A volta de Pierre Étaix

Pense nos truques de Georges Méliès, na pantomima de Charles Chaplin, no rosto patibular de Buster Keaton, na elegância de Max Linder, nos quiproquós de Laurel & Hardy e no nonsense de Jacques Tati. Agora reúna tudo isso num só comediante, e eis Pierre Étaix. Ele é o último herdeiro de um modelo de comédia nascido no cinema mudo, o slapstick, baseado nas gags visuais e na performance corporal. Sua obra cinematográfica ficou obscurecida durante 20 anos por conta de uma disputa judicial dos direitos entre o diretor e os produtores. A mostra que começa hoje (quinta) no CCBB-Rio e segue para várias cidades (veja no final) é parte de uma redescoberta mundial iniciada em 2010, quando os tribunais deram ganho de causa a Étaix e seus filmes foram restaurados e voltaram a circular.

Além de cineasta e ator, Pierre Étaix é ilustrador, palhaço e autor teatral. Entre 1961 e 1971, ele trocou o mundo do music hall pelo cinema, escrevendo (sempre em dupla com o então iniciante Jean-Claude Carrière), dirigindo e protagonizando três curtas e cinco longas-metragens. Depois disso, dedicou-se ao circo e ao teatro. Embora tenha voltado às câmeras diversas vezes, sobretudo para a TV, esse conjunto dos anos 60 formam o seu legado principal.

Étaix é basicamente um criador de gags. Essa, por sinal, foi sua colaboração com Tati em Meu Tio, que precedeu em três anos sua estreia como diretor. Seus filmes são, mais que tudo, sucessões vertiginosas de gags mecânicas e cenográficas reunidas frouxamente em narrativas sobre a busca amorosa. Em Yoyo (1965), seu longa mais famoso, há mesmo o personagem de um criador de gags – que, naturalmente, se atrapalha todo com as folhas que escreveu. Nem todas as tiradas cômicas de Étaix são eficientes, imprevisíveis ou resistiram ao tempo. Vistos os filmes numa mostra, algumas parecerão mesmo repetitivas, já que eram marcas autorais. É o caso das que se valem de objetos-fetiche como porta-retratos, gavetas, chapéus, sapatos, copos de bebida e cigarros.

As coisas insistem em desmoronar nas mãos de Étaix. Com poucas exceções, seu personagem é um fracassado ao lidar com o que quer que seja – de uma simples caneta-tinteiro a um namoro. Vítima de suas próprias trapalhadas e de equívocos ou fofocas alheias, ele parece passar incólume ao final de tudo. Não tem o sentimentalismo de Chaplin, nem o comentário social de Tati. Étaix é irônico e às vezes até ácido com os costumes burgueses, mas, como não se exclui do universo que critica, pode gerar uma impressão de conformidade com o conservadorismo.

Embora recorra pouco a falas, até por cultuar a estética do cinema mudo, os filmes utilizam largamente o humor dos ruídos de cena, geralmente amplificados e estilizados. Um dos episódios do longa Enquanto Tivermos Saúde (1966), por exemplo, explora os efeitos de uma britadeira sobre o cotidiano das casas e pessoas ao redor.

Para além das gags e dos fiapos de história, vale a pena observar as referências que Pierre Étaix faz ao cinema em seus filmes. O curta Em Plena Forma (1966) traz uma evidente inspiração em As Férias de Mr. Hulot, de Tati, ao brincar com os veranistas que frequentam um “camping de concentração” (o termo é meu), mescla de acampamento e presídio. Aqui ele reúne o maior número de personagens travestis, elemento que reaparece com frequência em sua filmografia.

