Quatro filmes

Sobre TRAVESSIA, LES COWBOYS, FRAGMENTADO e IMPREVISTOS DE UMA NOITE EM PARIS

Com TRAVESSIA, seu primeiro longa, João Gabriel se junta a Claudio Marques e Marília Hughes (“Depois da Chuva”), Henrique Dantas (“Sinais de Cinza”, “A Noite Escura da Alma”), Daniel Lisboa (“Tropykaos”) e Paula Gomes (“Jonas e o Circo sem Lona”) no pequeno time que vem atualizando o cinema baiano com as tendências mais contemporâneas. TRAVESSIA é um drama sobre pai e filho, mas onde a desconexão entre os dois personagens reverbera na própria estrutura narrativa. Eles não se falam, têm mesmo um litígio jurídico, e o filme os trata como personagens em vidas paralelas, cada um no seu mundo. Na foto, o único plano do filme em que os dois dividem o mesmo espaço.

Roberto, o pai (em atuação magistral de Chico Diaz), perdeu a mulher há pouco e encontra-se num vácuo existencial. O encontro com uma prostituta, uns drinques a mais e um atropelamento mudam de repente o rumo de sua rotina. Júlio, o filho (Caio Castro), vive numa trip de mauricinho classe média, à base de namoro, drogas, festas e um vago desejo de evasão. Alternando entre esses dois universos aparentemente contrastantes, mas no fundo igualmente descoloridos, TRAVESSIA aponta sutilmente para a possibilidade de uma reconstrução familiar a partir da tragédia e da solidariedade.

João Gabriel trabalha na chave do comedimento, preferindo sempre que possível o poder sugestivo dos silêncios à proverbial verborragia baiana. Demonstra grande maturidade na condução do elenco, na economia de recursos dramáticos, no cuidado com os detalhes de caracterização e na justeza dos tempos e do tom da encenação. Junto com o diretor de fotografia Pedro Sotero, explora uma Salvador distante dos clichês conhecidos e cria tomadas de grande sensibilidade nas relações interpessoais em cenas interiores. A trilha sonora de Felipe Massumi colabora para essa atmosfera ao mesmo tempo intensa e seca. Um filme muito bem resolvido, que merece toda atenção.



LES COWBOYS é uma releitura da trama do clássico fordiano “Rastros de Ódio” no contexto do choque de civilizações contemporâneo. O pai e o irmão da jovem Kelly não querem resgatar a moça dos índios, como fazia John Wayne, mas dos árabes. Estamos nos anos 1990, quando crescia o intercâmbio clandestino entre europeus e árabes, estes como imigrantes, aqueles como jovens seduzidos pela vida muçulmana. O filme de Thomas Bidegain propõe um mergulho nessa fronteira intrigante.

Para aproximar a história do universo do western – um tanto artificialmente, diga-se – a ação se passa numa estranha comunidade francesa muito influenciada pela cultura country americana. Papai Alain (François Damien) é ele próprio um representante da arrogância e dos preconceitos ocidentais, sem falar na insinuação de uma pulsão incestuosa. Em sua longa busca pela filha, sucedida pelo filho (Finnegan Oldfield), o roteiro vai desenhar um arco de conto moral sobre tolerância e assimilação recíproca.

Vários ingredientes do gênero são acionados, como as cavalgadas, o duelo, a visita a territórios hostis, os mercenários, o apelido “Kid” e até um solitário remanescente indígena. Bidegain, conceituado roteirista parceiro de Jaques Audiard, trabalha bem os signos geopolíticos, situando-os contra as notícias da escalada terrorista na virada do século. No entanto, falha em construir pontes razoáveis entre os acontecimentos. As elipses desorientam o espectador em prejuízo da solidez dramática, fazendo com que a história avance um tanto aleatoriamente. O uso de três diferentes idiomas também sofre contradições entre os personagens. Mais que tudo, os motivos da busca ficam reduzidos a mera obsessão, esvaziados de sentido afetivo. São insuficiências que impedem a boa ideia de se transformar em bom filme.

P.S. O título brasileiro “Os Cowboys” elimina a ambiguidade básica do original.



Multiplique “Psicose” por 12, troque o talento de Hitchcock pela vigarice de M. Night Shyamalan e você terá FRAGMENTADO. Mas será que precisamos mesmo falar sobre Kevin, o protagonista portador de um transtorno que o faz dividir-se em 23 (ou 24) diferentes personalidades, sendo uma diabética, outra de nove anos de idade e outra feminina? Seria necessário fazer uma junta de psicanalistas para desvendar o que se passa na cabeça do pobre rapaz? Ou basta aceitar o clichê de que maus tratos na infância e um determinado local de trabalho estariam na origem de tudo?

Shyamalan investe numa fórmula banal, a do psicopata que encarcera jovenzinhas com intenções as mais confusas. No múltiplo e brilhante desempenho de James McAvoy ele encontra a chave para o que o filme tem de melhor. Todo o resto fica vários furos abaixo, a começar pelas moças, que parecem vítimas de velhos filmes de terror classe z. A inclusão de uma “Fera” sobre-humana desmonta todo o arcabouço psicanalítico erguido em torno do personagem e atira o filme na vala comum das bobagens adolescentes.

Talvez por não ser tão ruim quanto outros filmes recentes do diretor, seus fãs estão festejando uma suposta volta à forma. Mas mesmo esses devem reconhecer que FRAGMENTADO não consegue ser assustador nem intrigante como pretendia.



O ator, diretor e dramaturgo Edouard Baer tem ótima reputação na França, e este IMPREVISTOS DE UMA NOITE EM PARIS vem sendo considerado o seu melhor trabalho no cinema. Dá medo de ver os outros.

Não que Baer seja mau ator, nem que lhe falte ousadia no manejo da direção. Seu personagem, um produtor teatral às voltas com a necessidade urgente de arranjar um macaco de verdade para a estreia da peça e com as demandas afetivas e profissionais em torno dele, não deixa de provocar alguma empatia. O que falta é produzir um legítimo interesse pelo que acontece na tela.

Fala-se muito e rápido, corre-se de lá para cá, a câmera acompanha tudo em planos longos e móveis – aquela sensação de hiperatividade comum às comédias urbanas francesas. Aqui e ali, o burlesco chega a tocar os limites do surreal, como na tentativa de roubar um símio do zoológico. Mas, por incrível que pareça, toda essa agitação se assemelha à de um rato perdido num labirinto. Desarticulado, o filme começa e termina sem que nada de relevante seja dito ou mostrado. Uma macacada, por assim dizer.

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