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O tema do Oscar este ano parece ser o da sobrevivência em condições extremas após a morte de um parente próximo. Assim são “O Regresso”, “Filho de Saul” e também O LOBO DO DESERTO, filme que representa a Jordânia na corrida pela estatueta de melhor filme em língua estrangeira. O menino Theeb (“Lobo”), vivido de maneira milagrosamente espontânea por Jacir Eid Al-Hwietat, acompanha seu irmão num trabalho de guia pelo deserto e acaba escapando da morte certa ao estabelecer uma relação de dependência mútua com um inimigo. Honra familiar, interesse, compaixão e aprendizado da lei da selva jogam uma partida arriscada na cabeça de Theeb. Enquanto isso, vamos seguindo a aventura através do seu olhar de menino curioso e driblando o enxame de moscas que parecem antecipar a morte no deserto.

O diretor Naji Abu Nowar, inglês de ascendência jordaniana, trabalhou com equipe técnica basicamente europeia e atores amadores árabes. A combinação resulta sem fissuras. O uso brilhante das locações, um tempo de montagem altamente sugestivo e uma trilha sonora imponente convocam à imersão, pontuada por algumas cenas das mais angustiantes. O calcanhar de Aquiles do filme, a meu ver, é o pouco caso dado ao contexto histórico e político. Os estertores do Império Otomano durante a I Guerra Mundial, cenário também de “Lawrence da Arábia”, fica restrito a menções esparsas à substituição da peregrinação a pé para Meca pelos novos trens, o que levou à ruína dos guias beduínos. Resta um tanto enigmática a missão do oficial britânico que precisa ser guiado por uma trilha de peregrinos, então palmilhada de ladrões. Um pouco mais de informação sobre essa conjuntura ajudaria muito a enriquecer o drama central de Theeb, sem limitá-lo, como está, a um modesto conto de amadurecimento pessoal. Ainda assim, é uma enorme curiosidade, quase toda sustentada na expressividade singular do pequeno ator.



A safra de indicados ao Oscar de filme em língua estrangeira deste ano me parece uma das mais fracas dos últimos tempos. Ainda não vi “A War”, o concorrente dinamarquês, mas a minha maior decepção até agora foi com O ABRAÇO DA SERPENTE. A grande aposta do atualmente celebradíssimo cinema colombiano tem sido cortejar a correção política e afagar a má consciência do status quo cinematográfico do Primeiro Mundo. O filme de Ciro Guerra sobre o encontro de índios amazônicos e exploradores estrangeiros tem em comum com “A Terra e a Sombra” o visual deslumbrante e o ritmo compassivo. Mas em lugar da comiseração com os camponeses pobres, oferece a idealização dos índios, mesmo quando um deles recusa a idealização ao confiscar a bússola de um branco.

Duas narrativas fluem em paralelo, numa época em que o avanço da exploração da borracha na Amazônia colombiana contribuía para dizimar física e espiritualmente as tribos indígenas. No início do século XX, o jovem e solitário Karamakate aceita, meio a contragosto, ajudar o alemão Theo Von Martius (uma estranha fusão dos personagens reais Carl Friedrich Philipp von Martius e Theodor Koch-Grünberg) a encontrar a planta yakruna, que pode salvar-lhe a vida. Nos anos 1940, o mesmo Karamakate, acometido por uma perda de memória bastante simbólica, viaja pela selva com um jovem etnobotânico americano em busca da mesma planta, mas com outros objetivos. No caminho de ambos está uma Missão cristã, primeiro apresentada como um centro de catequese de crianças indígenas dirigida por um padre insano; depois, pior ainda, como domínio de um “messias” escalafobético que se expressa em portunhol. Ao chegarmos nesse ponto, o acúmulo de cenas canhestras já deixa dúvidas sobre as intenções de Ciro Guerra entre a mistificação etnograficamente correta e a simples concessão ao exotismo.

É inegável que o filme logra uma feliz sugestão visual e sonora da floresta e de uma iconografia indígena posada em belíssimo preto e branco, embora nunca chegue ao entroncamento de mistério herzoguiano aparentemente pretendido. Mas a dramaturgia se desfaz em alongamentos desnecessários, entonações solenes e diálogos ilustrativos sobre o conflito de interesses e visões de mundo entre povos originários e cientistas bem ou mal intencionados, destacando-se um discurso retroativo de sustentabilidade que, em si mesmo, não se sustenta. São muitas as sequências mal construídas, como o suposto ataque dos “colombianos” a um acampamento, e muitas também as soluções estapafúrdias. Por exemplo, de onde o jovem Karamakate tirou a roupa de gala com que chega a seu destino?. As atuações são bastante canastronas, especialmente dos exploradores brancos e do tal “messias” com jeito de ator de novela da Globo deslocado para o Zorra Total. Enfim, não pude compartilhar da quase unanimidade festejante em torno de O ABRAÇO DA SERPENTE.