Yoyo, por sua vez, se passa no mundo do circo e presta homenagem explícita a Fellini quando a trupe desiste de concorrer com Zampanò e Gelsomina (de La Strada) no horário de 8½. Também em Yoyo, ele faz uma rápida imitação de Chaplin imitando Hitler. Esse filme se presta a citações, já que lida com o próprio espetáculo e muda de formato à medida que sua trama evolui no tempo. Inicialmente, Étaix vive um bilionário na época do cinema mudo que perde a fortuna na crise de 1929 e, já com o cinema sonoro, acaba juntando-se a uma antiga namorada e ao filho dos dois num circo mambembe. O menino Yoyo cresce e se torna um grande ator e palhaço, interpretado pelo mesmo Étaix. Bem-sucedido nos tempos da TV, Yoyo se dedica a restaurar o castelo do pai. A bela moreninha Claudine Auger faz Isolina (nome felliniano), a amada de Yoyo. Uma festa maluca com participação de um elefante sugere uma possível influência em Um Convidado Bem Trapalhão, de Blake Edwards (1968).

No episódio Insônia de Enquanto Tivermos Saúde, ele cria uma curiosa versão da “adaptação literária”: enquanto o personagem lê Drácula na cama, as cenas são dramatizadas e repercutem os microfenômenos da leitura (páginas viradas, piscar de olhos, etc). Em Grande Amor (1969), faz largo uso das suposições ilustradas. Numa delas, apaixonado por uma secretária com ares de ninfeta, o patrão entediado no casamento se imagina com dez anos a menos. Qual não é sua surpresa ao constatar que a secretária também regrediu a uma menina de oito anos.

Um dos momentos mais hilariantes de Étaix está em outro episódio de Enquanto Tivermos Saúde, intitulado O Cinematógrafo, em que ele vive as agruras de um espectador para encontrar um bom lugar num cinema lotado. Quando consegue, ainda tem tempo de ver a cartela “The End”.

Outras sequências imperdíveis: as confusões automobilísticas de Feliz Aniversário, detentor do Oscar de melhor curta em 1963; as pessoas atendendo aos adesivos de “Sorria, por favor” num engarrafamento em Enquanto Tivermos Saúde; o aprendizado da paquera, o esconde-esconde em que ele tenta se livrar da namorada doidona, e a obsessão por uma cantora em O Enamorado, seu primeiro longa; o sonho que leva a cama de Étaix a sair motorizada pela estrada e cruzar com outros sonhadores em situações típicas de trânsito em Grande Amor.

Em Grande Amor ele contracena com Annie Fratellini (1932-1997), sua esposa e parceira na criação da Escola Nacional de Circo francesa. Os dois aparecem juntos em I Clowns, de Fellini (1971). Como ator, Pierre Étaix teve participações de destaque em Pickpocket (Bresson), O Ladrão Aventureiro (Malle), Max Mon Amour (Oshima), Henry e June (Phillip Kaufman), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jeunet), O Porto (Aki Kaurismäki) e dois filmes de Otar Iosseliani, entre outros.

O revival Pierre Étaix lhe valeu uma série de prêmios e comendas recentemente. Em 2011, recebeu um Oscar honorário. Enquanto isso, ele segue se apresentando no circo com seu legendário personagem Yoyo. Tudo ficou para trás, menos o palhaço.

Roteiro da mostra O CINEMA DE PIERRE ETAIX:

  • Rio de Janeiro – 12 a 18/05 – CCBB Rio
  • Brasília – 21/05 a 28/05 | Cine Brasília
  • Recife – 22/05 a 28/05 | Fundação Joaquim Nabuco
  • São Paulo – 11 a 21/06 – CCBB SP
  • Porto Alegre – 24/06 a 29/06 | Sala P.F. Gastal
  • Belo Horizonte – 28/06 a 01/07 | Cine Humberto Mauro

Um comentário sobre “A volta de Pierre Étaix

  1. Pierre Étaix merece ser visto — e compreendido — pelas gerações que apanharam as coisas “já andando” e talvez não saibam bem de onde elas vêm…
    Aqui em Pernambuco, conheço jovens cineastas que pensam que o Cinema começou com os filmes cults iranianos (e isso é só um tipo das distorções que ocorrem com o imediatismo midiático, a ignorância internética e a pressa de entender o que demanda tempo — sim — para a compreensão).
    Viva Monsieur Étaix! — e o seu revival.

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