Três filmes e uma perda

3663-Lo-Sciacallo-Nightcrawler-Jake-GyllenhaalComo nos bons roteiros americanos, O ABUTRE parte do tema central para lançar flechas em vários subtemas, terminando por fornecer uma visão sistêmica do assunto. No caso, o foco principal é o telejornalismo sensacionalista num ambiente em que a notícia e seus fabricantes viraram mercadoria. Mas o filme de Dan Gilroy fala também da concorrência num mercado de trabalho selvagem, da perversão do self made man e da intoxicação de auto-ajuda corporativa. Tudo isso é personificado por mais um exemplar do profissional psicopata, o arrivista Lou Bloom. Vivido com gélido apetite por Jake Gyllenhaal, ele circula entre outros abutres que, à beira do cinismo e do oportunismo, apenas esperam sua chance de bicar a carniça da desgraça alheia. Na fronteira entre o retrato agudo e a caricatura, o thriller diverte ao expor os limites da decência e intriga ao sugerir que nada daquilo é muito distante da realidade dos bastidores midiáticos.

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2facesAS DUAS FACES DE JANEIRO é Patricia Highsmith no tecido e Alfred Hitchcock no corte. Só peca na costura, cheia de pontos sem nó e fragilidades no arremate. A trama é em princípio atraente: um triângulo amoroso e um enredo policial evoluindo entre paisagens da Grécia, Creta e Turquia. O encontro de um pequeno e um grande escroque envolve um espelhamento da relação pai-filho e a clássica circunstância de ficarem atados um ao outro pelo envolvimento num crime. Tecnicamente, não há reparos a fazer. O que perturbou minha fruição foram as inúmeras implausibilidades no comportamento dos protagonistas e de policiais. A intenção de construir personagens complexos não justifica, por exemplo, as atitudes injustificadas da esposa, desde a atração pelo guia turístico até a súbita desestabilização emocional em meio à fuga. O elemento mais interessante é a trajetória do próprio guia, na medida em que passa com fluidez de vilão a vítima e de aproveitador a apaixonado. O título do filme remete ao mês em que se passa a história e ao deus Janus, que costuma ser representado por duas faces viradas em direções opostas. Seriam Chester e Rydal, duas faces da trapaça.

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18940_0Vão dizer que me senti devassado, que não gostei de ver um crítico de cinema retratado como alguém amargo e mal amado, que tive má vontade por deformação profissional. O fato é que achei O CRÍTICO desapontador. Numa interessante brincadeira, um teaser do filme é projetado no início da sessão alertando os espectadores sobre os trailers que virão. Isso se aplicaria igualmente ao próprio “O Crítico”: o melhor está no trailer, e fora daquilo só há ideias subaproveitadas. A apresentação do personagem bebe diretamente na fonte de Nanni Moretti, mas com bem menos savoir faire. Victor Tellez está recém-separado da mulher, entediado com sua rotina de trabalho e há muito tempo não dá cotação máxima para um filme. Pensa em francês, sonha em preto e branco e julga-se um intermediário entre o cinema e a ignorância do público, além de protetor do bom-gosto do país. Ou seja, um pulha. Em seguida a um encontro casual, ele se apaixona e, como um castigo doce-amargo, passa a viver os clichês que condenava nos filmes. Não bastassem o alvo fácil das comédias românticas – que já derrubou também José Roberto Torero em “Como Fazer um Filme de Amor” – e os desdobramentos canhestros que toma o enredo, o pior é ver os lugares-comuns do gênero satirizados com outros lugares-comuns. A consciência crítica de Victor, se gera alguns poucos insights metalinguísticos, é desconsiderada na dramaturgia e não retira o filme de seu patamar previsível e banal, com cenas arrastadas e pouca química entre os protagonistas. Que me desculpe o colega crítico-cineasta Hernán Guerschuny, mas se era para construir mais uma medíocre história de amor, melhor ficar com os originais que o crítico desconstruía em um punhado de palavras. Como essas aqui, aliás…

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Julio-Cesar-Monteiro-MartinsChocado aqui com a notícia da morte do escritor Julio Cesar Monteiro Martins, aos 59 anos. Fomos colegas no curso de Jornalismo da UFF, quando o talento e o conhecimento dele já destoavam da média dos estudantes do nosso nível. Cedo, ainda nos anos 1970, se consagrou como contista (Torpalium, Sabe Quem Dançou?, Artérias e Becos, etc). Foi um dos fundadores do Partido Verde. Acompanhamo-nos mutuamente ao longo da década de 80, época em que fui seu perito num processo movido contra Cacá Diegues a propósito do roteiro de “Um Trem para as Estrelas”. Depois ele se mudou para a Europa, fundou em Lucca um centro de estudos literários, Sagarana, e passou a escrever e publicar em italiano, além de traduzir autores brasileiros. Não sei que doença o matou. Sempre achei que ele fosse me sobreviver, por isso fico pasmo com a notícia. Mas com certeza sua obra, muito sintonizada com a realidade e a cultura brasileira, sobreviverá. Descanse em paz, Julio.

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