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Garoto aos 81 anos, Vladimir Carvalho dá uma prova de jovialidade e ao mesmo tempo de maturidade em Cícero Dias, o Compadre de Picasso. Das quatro cinebiografias de longa-metragem que ele já fez, esta é sem dúvida a mais rica em pesquisa, a melhor em construção narrativa e a mais equilibrada na relação carismática entre diretor e personagem.

A bolandeira não para de girar. Depois de José Américo de Almeida (O Homem de Areia) e O Engenho de Zé Lins, este é mais um menino de engenho tornado grande homem a quem Vladimir dedica sua pequena usina pessoal de fazer filmes. Sem recursos de editais nem patrocínios, ele tem se cercado de jovens e veteranos colaboradores para viabilizar seus filmes. A qualidade do material reunido sobre Cícero Dias e do tratamento cinematográfico aplicado representa uma façanha dentro desse modesto modelo de produção.

Não estamos diante de uma biografia convencional, uma vez que Vladimir se pauta não pelo óbvio, mas pelas histórias e detalhes que trazem novos olhares sobre Cícero e sua obra. Esse deslocamento para as bordas do currículo é exemplificado logo no início, quando a primeira pessoa a falar de Cícero é um engenheiro aposentado parisiense que tem a esposa enterrada ao lado do pintor no Cemitério do Montparnasse e costuma ler a frase do seu túmulo: “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”.

A partir desse início, com uma belíssima fusão entre a lápide e um canavial pernambucano, o filme passa a lançar “pontes” entre Paris, Recife, Rio e Lisboa, as cidades mais importantes da vida de Cícero. Outro exemplo de solução engenhosa (sem trocadilho) é a descrição do mítico engenho Jundiá de sua infância, que é feita através de uma espécie de cenário-substituto, o luxuoso apartamento da contemporânea Tania Carneiro Leão, antes de reaparecer, no seu estado atual, no epílogo comovente.

Aspectos essenciais da obra do artista, como a discussão das influências de Chagall e Picasso, a participação na virada revolucionária das artes plásticas brasileiras em torno de 1930, a aproximação ao abstracionismo e as relações com a literatura, especialmente a poesia de Bandeira, tudo isso entra no filme sem constituir parênteses de análise, mas como parte de um fluxo que inclui as histórias de sexo, viagens, irreverências e vida familiar. Um pormenor revelador como o fato de Picasso ter o seu telefone parisiense no nome de Cícero para despistar os inconvenientes é mais uma demonstração do que Vladimir valoriza em sua busca. Depoimentos muito vivos de Francisco Brennand, Ariano Suassuna, críticos e estudiosos da vida e obra de Cícero, além da viúva Raymonde e da filha Sylvia (afilhada de Picasso), levam o perfil adiante com leveza, sem aquela impressão de que carregam um andor, tão comum em documentários do gênero.

Vladimir costura esses materiais num roteiro de fluência e inteligência admiráveis, sem derramamentos, e com um não menos admirável uso da trilha sonora. Falas e imagens de contraponto se sucedem para além da simples ilustração, mas num exercício permanente de representação plástica das ideias em curso. Cícero Dias, o Compadre de Picasso são 76 minutos de pura ventura cinematográfica.