Marina, força e fragilidade

Marina Abramović tem sorte ou supervisiona muito bem os documentários sobre ela. Dos que eu já conhecia, Balkan Baroque, de Pierre Colibeuf, é uma interessantíssima colagem de performances e depoimentos de Marina; e Marina Abramović – A Artista Está Presente, de Matthew Akers, é uma obra-prima do filme sobre arte. Chega-nos agora ESPAÇO ALÉM: MARINA ABRAMOVIĆ E O BRASIL, dirigido pelo curitibano Marco del Fiol, mais um trabalho de qualidade excepcional. O filme nos faz acompanhar a viagem de Marina por diversas regiões do país em busca de cura para sua “dor emocional” e inspiração para novos trabalhos.

A relação da artista com o Brasil vem dos anos 1980. Mas é nesse filme que melhor assimilamos o que ela procura na natureza e na espiritualidade brasileiras. Marina quer compreender não somente com o cérebro, mas com o corpo inteiro. Para isso testemunha e se submete a vários rituais em Goiás, Minas, Bahia e Paraná. Com acesso irrestrito a todos esses momentos, o documentário nos possibilita uma aproximação radical também a práticas que a maioria de nós só conhece de ouvir falar – as cirurgias cruas e indolores de João de Deus em Abadiânia, por exemplo, ou o flagrante de Marina em plena viagem visceral de ayahuasca.

Com imagens belíssimas e muito bem filmadas, mesmo em momentos de improvisação, além do áudio impecável enriquecido pelo desenho sonoro de O Grivo, Marco del Fiol capta momentos preciosos da intimidade de Marina. O depoimento a respeito da perda de um grande amor e a necessidade de superá-la revela uma instância de fragilidade insuspeitada naquela mulher forte e aparentemente inabalável. Pouco depois já a vemos, divertida, a exemplificar a parte do “Método Abramović” relacionada com a deglutição de alho e cebola crus. Se a jornada tem aspecto um tanto turístico, o eixo de interesse de Marina a transforma numa viagem de iniciação e insights inteligentes sobre um Brasil místico variado e fascinante.

Segundo Marina, foi uma xamã brasileira que definiu sua missão no mundo: “ensinar os homens a transcender a dor”. Ela leva isso a sério pelo caminho limítrofe entre a arte e a experiência vital. ESPAÇO ALÉM é um filme muito bem-sucedido por saber trilhar essa fronteira.

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