Tags

Cinebiografias brasileiras de astros e estrelas costumam sofrer de um vício enciclopédico: avançam por verbetes. Pontuam os principais acontecimentos da vida da personagem, mas raramente criam maneiras de penetrarmos na sua subjetividade. Parecem encenações de uma pesquisa, e não de uma vida. ELIS não foge muito a esse padrão. A cantora gaúcha chega ao Rio com o pai, se intromete no Beco das Garrafas, conhece Mièle e Bôscoli, esnoba a Bossa Nova e inicia a série de adaptações estilísticas que fariam sua história. Assim a vemos atravessar as fases “Hélice Regina”, “MPB”, “Falso Brilhante” – sempre ligadas a algum mentor que a fazia mudar de rumo. A personalidade forte e o emocional frágil se fazem perceber na alternância de cenas conjugais, profissionais e políticas. Quase tudo no roteiro soa bastante funcional, pois descrever é mais importante do que aprofundar.

Tudo isso para dizer que, não obstante, ELIS é um ótimo filme. O diretor Hugo Prata, estreando fora da TV, consegue extrair o melhor possível desse formato relativamente limitado. A começar pelo poder de síntese, que é fundamental. Basta, por exemplo, uma sequência de interrogatório policial-militar para condensar todas as acusações que pesavam contra Elis e o clima de censura e intimidação vivido pelos artistas não conformistas durante a ditadura. Por sua vez, a cena decisiva da separação de Bôscoli, ao som de “Atrás da Porta”, é momento extremamente feliz de convergência de drama e música para situar com precisão uma passagem biográfica.

ELIS tem diálogos redondos, impecáveis, ditos por um elenco em ponto de bala. É claro que o maior destaque vai para Andréia Horta, que coloca Elis viva em nossa frente, tanto no gestual quanto no tom de voz e no sorriso cheio de gengivas e nariz franzido. É uma recriação quase sobrenatural. Em torno dela, tudo flui deliciosamente: a direção de arte sugestiva de Frederico Pinto, a fotografia cheia de sutilezas atmosféricas de Adrian Teijido, a montagem de Tiago Feliciano em perfeita sintonia com a estupenda direção musical.

Ou seja, embora se dobre às convenções do gênero, ELIS as transcende pelo excelente uso que faz delas. A cantora não sai diminuída nem monumentalizada, mas como alguém que agarrou a breve vida com unhas e dentes. Fica apenas uma pergunta: cadê a cocaína?



Ordinária, egoísta, cruel, cadela, puta, flor murcha – são alguns delicados qualificativos com que a personagem de Isabelle Huppert é brindada em ELLE. Tipo totalmente fora da curva, Michèle Leblanc não preenche os requisitos da mulher comum, nem tampouco da feminista. Já na primeira cena do filme, depois de ser brutalmente espancada e estuprada, ela se levanta, toma um banho e, impassível, pega o telefone para pedir uma comida chinesa. Michèle não vai deixar que um simples estupro abale sua rotina de mulher de negócios em pleno controle de sua vida. Mas os eventos subsequentes mostrarão como ela resolve essas coisas, em parte cedendo às fantasias mais mórbidas, em parte manipulando as pessoas mais próximas como figuras de um game.

Baseando-se no romance “Oh…”, de Philippe Djian, Paul Verhoeven fez um dos thrillers psicológicos mais ousados e brilhantes que vi ultimamente. A trama distribui diferentes níveis de psicopatia entre os personagens, fazendo com que cada um deles tenha sua cota de interesse ativa durante toda a projeção. Ainda assim, é IsabELLE quem brilha em cada pixel no papel dessa mulher fria e assertiva, que se reveza como vítima, detetive e algoz. Só mesmo uma atriz extraordinária como ela para transcender sua figura frágil e se impor como um portento de afirmação e sensualidade.

A questão do estupro consentido é motivo de discussão, especialmente quando se instala como fantasia erótica em mentes perturbadas por motivos diversos. ELLE, porém, ultrapassa esse item e se abre para diversas indagações sobre a fraqueza das pessoas, a repercussão de traumas do passado, as ligações perigosas numa elite permissiva e até a caridade cristã. O próprio filme é pervertido na forma como apresenta a situação central, reencenando o ataque violento a Michèle e suprimindo as informações subjetivas que nos ajudariam a “normalizar” as atitudes dela. Ficamos apenas com o instinto básico, para citar outro filme de sucesso de Verhoeven.

Cinematograficamente, ELLE é um bombom tão requintado quanto envenenado. Verhoeven desenhou ele próprio o storyboard de cada sequência, e o resultado é um primor de elegância narrativa e visualidade sugestiva. A trilha sonora de Anne Dudley é outro ponto alto, fundamental para manter o espectador imantado enquanto Isabelle o surpreende a cada virada do roteiro.