Um francês e dois sul-americanos

YVES SAINT LAURENT cumpre o figurino das cinebiografias tradicionais: fatia a vida do biografado em momentos de sucesso e fracasso, euforia e depressão. As músicas e os cortes de cabelo e barba funcionam como marcas de cada época, pois as elipses temporais é que fazem a narrativa avançar. Entre as qualidades incontestáveis do filme de Jalil Lespert estão as atuações de Pierre Niney e Guillaume Gallienne como o casal Yves-Pierre Bergé, a reconstituição das coleções e desfiles, e a trilha sonora absorvente que vai do jazz à ópera. Entre os pontos fracos, o caráter forçosamente episódico e a ausência de referências mais sólidas à famosa coleção de arte que tanto uniu o casal. O leilão daquele acervo, logo após a morte de Yves, é rapidamente aludido no início do filme mas é o assunto principal do documentário “O Louco Amor de Yves Saint Laurent”. Sem fazer justiça a esse aspecto, essa dramatização se concentra mais nos aspectos mundanos, como as perambulações afetivas e sexuais, o envolvimento com bebidas e drogas, as alterações radicais de comportamento. Mesmo assim, é uma boa pedida para uma tarde chuvosa. 

Com “Pelo Malo” e 7 CAIXAS em cartaz, o Rio vive uma pequena festa do melhor cinema sul-americano – e agora não estamos falando de argentinos ou chilenos. Enquanto o venezuelano “Pelo Malo” lida com sonhos e preconceitos, o paraguaio “7 Caixas” trabalha o capitalismo miúdo das camadas populares. Não é à toa que o filme se passa inteiramente dentro de um grande e labiríntico mercado, semelhante a um bazar árabe ou uma feira indiana. Ali as trocas se fazem entre tudo e todos: produtos, serviços, celulares, informações, amores, sexo, liberdade. Quando agarra sua oportunidade (transportar sete misteriosas caixas de um ponto a outro do mercado e com o dinheiro ganho comprar o celular dos seus sonhos), o garoto Victor fará de tudo para não perdê-la. No seu encalço, saem policiais, comerciantes e concorrentes numa desabalada aventura por vielas, barracas e galpões. O que primeiro nos entusiasma, confrontando nossos velhos estereótipos sobre as precariedades paraguaias, é a qualidade técnica e artística do thriller. Os atores são perfeitos, o trabalho de câmera e luz é inventivo, o ritmo é irresistível. A exploração visual dos movimentos dos carrinhos de carga é um primor de criatividade. O roteiro, extremamente engenhoso, mescla inocência, comicidade direta, humor negro, suspense, expectativas bem construídas e narrativas paralelas impecáveis. A sátira à corrupção em diversos níveis é feita sem discursos, mas na pura exposição de situações corriqueiras e hilariantes. Enfim, um filmaço que coloca o Paraguai no mapa da produção contemporânea.

Para seguir na onda dos bons filmes sul-americanos, vi hoje GREGORIO, um clássico peruano do Grupo Chaski. Rodado em 1982, pertence à mesma família do brasileiro “Pixote” e do indiano “Salaam Bombay!”, que naquela década plasmaram o drama dos meninos de rua em grandes cidades do Terceiro Mundo. “Gregório” narra a transformação de um garoto humilde em pequeno delinquente. Ele emigra com a família das montanhas para Lima. O pai morre, a mãe arruma um namorado, e Gregório tenta se virar como engraxate. O choque cultural começa quando ele percebe que na capital ninguém fala o quechua, sua língua regional (no último capítulo da minissérie Darcy, aprendi que ele esteve no Peru trabalhando contra a visão preconceituosa do quechua). As ótimas cenas em que Gregorio vivencia a grande cidade e conhece as regras da vida nas ruas são feitas a meio caminho entre o documentário e a ficção. A narrativa, bastante solta e elíptica, é costurada pela narração do menino. Sua perambulação urbana vai levá-lo a conviver com meninos de rua e se tornar um deles. O filme sublinha o misto de inocência e esperteza dos garotos com cuidado para não estigmatizá-los e franqueza para não dourar a pílula. Isso era parte da militância do Grupo Chaski, fundado em 1982 para fazer no Peru um cinema social de linhagem neorrealista. Realizaram duas grandes obras de ficção, “Gregório” e “Juliana”, além de muitos docs. Estão ativos até hoje, principalmente na exibição de filmes latino-americanos pelo país com sua rede de microcines. Conheça: http://grupochaski.org/index.html  

 

 

4 comentários sobre “Um francês e dois sul-americanos

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. Carlos,

    Bom dia.
    Não é um comentário ao post “Um françês e dois sul-americanos”, mas a notícia, se me permite o amigo, do lançamento de “Aspades, Ets etc” em formato digital, pela Cesárea Editora — http://www.cesarea.com.br/ — que ontem lançou o e-book do livro que vosmicê conheceu na edição portuguesa de 1997.
    BOOK TRAILER:

    [[ PS: Como vê, também não investi contra o Allien, mais uma vez….]]

    Abraço,

    Fernando

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