Tempo de unza unza

Começa hoje (quarta) na Caixa Cultural-RJ a Mostra Kusturica, que abrange o cineasta sérvio como diretor, ator e tema de documentário. Veja aqui tudo sobre o evento.

Para o catálogo da mostra escrevi o seguinte texto a respeito de Memórias em Super 8doc em que Kusturica apresenta sua banda The No Smoking Orchestra, atividade que hoje o ocupa mais do que o próprio cinema.

TEMPO DE UNZA UNZA  

mEMÓRIAS

Alguns cineastas dedicados prioritariamente ao cinema de ficção se lançam no documentário somente para tratar de assuntos de sua predileção. São o que costumo chamar de documentaristas afetivos, já que são movidos mais pela admiração e a amizade do que por qualquer interesse investigativo. Assim é Nelson Pereira dos Santos com seus docs sobre músicos, pensadores e escritores brasileiros. Assim é Wim Wenders quando aborda Ozu, Nicholas Ray, Sebastião Salgado, Yohji Yamamoto, Pina Bausch ou os velhinhos do Buena Vista Social Club. Emir Kusturica também joga nesse time. Seus dois únicos documentários até agora cobrem objetos de sua paixão: o futebol, mais especificamente o kusturiciano Maradona, e a música nesse filme com a big band The No Smoking Orchestra, da qual participa.

Kusturica juntou-se ao grupo desde o início dos anos 1980, primeiro ocasionalmente, depois como guitarrista regular, quando a banda passou a compor as trilhas musicais de seus filmes. Embora no palco seja um dos mais discretos, na mídia ele acabou por roubar o protagonismo do talentosíssimo líder, compositor e vocalista Dr. Nelle Karajlić. No filme, as cenas da turnê Unza Unza mostram cartazes e outdoors que já estampavam “Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra”. Antes de tudo isso, porém, a divisão da Iugoslávia e a Guerra da Bósnia já haviam causado a dissolução do grupo original, chamado Zabranjeno Pušenje (não fumante, em bósnio). Posteriormente, uma parte dos membros retomaria o nome original em Sarajevo (Bósnia), enquanto outros refundariam a banda em Belgrado (Sérvia) com o nome de The No Smoking Orchestra.

Nada dessa história é contada no filme, que, ao contrário, passa uma ideia de continuidade entre a história familiar de cada músico, a formação da banda e o estágio em que então se encontravam. Mas não creio que isso seja uma omissão deliberada ou motivada da parte de Kusturica, até porque as marcas da guerra e os signos da decomposição iugoslava estão bem visíveis em vários trechos do filme. Ele simplesmente não pretendeu fornecer uma visão organizada, contextualizada ou distanciada da banda, como faria um documentarista “de fora”. Memórias em Super 8 é um jorro de autoexpressão, um subproduto do espírito do grupo, um filme mais “de eles” que “sobre eles”.

A referência ao Super 8 alude sobretudo a uma proposta de informalidade e domesticidade, já que a grande maioria das cenas foram rodadas em vídeo digital. Mesmo que só haja duas sequências com efeitos de aceleração do movimento, o filme inteiro parece passar pela tela vertiginosamente, sugerindo às vezes uma pegada experimental. A energia anárquica e o carisma zombeteiro do grupo são os princípios que regem o documentário.

Temos aqui um casamento perfeito entre as atitudes irreverentes e galhofeiras dos músicos e o estilo barroco e alucinado do diretor. Todos têm algo de teatral e circense em suas performances, elementos que trazem também para as cenas de bastidores e de viagens coletivas. Kusturica, filmando “de dentro”, procurou captar esse temperamento tanto quanto possível, ainda que sem ultrapassar a linha da desconstrução pura e simples. De qualquer forma, estamos bem longe de uma documentação convencional. O dispositivo da entrevista é frequentemente sabotado por gozações, interrupções e mesmo a indefinição de quem exatamente está falando em dados momentos. Os materiais de época e arquivos familiares frequentemente se confundem com os esquetes musicais-surrealistas que o Zabranjeno Pušenje realizava para a TV em fins da década de 1980 – e que Kusturica emula no desvairado videoclipe Unza Unza Time, incluído no filme junto com parte do seu making of.

A impressão de improviso e espontaneidade só cede lugar nas filmagens bem planejadas das apresentações da banda em várias cidades europeias durante a turnê de 1999/2000. O contraste do resto do filme com essas imagens “profissionais” de concertos serve para sublinhar justamente o profissionalismo do grupo, mostrando que as peripécias cênicas são fruto de muito ensaio coreográfico e da busca de um efeito poderoso sobre a plateia. Uma intensa discussão de camarim depois de um show em Berlim atesta o nível de autocrítica que eles se impunham. No palco, tocam, cantam, urram, dançam e esperneiam seu rock cigano cravejado de modulações balcânicas e acentos punk. Nos bastidores, falam, fumam muito (contrariando desbragadamente o nome da banda) e se divertem com xingamentos e violentas brincadeiras físicas. Nada mais sérvio, por sinal.

O documentário incorpora ainda algumas cenas de filmagem de Gato Preto, Gato Branco, um dos filmes de Kusturica em que a energia e a estética ciganas mais se fazem presentes. Os relatos de um dos músicos sobre as apresentações da banda em funerais e casamentos revelam bastante sobre o universo em que Kusturica se inspira para seus personagens e situações. Ou talvez seja melhor dizer “inspirava-se”. Nos últimos oito anos, sua atividade à frente das câmeras limitou-se a um episódio do longa Words with Gods e ao longa On the Milky Road, que se encontrava em pós-produção no final de 2015. A agenda de “Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra”, contudo, seguia animada ao longo deste ano e com vários shows previstos para 2016.

Talvez no futuro nós tenhamos que voltar a Memórias em Super 8 para compreender plenamente o destino do artista Emir Kusturica.

2 comentários sobre “Tempo de unza unza

  1. Oi, Por coincidência estou na Bósnia (Mostar) e procurei por filmes dele sem sucesso. Aliás filmes bosnios so em DVD pirata. E a imagem dele aqui não é das melhores, sendo acusado de nacionalista, de ter sido condescendente com o genocídio…como bósnio-sérvio a posição dele sempre foi controversa. Gosto dos filmes dele, vim pra cá a primeira vez por causa dele. Espero ver esse doc um dia! O catálogo que vc escreveu está online?

    • Oi Ivonete, o catálogo ainda não está online. Te aviso assim que souber.
      Que emoção saber que você está em Mostar. Em 2014 estive aí, contemplando de todos os ângulos essa ponte adorável e pensando na guerra.
      Sim, o Kusturica não deve ser flor que se cheire como pessoa. Seu cinema é um tanto irregular, mas adoro “Time of the Gypsies” e “Quando Papai…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s