A família Brasil segundo Avellar

Pode-se dizer que o ofício regular do crítico de cinema é separar um filme do outro. No seu trabalho cotidiano de resenhar filmes, ele costuma procurar em cada obra o que lhe é próprio, peculiar, aquilo que a distingue da massa de filmes. Destaca detalhes, sonda originalidades, aponta singularidades. Digamos que ele coloca uma cerca em torno de cada filme para que este seja visto com a atenção devida. Ainda que faça referências a outras obras, uma resenha é sempre uma cerca, um tipo de isolamento.

No seu livro póstumo PAI PAÍS, MÃE PÁTRIA, José Carlos Avellar fez exatamente o contrário. Ao analisar o panorama do cinema brasileiro dos anos 2000 para cá, com o foco concentrado nas relações entre pais e filhos, ele quebrou todas as cercas entre os filmes. À medida que vamos lendo cada um dos 28 capítulos sem título (e a ausência de título já é uma supressão de fronteiras), vamos percebendo que a dramaturgia dominante na época parece formar um único grande filme: o de pessoas em luta contra o esquecimento e à procura de pertencimento familiar e nacional. Gente sem pai nem mãe saindo atrás de país e pátria.

Os filmes de Walter Salles, carregados desses elementos, ocupam um lugar central no Brasil auscultado por Avellar. Mas a busca de Josué pelo pai, em Central do Brasil, ou a viagem de Paco na direção da terra da mãe, em Terra Estrangeira, acaba dialogando com o amor paternal do Capitão Nascimento em Tropa de Elite II ou com a investigação de Kiko Goifman sobre sua mãe biológica no documentário 33. Como numa ilha de edição movida pela busca de sentidos, Avellar monta as repreensões paramaternais da magistrada aos réus adolescentes de Juízo com as “saias justas” de Japa e Branquinha em Como Nascem os Anjos. E por aí adiante, com um grande número de longas-metragens. Um filme rebate no outro como numa linha de passe, as imagens se cruzam na estrada, as cenas se refletem mutuamente como num salão de espelhos.

Avellar quebra também outras cercas: entre filmes e teatro grego, entre cinema brasileiro e latino-americano, entre roteiro escrito e filme filmado, entre transcrição de diálogos e interpretação do não dito ou mesmo do não mostrado. O livro é um remate à altura da carreira de um crítico que nunca foi muito de separar um filme do outro, nem os filmes do teatro, da literatura ou da pintura. E – o melhor de tudo – como é gostoso de ler!

2 comentários sobre “A família Brasil segundo Avellar

  1. Fiquei com muita vontade de comprar o livro, Carlinhos!

    ______________________________________________ Ana Rowe

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