecou esse dois quase épicos que, para Morettin, representam “um interregno na carreira de Mauro”. Um interregno de (relativa) obediência a Roquette-Pinto.

4 comentários sobre “Os quase épicos de Humberto Mauro

  1. Pingback: Em cartaz | ...rastros de carmattos

  2. Não sei quais as razões em produzir essa tese ou o apoio a ela, – na minha humilde visão, de quem lidou familiarmente com HM, não vejo essa paranoia em esquadrinhar supostas tendências de direita naturalmente, ou até coisas piores. Tudo focado nas entrelinhas da convivência de meu tio com Roquete Pinto e o Governo Vargas – tudo cheirando àqueles surtos de demolir valores, em detrimento de teorias rançosas atuais – isso aí é nada mais que procura de assuntos para fazer teses etc.(desculpem a queda na critica) Scheila iniciou com o seu livro, ensaiando o ” desbanque” de HM, e esse outro autor que conviveu com ela na universidade, aproveita o gancho de um parágrafo do seu livro, e continua a procura – querem um fator de “oposição” á figura de nosso querido tio e cineasta, que o façam, mas com sensatez.. Para ser mais claro ouvi várias vezes dele que “os outros inventavam complicações” e que inclusive lhe haviam dado “um titulo que ele talvez nem merecesse”. É lamentável – aconselho se desejam pesquisas, ela não seja adstrita às obras acima citadas – recomendo com urgência a leitura de Humberto Mauro, por Fidel Rangel, em Edição de 2010 , Fundação Joaquim Nabuco -Coleção Educadores Mec (existe PDF à disposição na Net) – Uma serie de biografias, que o Ministro Haddad autorizou quando naquela pasta, colocando Humberto definitivamente como um dos Educadores brasileiros de todos os tempos – obra grandiosa, que acaba com as lorotas e os oportunismos.

  3. Carlinhos tive o prazer de conviver com Humberto Mauro quando do lançamento de Noiva da Cidade em Cataguases e em companhia do meu saudoso amigo Alex Viany, ganhei lindas dedicatória de ambos no livro do Alex. Quando lá chegamos HM estava engatinhando para chegar a copa, assustado perguntei porque e ele que sempre usou a visão, respondeu calmamente “estou treinando para quando ficar cego alcançar a copa, e andar pela casa”. Ele era diabético e um gênio, nos filma do segundo andar com certeza.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s