Cabe a tortura na arte?

Numa mostra paralela de Tiradentes, no mês passado, assisti ao documentário A NOITE ESCURA DA ALMA, de Henrique Dantas. É um dos mais fortes já feitos sobre a resistência à ditadura. No caso, a resistência na Bahia, onde pouco se fala do assunto. Henrique (“Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano” e “Sinais de Cinza – A Peleja de Olney São Paulo contra o Dragão da Maldade”) parte de dois desmentidos. O primeiro: “como assim eu não vivi a ditadura militar?” Se ele cresceu já em clima de abertura, isso não o isenta de experimentar as ressonâncias do autoritarismo, nem lhe tira o direito de fazer um filme a respeito. O segundo: “quem disse que não houve tortura na Bahia?”

Ex-presos políticos relatam em detalhes lancinantes histórias de sobrevivência, sofrimento e morte nas prisões baianas, especialmente no Forte do Barbalho, onde foram colhidos os depoimentos. A cineasta Lúcia Murat e o Ministro da Cultura Juca Ferreira são alguns deles. “Nosso 68 foi em 67”, diz alguém, referindo-se ao levante dos estudantes de Salvador contra o fim do ensino público.

Numa retórica muito comum em filmes contemporâneos, a violência policial de hoje é apresentada como reencenação da ditadura, sem que se considerem as profundas diferenças. Em consequência, a relativa apatia política atual dos baianos é citada como uma continuidade da ditadura. Essa é uma questão complicada, que não se resolve em fragmentos de entrevista nem num pequeno comentário como este. Mas é importante dizer que isso não reduz o impacto do filme, com sua estética noturna, sua base musical em baixa frequência, a edição cuidadosa das falas e, sobretudo, a emoção daqueles homens e mulheres na dura contemplação do que viveram e testemunharam.

Mas aqui eu faço uma ponderação que teria feito publicamente caso tivesse participado do debate do filme em Tiradentes. Os depoimentos são intercalados com performances alusivas às diversas formas de tortura citadas. O expediente é arriscado, como sempre. Quando o espectador é confrontado com imagens de corpos ensanguentados enrolados em plástico ou closes de baratas caminhando sobre a pele, é como se o filme estivesse repassando ao público o padecimento do personagem. Até que ponto a tortura é coisa para se transmitir por sugestões sensoriais? De outra parte, cenas fotografadas com requinte, como corpos surrados por jatos de água na contraluz, acabam por criar imagens de uma beleza nefasta, indesejável, mas que deixam o público dividido entre o prazer de vê-las como imagens e o horror de entender o seu sentido. Afinal, por que e como reencenar artisticamente a tortura? São perguntas que eu faria a Henrique acerca de seu doc, de resto fundamental para o mapeamento dos anos de chumbo.

Resposta de Henrique Dantas:

Carlos, meu caro conterrâneo, fico contente com seu texto provocativo, o filme foi realizado com esse intuito mesmo, o de provocar. Ele nasce da premissa de que não existe nenhuma imagem ou documento de arquivo que ateste a presença da ditadura militar na Bahia. Todas as imagens foram queimadas nos diversos e sucessivos incêndios “acidentais” que ocorreram sob a égide de ACM. Portanto, desde pequeno ouço pessoas idolatrando uma pessoa que foi responsável direta e indiretamente por muita coisa ruim e silenciada no chicote e no tiro. Em alguns ambientes, você falar de ACM pode ser arriscado para sua vida, isso ainda hoje. Outro fator que me levou a buscar essa contundência foi ver nas ruas, inclusive aqui na Bahia naquelas passeatas tramontinas, pessoas pedindo a volta da ditadura militar. E fazer um filme sobre a ditadura militar na “terra da alegria”, me levou a buscar uma maneira desse debate não ser mais uma vez varrido para baixo do tapete da memória. Veja que nas performances, o que busco é o torturado, nunca temos um torturador, o que leva a câmera a ser esse sujeito oculto, que durante a projeção se torna um espectador. Estamos estudando a possibilidade de transformar o filme num evento multimídia para a rua e para o palco, porque aqui na “Terra da Alegria” não é permitido falar de tristeza, não é permitido falar de repressão e ainda hoje, com um governo do PT, jovens negros e índios “somem” ou aparecem como bandidos com a famosa herança dos “autos de resistência”, ou seja, a ditadura ainda existe forte, o que acontece é que os torturados e mortos não são mais universitários da classe média e sim os invisibilizados por essas heranças racistas que fazem o policial negro matar seu parente distante. Abração e vamos marcar de tomar um café para falarmos mais disso tudo, como bom canceriano, nunca sei onde estou indo, mas desconfio que tem um caminho. Inté.



ANISTIA, em cartaz nos Cines Joia, é uma rara produção da Albânia a chegar ao nosso circuito. O drama prisional passado do lado de fora tem pontos em comum com dois filmes de Joana Nin, “Visita Íntima” e “Cativas – Presas pelo Coração”. Elsa e Shpetim fazem visitas mensais a seus respectivos cônjuges, presos numa mesma penitenciária. A aproximação entre eles vai dar margem a um romance paralelo, algo como um “Amor à Flor da Pele” destituído de todo glamour. A Albânia proletária de 2011 era uma terra de gente desempregada, casas depauperadas, alcoólatras e suicidas. A relação entre Elsa e Shpetim floresce timidamente no vácuo de suas relações conjugais falidas – o que é realçado, de maneira um tanto forçada, pela supressão dos rostos e das vozes dos cônjuges. Há um momento especialmente curioso, quando uma anistia liberta os presos e conflagra as emoções dos novos amantes.

O diretor Bujar Alimani optou por uma grande economia de diálogos, mas isso reduz bastante a sintonia do espectador com os personagens. O drama, então, se desenvolve um tanto frio e racional. A solidão de Elsa e Shpetim é enfatizada pelo silêncio e as elipses, numa linguagem tão pálida quanto a cópia que vi no Joia Copacabana. Antes que o filme acabe, novamente sem palavras, o peso da sociedade arcaica, simbolizado pela gaita de fole de um personagem, vai desabar sobre esse amor maldito.

Apesar do tratamento incipiente do assunto central, ANISTIA vale como insight de uma Albânia que ainda luta para se inserir no mundo contemporâneo.

Um comentário sobre “Cabe a tortura na arte?

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