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Se demorasse um pouco mais para fechar seu filme, Stéphanie Valloatto teria um epílogo trágico para acrescentar com o atentado à redação da Charlie Hebdo. No filme, 12 cartunistas de 12 países expressam seus pontos de vista sobre o ofício, seus objetivos e seus riscos. Um ofício no qual, segundo eles, não cabem o otimismo ou a ingenuidade. Ser cartunista é ser oposição, o que, em si, já constitui um desafio e uma limitação. Todos os doze, à exceção do americano Danziger, se opõem ao governo vigente em seus países. Até o cartunista palestino condena os métodos do Hamas, enquanto o israelense deplora a direita no poder em Israel.

Quando o jornal conservador dinamarquês Jyllands-Posten publicou uma série de charges de Maomé em 2005 e seus autores foram ameaçados de morte por radicais islâmicos, o francês Plantu, cartunista do Le Monde, criou na ONU a associação Cartunistas pela Paz. Plantu já promovia uma espécie de ONU dos cartunistas numa página semanal do Le Monde, publicando trabalhos de profissionais de várias partes do mundo sobre as questões de cada lugar. Ele atua no filme como elo de ligação entre vários colegas, participando de alguns encontros interessantes.

Mas o dispositivo básico do filme é a entrevista individual, quase sempre ilustrada por charges. Presidentes e políticos são os alvos mais frequentes, e o episódio de Maomé não recebe mais que poucos minutos de atenção. O bordão mais repetido é a defesa da liberdade e da democracia, uma luta diária para esses combatentes do traço. O filme, produzido pelo famoso cineasta de origem romena Radu Milhaeanu (O Trem da Vida, O Concerto), tem uma fatura previsível, na medida em que se concentra no elogio simpático e no papel heroico (às vezes mártir) dos cartunistas. Discussões mais complexas sobre as relações entre ética, humor e preconceito ficam banidas pela simples acusação de correção política. Ou seja, um traço simplificador. ♦ ♦    

P.S. Não é fácil dar conta das legendas, da leitura das charges e de eventuais traduções dos textos das charges no breve tempo de exposição. Faz falta um botão de pausa.