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Pílulas críticas sobre LOUCAS DE ALEGRIA e A COMUNIDADE

Imagine se Thelma e Louise fossem foragidas de uma clínica psiquiátrica na trilha de “Um Estranho no Ninho”. O road movie italiano LOUCAS DE ALEGRIA percorre estradas semelhantes, embora seus dramas sejam bem diferentes. Beatrice e Donatella são mulheres muito divergentes em matéria de temperamento e transtorno. Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi) é uma perua mitômana e bipolar cuja família a mantém internada para não dilapidar o que ainda resta da fortuna do clã. A mais jovem Donatella (Micaella Ramazzotti, esposa do diretor Paolo Virzì) passa por sucessivas internações depois de tentativas de suicídio e um incidente quase trágico com o filho bebê. Na clínica, um vínculo maternal se estabelece entre as duas, estendendo-se depois numa louca aventura pelo interior da Toscana, onde cada uma tentará ajustar contas com seu passivo sentimental.

Difícil imaginar que essa sinopse se preste a uma comédia, mas é isso mesmo o que acontece. A estupenda Valeria Bruni Tedeschi dispara uma metralhadora de hilaridade, enquanto Micaella assume o lado mais frontalmente dramático da história. A combinação é muito bem resolvida, sobretudo quando as coisas dependem somente das duas, sem a participação dos internos da clínica, bastante caricatos. O desfecho carrega demais nas tintas do melodrama, mas até ali as personagens já conquistaram a simpatia do espectador pelo seu teor frágil e patético. Diretor do superestimado “A Primeira Coisa Bela” e do excelente “Capital Humano”, Paolo Virzì comprova que sabe como encontrar o equilíbrio entre os extremos da dramaturgia italiana. E as duas atrizes são amplamente responsáveis por isso.



Em A COMUNIDADE, assistimos a uma experiência de choque entre racionalidade e sentimentos, entre postura intelectual e pulsão emocional. Na Copenhague dos anos 1970, um casal burguês herda um casarão e, para poder mantê-lo, chama amigos para viverem em comunidade. Os ideais de compartilhamento de intimidades e gestão coletiva, porém, não resistirão ao aparecimento de uma intrusa, que vai testar os limites do arranjo comunitário. Além da leitura microcósmica, o filme permite também uma interpretação macro, ao falar de uma sociedade nórdica que tenta a todo custo domar o sentimental em nome de uma civilidade e uma suposta conciliação de interesses.

Trata-se de Amor e Arquitetura, em última análise. O herdeiro da casa e pivô da história é professor de uma disciplina chamada Arquitetura Racional. Também supostamente ponderada, sua mulher (Trine Dyrholm, melhor atriz em Berlim) acredita que suportará conviver sob o mesmo teto com alguém que lhe tira o chão de sob os pés. A casa, com seus muitos quartos e a sala de jantar comum, é o campo de prova das individualidades e das ilusões de convivência. Até que ponto a disciplina escandinava saberá conviver com o fairplay hippie, eis a questão.

Thomas Vinterberg volta a trabalhar com as saias-justas em volta da mesa, como na obra-prima “Festa de Família”. O nível de complexidade é menor e o de esquematismo, bem maior. Os personagens coadjuvantes não são muito mais que caricaturas. Ainda assim, temos um ótimo conjunto de atores num jogo de cena magnetizante, dinamizado pela câmera solta e a edição desconcertante que vêm do Dogma 95. Vinterberg inspirou-se em sua própria vivência numa comunidade quando adolescente e amadureceu o texto no teatro antes de levá-lo às telas. Não é um filme inesquecível, mas compensa, sobretudo, como perfil de uma esposa que tenta desempenhar na vida um papel muito diferente daquilo que é.