Psicanálise, Filosofia e Utopia

Pílulas sobre os filmes BELOS SONHOS, O QUE HÁ POR VIR e CAPITÃO FANTÁSTICO

Marco Bellocchio, talvez o mais devotado cultor de síndromes psicanalíticas no cinema, vai ao cerne da questão em BELOS SONHOS: como a fascinação edipiana, apunhalada pela morte precoce da mãe, pode se estender como uma carência fundamental pelo resto da vida de um homem. Massimo não aceita a orfandade, contesta o velório da mãe e finge para si mesmo não saber que ela se atirou do apartamento. Mas essa consciência denegada acaba se manifestando no seu interesse pela lei da gravidade e na busca incessante de uma figura feminina que o proteja, seja no mundo real, seja em Belfagor, o seriado de horror que siderava as famílias italianas nas décadas de 1960 a 80. E ainda na crença de que foi deliberadamente abandonado pela mãe. Para um filho pequeno e apaixonado, que outra coisa representa o suicídio materno?

Bellocchio faz circularem diversas idades de Massimo num rodízio magistral, que vai revelando camadas da síndrome, pontuando ressonâncias no tempo e adensando o difícil processo do personagem entre assimilar a verdade de sua condição de órfão e os impulsos destrutivos com que ele pretende chegar mais cedo ao encontro da mãe falecida. Vez por outra, o filme parece dispersar o foco, mas logo em seguida retoma o tema com rigor e vigor cada vez maiores. A intensidade costumeira do diretor, o uso magistral dos closes e das áreas de sombra, a performance do elenco, o recurso ao poder evocativo das canções – em tudo transparece a maturidade do mestre.

Um dado curioso: a figura do psicanalista, tão presente numa certa fase da obra de Bellocchio, aqui desaparece para dar lugar a um padre, que dá as chaves para Massimo superar seu impasse. E um paralelo especialmente interessante: quando testemunha um fotógrafo manipular uma foto na guerra de Sarajevo, ou quando se vê festejado pela resposta adocicada que escreveu a uma carta de leitor do jornal onde trabalha, Massimo constata a frivolidade do sentimentalismo. BELOS SONHOS, por mais que trate de emoções primais, não endossa resoluções piegas. Ao contrário, receita a dureza do enfrentamento.



A certa altura de O QUE ESTÁ POR VIR (L’Avenir), a personagem de Isabelle Huppert diz mais ou menos assim: “Eu tenho a sorte de ter uma vida preenchida intelectualmente. Isso me basta para ser feliz”. Ela é Nathalie, professora de Filosofia que se julga madura o suficiente para não mais embarcar no radicalismo político dos seus alunos, nem se abalar quando o marido lhe comunica que vai trocá-la por outra depois de 25 anos de casamento. Em um período curto de tempo, Nathalie vai perder outros interlocutores na vida e também prestígio numa universidade que procura se modernizar (leia-se banalizar) e onde o estilo sóbrio dela não cabe mais. Tais perdas têm como contraponto a conquista de uma liberdade com a qual ela precisa aprender a lidar.

O filme de Mia Hansen-Løve, Urso de Prata de direção em Berlim, é um raro retrato de intelectual que procura conciliar pensamento e emoções, racionalização e a simples busca da felicidade. A personagem, criada especificamente para Isabelle, de alguma maneira se nutre da força interior da atriz, com seu habitual talento para dissimular fragilidades. Nathalie demonstra um notável distanciamento em relação aos imprevistos e dilemas da vida comum. Trata-se, portanto, de examinar até onde a prática filosófica alcança efetivamente no embate com o mundo dos fatos.

Muitas referências sobre verdade, felicidade, ilusão e liberdade, assim como a diversos escritores e filósofos, são espargidas num ambiente acadêmico em que as pessoas se relacionam através de livros passados de mão em mão. Na contrapartida, há o chamado à realidade representado pela família, a casa, os animais domésticos, a necessidade de companhia. Numa cena, Nathalie é assediada no cinema enquanto assiste a “Cópia Fiel”, de Kiarostami, em mais uma piscadela para o diálogo entre filosofia e cinema, especulação intelectual e experiência concreta.

Filme um tanto frio, O QUE ESTÁ POR VIR não tem ingredientes para despertar maiores paixões. Mas tampouco nos deixa indiferentes diante dessa mulher que mantém a cabeça nas abstrações e os pés no chão, mesmo quando há pedras e lama.



CAPITÃO FANTÁSTICO talvez não seja exatamente o filme-família deste Natal. Não chega a ser um exemplo o pai que dá facas de presente para seus filhos e os leva para escalar paredões perigosíssimos. Nem muito menos filhos que se despedem da mãe morta de maneira tão, digamos, peculiar. Atos bizarros estão na pauta dessa família que se instalou na floresta adotando o modelo do “Walden”, de Henry Thoreau (embora isso não seja dito no filme), e festejando o aniversário de Noam Chomsky em lugar do Natal.

Eles são uma espécie de “The Waltons” pós-hippies (alguém se lembra dessa velha série de TV e do menino John Boy? Pois o garoto mais velho se chama Bo). Ben Cash (Viggo Mortensen) e sua mulher criaram as crianças num misto de índios capazes de sobreviver na selva e intelectuais anticapitalistas nutridos em livros. Quando morre a mãe e eles precisam enfrentar a cidade, o choque é inevitável.

A princípio, o diretor e roteirista Matt Ross parece investir numa dicotomia simplista entre selvagens esclarecidos e citadinos medíocres. A coisa chega próximo da caricatura, mas felizmente ganha maior complexidade adiante, quando a utopia naturalista entra em contato dialético com a sociedade “responsável”. Se por um lado a fábula moral expõe os limites do pensamento utópico e da franqueza absoluta, por outro retém seu potencial emocional e a necessidade de mantê-los vivos.

O filme transborda de uma simpatia ligeiramente excêntrica. O desajuste dos Cash em relação à vida média americana é ilustrado por algumas situações bastante divertidas. O desfecho, algo melancólico, é mais um ingrediente incomum no gênero e um índice de distinção.

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