O filósofo e o cavalo

Quando vi O Cavalo de Turim pela primeira vez, estava presente a produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre. Ela avisou à plateia do Instituto Moreira Salles: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Ela não estava exagerando.

Vivenciar os 145 minutos de O Cavalo de Turim é algo de quase físico, que extasia e exaure. Saí da sessão achando que minha roupa estava cheirando à fumaça daquela casa perdida num ermo qualquer, onde pai e filha passam seis dias à espera de que seu cavalo doente possa retomar as atividades que sustentam a família. Tudo é repetição e dolorosa rotina naquelas manhãs e noites que testemunhamos sob a luz fraca dos candeeiros ou sob o açoite dos ventos que não cessam do lado de fora. As imagens, a música igualmente cíclica, os sons rudes penetram em nossos poros como coisa vivida.

Apesar da insistência do meu amigo e cinéfilo-mor Julio Miranda, ainda conheço pouco da obra do húngaro Béla Tarr. Mas sei que nela a ideia de maldição está muito presente (Maldição, aliás, é o título de outro filme seu que já tive a chance de ver). Em O Cavalo de Turim, a história faz referência metafórica a um fato real. Durante sua estada em Turim, Friedrich Nietzsche tentou proteger um cavalo das chicotadas de seu dono e, a partir daquele incidente, perdeu a voz e a razão pelos últimos 11 anos de sua vida. A chegada do velho com o cavalo à casa, na primeira cena, seria então subsequente àquele momento. O que passa a acontecer seria, quem sabe, o efeito de uma maldição. A vingança de Nietzsche, talvez.

O fato é que pai e filha, tal como aconteceu com o filósofo, começam a ser abandonados pela vida. Progressivamente, o cavalo se recusa a comer e a puxar a carroça, a água do poço seca, o fogo se recusa a manter-se aceso. Em dois momentos, eles são visitados por estranhos, a quem reagem com indiferença ou repulsa. Formam uma célula isolada e indivisível, como seres desde sempre expelidos (ou auto-expelidos) do mundo social.

Há muito o que observar e pensar enquanto se vê/vive o filme. Uma das coisas que me vieram à mente foi a filiação bastante clara deste filme a clássicos do cinema mudo, especialmente escandinavos: o Dreyer de Dias de Ira, o Sjöstrom de O Vento A Carroça Fantasma, e mesmo um Bergman a eles filiado como Noites de Circo. Nessa mesma linha evolutiva, vejo os filmes de Eduardo Nunes, tanto os curtas Terral e Tropel como o igualmente arrebatador Sudoeste.

2 comentários sobre “O filósofo e o cavalo

  1. Pingback: Meus filmes prediletos de 2016 | ...rastros de carmattos

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