Quatro brasileiros em cartaz

Os longas “de terror” de Juliana Rojas e Marco Dutra (“Trabalhar Cansa” e “Quando Eu Era Vivo”) não me satisfizeram por conta de uma contradição entre o tema fantástico, supostamente inquietante, e a encenação distanciada e monocórdica. A linguagem, a meu ver, ficava sempre aquém das intenções. Para minha surpresa, essas limitações se tornaram virtudes em SINFONIA DA NECRÓPOLE. O antinaturalismo encontra um material adequado para funcionar não mais como travamento, mas como gerador de ironia e humor.

Já desde o título, o filme de Juliana se propõe como paródia (das Sinfonias da Metrópole). Se a história começa num clima de filme dos Trapalhões, logo o irrompimento do primeiro samba entre os coveiros vai abrir o cortejo de uma sátira ao universo funerário, empreendimento tanto ingênuo quanto engenhoso. Um musical passado entre túmulos e caixões, uma espécie de Jacques Demy dos umbrais. E é assim que a comédia vai se firmando cena após cena, entre o tosco e o absurdo, entre a canastrice e a ideia brilhante. No centro de tudo, o quase-romance entre um aprendiz de coveiro que não consegue “vestir a camisa” do seu ofício e uma aplicada especialista em verticalização de cemitérios. No pano de fundo, uma ousada e improvável combinação de três gêneros – o musical, a comédia e o terror.

A qualidade das canções de Juliana e Marco e a sagacidade cômica de algumas falas ou versos (“esse trabalho mexe com a gente”, “isso não é da nossa ossada”, “a pessoa é para o que morre”…) são trunfos de um filme que não para de crescer em hilaridade enquanto também adensa o caráter dos personagens.



Basta ver o finíssimo catálogo da distribuidora de DVDs Lume para avaliar o gosto do seu proprietário, Frederico Machado. A mesma preferência por filmes autorais, de enunciados sofisticados e às vezes difíceis, se reflete no cinema que ele faz, no peito e na raça, em seu casulo no Maranhão. “O Exercício do Caos”, seu primeiro longa, revelou um diretor ousado e muito confiante no poder das imagens que constrói. O SIGNO DAS TETAS confirma esse perfil e o apego de Frederico ao tema dos subterrâneos familiares. Em lugar da história de sexo, morte e poder entre um pai, suas três filhas e um capataz, temos agora a peregrinação de um filho em busca de substitutos para os seios e o leite materno, lembrança que o move e obceca.

Mais uma vez Frederico se apoia numa atuação masculina forte – o ator e dramaturgo Lauande Aires, também autor dos poucos textos ditos no filme. Através de estradas, festas populares, boates interioranas, puteiros e igrejas, sempre carregando uma misteriosa pasta de couro, esse homem se deixa envolver pelos ambientes ao mesmo tempo em que prossegue em sua estranha busca. O poeta Nauro Machado, pai de Frederico e morto em novembro último, tem rápida aparição como o pai do viajante, enfatizando o subtexto bíblico que liga o percurso do filho ao episódio do Quo Vadis.

São muitas as referências presentes no filme, da religião à medicina, no rastro da obra poética de Nauro Machado, que inspira e dá título aos filmes do filho. Frederico cria cenas magnetizantes que nos convidam a penetrar em sua introspecção, embora nem sempre seja fácil. Como na obra de Carlos Reygadas ou Lisandro Alonso, aqui também os sentidos gostam de se esconder no silêncio e no enigma. O extremamente físico tangencia o psicanalítico e o espiritual. O cinema se oferece um tanto como transparência, um tanto como esfinge.



De repente, as gavetas de longas brasileiros se abriram nos pequenos distribuidores e os títulos estão chegando aos cinemas sem tempo sequer para serem minimamente assimilados pelo mercado. A BRUTA FLOR DO QUERER é um deles. Realizado em 2013 com toda cara de filme de estudante paulista, sofre da tendência umbiguista de um certo cinema jovem brasileiro dos últimos dez anos. Os diretores Andradina Azevedo e Dida Andrade interpretam dois amigos com muita conversa fiada para trocar. Diego (Dida) é recém-formado em Cinema pela FAAP e faz trampo filmando casamentos e eventos escolares contra a vontade. Seus anseios profissionais e amorosos são projetados num roteiro que escreve, baseado na sua paixão pela atendente de um sebo. O filme é a crônica de uma frustração e uma indignação em vários níveis, regada a baseados, cocaína, uma pitada de sexo explícito e muita música impressionista francesa. “O que a gente faz não é interessante”, conclui o nosso anti-herói perto do final.

Não é um filme desinteressante de todo. Se faz concessões à trip do ator-diretor Dida e se deixa levar pelo diletantismo autorreferente, também é inegável que existe ali uma energia, ainda que desordenada. E uma confusão de referências (intencionais ou não) que, com boa vontade, pode-se reconhecer: a Nouvelle Vague, Cassavetes, cinema experimental, “Touro Indomável”, os Irmãos Pretti… Enfim, é filme de gente que saiu na chuva para se molhar e não fica feliz somente por empunhar uma câmera. Filmar casamento é o cacete!



Coisa rara em salas comerciais, o anglo-brasileiro ONDE O MAR DESCANSA é um longa-metragem de dança e poesia. Ou quase isso. Depois de trabalharem juntos em “As Cinzas de Deus”, o diretor suíço André Semenza, sua mulher, a coreógrafa brasileira Fernanda Lippi, e o diretor de fotografia Marcus Waterloo voltaram a se reunir para conceber um filme, agora sobre o luto. No século XIX, uma mulher perde sua amada e procura lidar com os ecos que ficaram. Não há propriamente um plot, mas um estado de alma se contorcendo em paisagens suecas, seja na neve ou na nave protetora da casa, em bosques e pântanos gelados. Enquanto Fernanda e Lívia Rangel executam uma coreografia marcada por sucessivas quedas e reerguimentos, o áudio é ocupado por fragmentos de poemas lésbicos dos séculos XVII e XIX sobre entrega e transfusão amorosa, além de música de Chopin e do inglês The Hafler Trio.

Eis um filme que requer o abandono de toda exigência que não seja deixar-se levar por seu ritmo lento, as imagens evocativas, a dicção sorumbática e a estrutura em vinhetas que se apagam pouco depois de surgirem na tela. A dança mesmo explode visceral somente no terço final. Até então fica no esboço um tanto rarefeito, numa atmosfera que talvez aspire a “Gritos e Sussurros”, mas não consegue articular seu discurso com potência sequer razoável.

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