Uma peça e quatro filmes

A FALECIDA, na montagem do nelsonrodriguiano Marco Antônio Braz, está em cartaz só até domingo no Teatro Carlos Gomes (Rio) a preço popular (10 reais, com renda revertida para a Casa dos Artistas). É um ótimo refresco para as emoções da Copa, embora o futebol esteja no centro da peça. No centro do palco, aliás, há uma trave e rede de gol, enquanto os personagens se caracterizam como torcedores, bandeirinhas e preparadores. Braz, discípulo de Antunes Filho, exercita com gosto sua verve farsesca, sublinhando em Nelson o que ele tem de melhor: os diálogos apetitosos, a crueldade dos sentimentos e as veredas da obsessão. Lucélia Santos faz uma Zulmira escancarada, que transita com segurança entre o psicótico e o sensual. Outro destaque é Walter Breda, que dá um show no papel do amante rico. O próprio Nelson Rodrigues está em cena ditando as rubricas como se fosse um radialista, e às vezes interfere diretamente na ação, comprovando a total intimidade de Braz com os textos de Nelson. O espetáculo da Cia. Círculo Teatro está em turnê pelo país e já divertiu o público paulista. Vale muito a pena dar uma chegada no Carlos Gomes.

Ao atualizar o célebre caso da “Fera da Penha” em O LOBO ATRÁS DA PORTA, Fernando Coimbra realiza uma série de façanhas. Encena uma perspicaz anatomia do adultério, faz um estudo penetrante de uma mente psicopata-sedutora e nos brinda com um dos filmes mais magnetizantes do cinema brasileiro recente. A propriedade dos diálogos e a forma redonda com que eles “cabem” na boca dos atores nos colocam dentro do coração da trama. O trabalho de câmera, de uma sensualidade bruta, e os planos-sequência arrebatadores (com destaque para “Eu quero que você me coma” e a cena no terraço da Penha) expressam bem as patologias dos personagens e mantêm um suspense dos mais eficientes. De alguma maneira, o filme me lembrou Nelson Rodrigues. A estrutura de relatos contrastantes em flashbacks (como em “Boca de Ouro”), a ambientação na Zona Norte e no subúrbio, o sabor das falas, muita coisa lembra o grande dramaturgo. Mas esse seria um Nelson Rodrigues filmado por um cineasta romeno, com aquela concentração de meios, aquelas texturas ásperas e uma obscuridade presente até nas cenas mais claras. No elenco muito afiado e afinado, Leandra Leal está mais que perfeita com sua caracterização da inocência perversa e vingativa, um misto de lobo e vítima da história de Chapeuzinho Vermelho. Beleza de filme!

Não creio que TIM LOPES – HISTÓRIAS DE ARCANJO fosse muito diferente se não tivesse o filho dele, Bruno Quintella, como um dos co-autores e personagem condutor. A recuperação da figura paterna e o luto filial, embora citados, quase não contaminam o documentário, ficando apenas na superfície de algumas cenas. No primeiro dos três atos do filme, isso ganha contornos interessantes, com o filho repetindo percursos do pai num típico documentário de investigação sobre as circunstâncias da morte de Tim. O segundo ato, sobre o trabalho do jornalista, consiste numa simples documentação do seu trabalho, com trechos de reportagens e relatos sobre seus métodos, que envolviam câmeras ocultas e imersão dissimulada nos contextos que pretendia descrever. (No curta O Inspetor, de 1988, Arthur Omar explorou inventivamente os disfarces do detetive Jamil Warwar). No terceiro ato, Bruno faz um retrato de família em busca da imagem privada do pai. Assim, desenha uma curva descendente, que vai do personagem épico ao homem comum, puramente seu pai. Talvez esteja aí, na escolha dessa estrutura anti-apoteótica, a assinatura do filho. Independente do viés familiar, o filme situa com propriedade o profissional ímpar e a figura popular que foi Tim Lopes.

JUNHO, o filme da Folha de S. Paulo sobre as manifestações do ano passado, é um belo esforço de reportagem. Enquanto o carioca “Rio em Chamas” se apresenta como um manifesto que requer adesão para apreciá-lo, a contraparte paulista tenta manter uma certa equidistância jornalística e reproduzir a multiplicidade de vozes que se levantaram a respeito dos eventos. Mesmo sendo independente,”Rio” é muito mais editorializado que o filme do jornalão. Se “Rio” é assumidamente amador, “Junho” é claramente profissional, beneficiando-se de uma edição de som e imagem espetaculares. E uso esse adjetivo de propósito, uma vez que “Junho” injeta um certo hype na linguagem, com música propulsiva, piques de ritmo e montagem construtivista, chegando perto do que poderia ser um agit-prop sem causa. É a política como espetáculo, o que também não destoa completamente do espírito ativista em voga. O ponto em que o filme da Folha nitidamente supera o manifesto carioca é o debate de ideias. Nesse aspecto, “Rio” estaciona na conversa mole entre amigos, na queixa inócua ou no ensaio desajeitado de interpretar os acontecimentos. “Junho”, por sua vez, faz alguma autocrítica da imprensa e pinça falas sugestivas de várias correntes, oferecendo assim uma dimensão mais ampla do movimento, com todas as suas contradições, voluntarismo e boas intenções iniciais. Só o fato de mostrar o conservador Luiz Felipe Pondé e o psolista Vladimir Safatle falando praticamente a mesma coisa já evidencia uma perspicácia bem interessante.  

ANTES DO INVERNO é um pequeno drama burguês fechado em si mesmo. É tão metódico e organizado quanto a casa high-design habitada pelo casal central, um neurocirurgião competente e sua esposa chique (já repararam que Kristin Scott Thomas nem envelhece nem deixa seus personagens se transformarem ao longo dos filmes?). A vida deles parece um relógio suíço até começarem a chegar misteriosos buquês de rosas à casa e ao consultório dele, e uma jovem e bela morena cruzar insistentemente o caminho do médico. A presença de Daniel Auteil traz à lembrança o enigmático “Caché”, de Haneke, mas estamos muito distantes daquele nível de complexidade. Aqui tudo se resume a lançar uma série de pistas falsas para o espectador enquanto uma trama bastante improvável se arma com vistas às sequências finais. Os personagens são rabiscados somente na superfície e o filme avança através de microcenas, à base de conta-gotas. Quando entraram os créditos finais, o que senti foi mais frustração que qualquer outra coisa.

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