A fratura na imagem

Ida chama tanta atenção para seu formato que nos obriga a cogitar sobre ele. A tela quadrada e a imagem em preto e branco remetem ao cinema de outras épocas, especialmente se pensamos em clássicos sobre figuras místicas como A Paixão de Joana D’Arc, Viridiana e o também polonês Madre Joana dos Anjos. Ida se passa nos anos 1970, quando os ecos da II Guerra e da dominação soviética ainda eram bem mais presentes do que hoje. Uma jovem noviça, às vésperas de fazer seus votos, é instada a visitar uma tia que nunca conhecera. Ela se deixa fascinar pela mulher madura, sensual e experiente, que ainda por cima tem uma revelação importante para lhe fazer: a de que ela, Ida, era judia, filha de pais mortos durante a guerra. As duas partem, então, em busca de vestígios da família, e Ida terá a oportunidade de testar sua dedicação exclusiva a Deus.

Outro aspecto incontornável das imagens de Ida são os enquadramentos inusitados, quase sempre “enterrando” as personagens no fundo do quadro e deixando uma considerável “sobra” de cenário acima delas. Mais que isso, os corpos das pessoas aparecem frequentemente cortados, como se tivessem sido decepados pelos limites da tela. Uma incômoda sensação nos leva a considerar as perdas e amputações que a História impôs àquelas criaturas no que diz respeito a suas famílias, origens e identidade. O mesmo se dá com as paisagens e espaços internos. A fratura e a incompletude gritam na composição das imagens.

O diretor e corroteirista Pawel Pawlikowski ensaia uma narrativa por estereótipos – a doce e puríssima Ida versus a cínica e arrogante Wanda – apenas para miná-los pouco a pouco, à medida que elas se aproximam de uma verdade enterrada no passado. De repente, estamos diante de duas mulheres que julgávamos conhecer, mas que se revelam cheias de surpresas. No fim das contas, é mais uma vez a forma – a sobriedade do estilo, as poucas falas e a intensidade dos silêncios – que nos faz enxergar ali um filme cheio de beleza.

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