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Uma das mais engenhosas, transgressoras e memoráveis encenações da história do teatro brasileiro foi a montagem de O Balcão, de Jean Genet, produzida por Ruth Escobar e dirigida pelo argentino Victor Garcia em 1970. Dada a baixa incidência de registros audiovisuais do teatro dessa época, especialmente das obras de Garcia, a filmagem que Jorge Bodanzky realizou daquela peça ganhou status de documento histórico. Recentemente, esse material foi disponibilizado no Youtube.

No livro que fizemos juntos, Jorge Bodanzky: O Homem com a Câmera, ele contou como foi essa filmagem de risco no Teatro Ruth Escobar:   

“Sem qualquer preparação, entrei com a câmera, a cara e a coragem no meio de uma encenação normal da peça, onde público e atores praticamente se misturavam no cenário, uma espécie de grande funil de metal. Os espectadores julgavam que eu fosse parte do espetáculo. Num dado momento, o cenário se abria e cada ator saía para um lado. Eu não sabia que rumo tomar. Quando tinha que recarregar o chassi, ficava à procura do meu assistente – mais uma vez o Hermano Penna – e aquilo era visto como mais uma loucura das tantas que aconteciam na peça.”

Bodanzky filmou o espetáculo de todos os ângulos possibilitados pela ousada arquitetura cênica: um vão imenso onde os atores subiam e desciam por plataformas e cabos de aço, penduravam-se no ar, escalavam os diversos andares da plateia. Antes mesmo da estreia da peça, durante a construção do cenário, ele e José Agrippino de Paula filmaram ali as cenas de Hitler do Terceiro Mundo em que aparecem torturadores com fardas militares.

No vídeo recuperado, de 26 minutos, estão apenas fragmentos de O Balcão. O som nem sempre corresponde precisamente à imagem. Ainda assim, é um registro inestimável e que faz jus à grandiosidade e ao desvario da encenação. Victor Garcia aparece no final recebendo os aplausos.

Para uma maior contextualização do espetáculo, leia abaixo um texto de Inês Cardoso, filha de Ruth Escobar, escrito a propósito de uma recente exibição do filme de Bodanzky numa galeria do Brooklyn, Nova York:

O Balcão, peça de Jean Genet, dirigida por Victor Garcia em São Paulo em 1969 (nota: a peça estreou em 29.12.69), na incomparável produção do Teatro Ruth Escobar, constitui um marco na história do teatro ocidental. O espaço teatral concebido pelo arquiteto e cenógrafo Wladimir Pereira Cardoso implicou na demolição interna de três teatros sobrepostos, construindo um fosso no qual instalou uma estrutura metálica cilíndrica de 30 m de altura, acomodando tanto a ação quanto o público.

No interior dessa estrutura, uma plataforma de acrílico sobre um elevador hidráulico se deslocava no sentido vertical. Uma cama ginecológica motorizada entrava sobre o círculo e plexiglass transparente do elevador, na primeira cena. Atores ficavam suspensos por arneses ou em plataformas, sobre o abismo. A sensação do perigo iminente era real.

Uma rampa espiralada desprendia-se do urdimento, dando passagem aos atores em tumulto. Quando eclodia a revolução, a estrutura inteira fendia-se de alto a baixo, movendo parte dos espectadores, e dando passagem aos revolucionários, que galgavam a estrutura, seminus, angelicais, até o urdimento.

Uma experiência marcante quando eu tinha seis anos. O teatro político que minha mãe, Ruth Escobar, assumiu, com a luta da classe teatral pela liberdade, se integrava ao movimento de resistência da ditadura civil-militar que tinha se instalado no Brasil em 1964. Agravada com o Ato Institucional de 1968, que tolheu de vez a liberdade de expressão no país com férrea censura, repressão e tortura, esse regime de exceção durou 20 anos, sendo somente superado pela nova Constituição de 1988.

A produção de uma peça cujo tema central trata da luta de classes e cujos protagonistas incluem o poder do exército, da justiça e da igreja, desafiados pelas classes oprimidas, não teria sido possível na situação política do Brasil ditatorial se a produção não fosse desse porte e com a profundidade ideológica e visionária de Wladimir, meu pai, que acabou atraindo um público internacional, um triunfo para o teatro brasileiro daquela época, tão perseguido e injustamente torturado.

O impacto da ousadia mecânica daquela montagem de O Balcão traduzia esteticamente o texto onírico, poético e radical de Jean Genet, que inclusive veio nos visitar, ficando hospedado em nossa casa. Era um gênio criador e um ser humano extraordinário, responsável, em grande parte, pela minha conscientização política. Tinha sido chamado por Ruth para influir na libertação da atriz Nilda Maria, cujo personagem, Chantal, asila um perseguido político, tendo ela mesma sido presa pelo regime por suspeita de atividade na resistência.

Esse trabalho consagrou ainda mais a reputação internacional de Victor Garcia, cujas produções europeias haviam inspirado Ruth Escobar a levá-lo a trabalhar no Brasil. Trabalharam juntos em grandes produções.

Nessa mesma época, 1970-1971, a companhia teatral The Living Theatre trabalhava no Brasil. Ruth foi pronta em responder ao apelo do Living quando foi preso pelo regime, acionando seus advogados, que reconheceram a relevância política da companhia e a gravidade daquele ato abusivo da ditadura. Eles foram determinantes para a liberação da companhia que denunciava, em nível internacional, aquilo que realmente acontecia no Brasil.

Quero agradecer imensamente ao meu querido amigo e grande cineasta Jonas Mekas e à Galeria Microscope que nos deu este lindo presente! Viva o cinema e o teatro juntos!

Todo este processo, registrado pelo cineasta Jorge Bodanzky, será apresentado na Microsope Gallery, em Nova York, neste próximo domingo, dia 8 de Novembro. Junto com “O Balcão”, será também exibido o documentário “Cocais, the Reinvented Town”, de Inês Cardoso.”