Meninos do Brasil

Antes mesmo de ser lançado, Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil já extrapolou a esfera do cinema para se transformar numa polêmica historiográfica. O documentário de Belisario Franca baseia-se na tese de doutorado “Educação, autoritarismo e eugenia: exploração do trabalho e violência à infância desamparada no Brasil (1930-1945)”, do historiador Sidney Aguilar Filho, defendida e aprovada em 2011 na Unicamp. Sidney é o principal narrador do filme e, nele, reafirma a argumentação de que pelo menos 50 crianças (a maioria negras) foram levadas de um orfanato no Rio para fazer trabalho escravo numa fazenda paulista de propriedade da nobiliárquica família Rocha Miranda.

Por sua vez, os herdeiros Rocha Miranda, que não aceitaram falar no filme, vêm há três anos defendendo a reputação da família através de um blog e de um vídeo onde Maurício Rocha Miranda recolhe depoimentos contrários à tese do historiador. Há inclusive uma ameaça de processo contra a produtora Giros.

No entanto, os relatos contidos no filme e a boa contextualização histórica deixam poucas dúvidas de que a transferência das crianças, se não atendia diretamente a um projeto de limpeza étnica, pelo menos valia-se de uma conjuntura favorável para recrutar mão de obra não remunerada. Um roteiro primoroso engaja as histórias de três daqueles meninos, sendo dois deles sobreviventes até a época da filmagem. Um deles, o “menino 23” (conforme a numeração que lhes era atribuída na fazenda), lá viveu até os 93 anos e guardou um sentimento de revolta pelas condições em que afirma ter vivido. Outro logrou fugir da fazenda e teve uma vida de muitas reviravoltas. O terceiro, conhecido como “o Dois”, viveu como servidor doméstico da casa grande e alimentou a ilusão de pertencer à classe dos patrões.

A ligação dos Rocha Miranda com o nazismo e o Integralismo, detonador inicial do interesse da pesquisa, quando nada sintoniza as intenções da família com a ideologia dominante nas elites brasileiras dos anos 1930-40: racismo, eugenia, segregação e instrumentalização dos negros no trabalho escravo dissimulado como caridade. Menino 23 chega em boa hora para discutir questões ainda presentes na sociedade atual. E chega com a qualidade dos melhores documentários mundiais.

Pode-se argumentar que as ilustrações dramatizadas em preto-e-branco e câmera lenta – lembrando o estilo de Errol Morris – soam às vezes literais demais ou mesmo redundantes, mas é inegável o poder de sugestão que têm para manter o espectador ligado nos subtextos do que ouve. A montagem dos depoimentos evita digressões longas e cria uma dinâmica de afirmações fortes e pontuais ao longo de todo o filme. Os materiais de arquivo sobre práticas de eugenia no Brasil são assustadores. Com esse trabalho de intensa dramaticidade e execução impecável, Belisario Franca transcende sua habitual – e competente – produção para TV e alcança um grau superior no documentário histórico.

3 comentários sobre “Meninos do Brasil

  1. Pingback: Meus filmes prediletos de 2016 | ...rastros de carmattos

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