Assim criamos

Começa amanhã (quarta) no CCBB-Rio a quarta edição do Festival Adaptação, evento especializado na escrita e nos processos criativos do cinema. Este ano, a linha curatorial escolhida foi “engrenagens da ficção”. Daí a programação de filmes, debates, master classes, laboratório e curso de roteiro. Veja a programação completa no site do evento.

Destaco na programação de filmes um documentário que sintetiza bem o espírito do festival: Dreamers ou Conteurs d’Images, da francesa Noelle Deschamps. Para esse seu primeiro filme, Noelle canalizou sua experiência com um projeto que criou em 1993, o eQuinoxe, um workshop que reúne roteiristas, diretores e outros profissionais envolvidos com a escrita para cinema. Dreamers coloca 11 diretores e roteiristas diante de questões sobre seu processo criativo, formação, influências, inspiração, autoralidade, etc. A sinopse é enganosa na medida em que o filme não “acompanha” esses criadores, mas os ouve em situações de entrevista formal, distanciados dos seus ambientes de trabalho.

Noelle Deschamps entrevista James Gray

O filme funciona como uma master class coletiva e sintética, entrecortada por vinhetas que citam a babel sonora da abertura da série Cinéma de Notre Temps. Entre falas inspiradas e declarações um tanto óbvias, os participantes  contam memórias, descrevem sua relação com os textos e as imagens, e respondem a perguntas como “Vocês acham que fazem sempre o mesmo filme?” ou outras menos pertinentes como “se você fosse mulher, que tipo de mulher seria?”

James Gray (Amantes) é um dos mais interessantes no que dizem. “Criar é fazer conexões”, resume, para mais adiante especificar a distinção entre emoção e sentimentalismo: “A emoção é legítima consigo mesma e, ao contrário do sentimentalismo, não se importa com a reação do público”. A francesinha Maïwenn (Polissia) manda bem quando diz que escrever é atividade intelectual, enquanto filmar é instintivo. Guillermo Arriaga (Amores Perros, Babel) considera que sempre escreve sobre caçadores. Emir Kusturica confessa que queria ser gari quando criança. O veterano John Boorman comenta que “a maior traição do cinema é que não podemos mais viver experiências novas que já não tenham sido vividas diante da tela”.

O limite desse tipo de filme é que saímos da sessão com um bocado de frases na cabeça e pouco mais. A virtude é ter esse contato relativamente íntimo com criadores que eventualmente admiramos, como Michel Gondry, Jaco van Dormael (o único a incorporar uma mínima encenação no seu depoimento), Jacques Audiard, Frank Pierson (roteirista de Um Dia de Cão, falecido em 2012), Akiva Goldsman (roteirista de Uma Mente Brilhante) e o indiano Pan Nalin (Samsara). Para quem pensa e se exercita nos meandros entre palavra e imagem, pode ser inspirador ouvi-los. Para os simples cinéfilos, pode ser uma pequena viagem afetiva.

Dreamers passa no domingo, dia 18, em sessão única às 15 horas.

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