O quente e o frio

Creio que estamos assistindo a uma repolitização do documentário brasileiro. Não que tantos docs recentes de feição histórica, etnográfica, comportamental e mesmo musical não tenham seu teor político. Amanhã (sexta), por sinal, o Centro Cultural Correios (Rio) abre a mostra PoliSonoridades, que vai exibir e discutir docs musicais e políticos (veja no Facebook).

Mas o fato é que as tensões políticas despertadas desde as manifestações de junho de 2013 e agravadas pela campanha eleitoral em curso têm inspirado uma leva de filmes frontalmente propositivos, dispostos a tomar o pulso ou mesmo se engajar no momento por que passa o país. Falo de docs como Rio em Chamas, Junho, 20 Centavos, Sem Partido, O Mercado de Notícias e o novo de Silvio Tendler, Privatizações – A Distopia do Capital.

Dois filmes em cartaz representam outra vertente dessa repolitização, qual seja a da crítica aos sistemas policial, penitenciário e judicial. Sem Pena, de Eugenio Puppo, premiado pelo público do último Festival de Brasília, veicula pontos de vista de detentos, ex-presidiários, delegados, advogados, autoridades de segurança e intelectuais sobre a realidade prisional e os caminhos que levam à manutenção de um sistema sabidamente ineficaz de punição e reabilitação. Embora se apresente como um debate polifônico, o filme na verdade aponta para uma só direção: a repressão é frequentemente injusta, as prisões são usinas de criminosos e reprodutoras das diferenças de classe da sociedade, o sistema judicializa a vida e institui o sentimento de vingança como base para funcionamento da lógica capitalista.

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À Queima Roupa, de Theresa Jessouroun, vencedor dos prêmios de melhor doc e melhor direção da Première Brasil no recente Festival do Rio, assume o formato do documentário de denúncia e mira especificamente a polícia do Rio de Janeiro. Na tela alternam-se sobreviventes de chacinas, parentes de vítimas, policiais e juristas para relembrar as muitas mortes de inocentes perpretadas nas comunidades pobres do Rio desde a chacina de Vigário Geral, em 1993. Entre os participantes destaca-se um ex-informante da polícia que esmiuça as práticas de achaque e corrupção dos agentes junto ao tráfico. Também aqui não há lugar para “o outro lado”. Nem para nuanças entre a situação antes e depois das UPPs. A abordagem corre o risco de generalizar o papel da banda podre da polícia carioca.

O fato é que ambos os filmes têm uma agenda predefinida e a cumprem sem simular neutralidade jornalística. Ambos são corajosos na medida em que afrontam o senso comum de vigiar e punir, embora não apresentem soluções alternativas concretas (o que, certamente, não se deve exigir de um filme). São trabalhos complementares, uma vez que Sem Pena abrange o pano de fundo sistêmico que vai permitir a impunidade no front retratado em À Queima Roupa.

Mais que discutir as posturas de Eugenio e Theresa em relação ao tema, interessa-me verificar como eles escolheram dramaturgias e estéticas diametralmente opostas para dele se acercar. À Queima Roupa é um filme “quente”. Sua intenção é mobilizar através da exibição direta dos ingredientes dramáticos da denúncia: imagens de sangue e cadáveres dilacerados, depoimentos on camera (com algumas pessoas disfarçadas por perucas, óculos escuros, acessórios de cabeça e sombras), cenas eletrizantes de tiroteios e de manifestações de moradores das comunidades, além de flashes de reconstituição de momentos culminantes dos massacres. Theresa investe no pathos de mães e parentes machucados pelas perdas. Usa fotografia contrastada e trilha sonora compassiva, quase fúnebre. Enquadra-se numa linhagem eisensteiniana, temperada pelo estilo de Errol Morris e pela tradição do documentário policial.

Sem Pena, por sua vez, adota um procedimento “frio”, mais ligado ao cinema ensaístico e experimental. É um filme praticamente sem rostos, e, à exceção de uma sequência de tribunal, os poucos rostos que aparecem não estão em situação de fala. Todos os depoimentos estão em off e produzem um diálogo indireto com as imagens de cobertura: instalações penitenciárias, veículos policiais, prédios e arquivos do setor judiciário, cenas urbanas e pinturas de um dos entrevistados, quase tudo filmado com imagens relativamente toscas, desglamourizadas. A música de John Cage ajuda a provocar distanciamento, desviando do enfoque dramático para outro mais, digamos, racional. Jean-Claude Bernardet defende esse procedimento como uma maneira de enfocar instituições e personagens coletivos em lugar de casos individuais.

Eis duas formas distintas de enfrentar questões complexas da vida nacional. Cada um desses filmes elegeu uma arma retórica para passar sua mensagem de inconformidade e indignação. Com eles, Eugenio e Theresa se colocam na linha de frente do momento político e cinematográfico brasileiro, razão bastante para não terem seus trabalhos ignorados.

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