Olney nas paredes da memória

“Mártyr do cinema brasileiro” para Glauber Rocha. “Homem simples, sensível e criativo” para Orlando Senna. “Artista extremamente preocupado em documentar a cultura e a vida do homem brasileiro diante das perspectivas sociais e políticas de sua época” para a saudosa jornalista Ângela José, autora de sua biografia, “Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo”. As várias maneiras como pode ser visto esse cineasta baiano de história e filmografia peculiares convergem todas para o documentário Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, em cartaz no Cine Joia.

Em sua vida breve, Olney São Paulo (1936-1978) realizou três longas, três médias e nove curtas. Por ter estado um tanto à margem dos circuitos dominantes nos anos 1960 e 70, filmando quase sempre no interior da Bahia, Olney não viu seu trabalho circular mais amplamente e com certeza morreu antes de perceber que deixava um rastro considerável de influência sobre o cinema político que aqui se faria mais tarde. Seu média-metragem Manhã Cinzenta, uma ficção política rodada em meio às convulsões de 1968 no Rio, é um clássico do gênero, enquanto o curta Sob o Ditame de Rude Almajesto: Sinais de Chuva (1976) é um dos mais belos retratos da cultura sertaneja que o nosso cinema já produziu.

Das costelas desses dois títulos o também baiano Henrique Dantas extraiu o de seu filme: Sinais de Cinza. É um retrato biográfico do artista, sem dúvida. Ali estão depoimentos de parentes, amigos e colegas que conviveram com ele e conhecem sua obra. Ali estão cenas abundantes de seus filmes, mesmo dos mais raros de se ver, como o primeiro curta, Um Crime na Rua (1955), e o último longa, Ciganos do Nordeste (1976). Não faltam os relatos sobre acontecimentos importantes de sua vida, com destaque para o episódio crucial do sequestro do avião para Cuba em 1969, em que Manhã Cinzenta teria sido exibido a bordo, causando transtornos fatais para Olney. Henrique chega a entrevistar o piloto e uma comissária do fatídico voo.

O roteiro – é bom que se diga – tem alguma dificuldade em arrematar a narrativa e anuncia alguns falsos finais que geram a sensação de alongamento nos últimos 15 minutos. Mesmo assim, e pelo tratamento dado aos materiais, o que vemos na tela transcende em muito o formato da biografia tradicional e aponta para o campo do ensaio documental.

Henrique Dantas, legítimo representante da renovação em voga no cinema baiano, é um realizador inquieto que procura sintonizar seus documentários com o espírito dos respectivos temas. Para isso, lança mão de recursos novos a cada filme. Em Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano (2009), a estrutura do filme e o clima das entrevistas ecoavam a irreverência do grupo e a pegada contracultural de sua época. No recente A Noite Escura da Alma, um discurso paralelo no campo da performance e das artes plásticas trazia para dentro do filme a experiência dolorosa dos ativistas de esquerda presos e torturados pela ditadura na Bahia.

Em Sinais de Cinza, há todo um aparato formal e sensorial dedicado a retirar a memória de Olney das brumas (cinzentas) do esquecimento e devolver sua obra aos locais que a inspiraram. O uso recorrente das imagens de nuvens grávidas de chuva, do sertão espinhoso de mandacarus e dos signos de opressão e encarceramento trabalha no sentido de afinar a sensibilidade do espectador para a história de Olney: seu apego à terra natal, a preocupação social, a inquietação política, a perseguição, prisão e tortura, as sequelas físicas e psíquicas que contribuíram decisivamente para sua morte precoce aos 41 anos. A mesma idade, por sinal, em que morreria seu filho Irving São Paulo.

As cenas dos filmes de Olney são apresentadas quase sempre sob a forma de instalações, projetadas ora sobre paredes e muros sertanejos (O Grito da Terra), ora sobre calabouços cerrados por grades (Manhã Cinzenta). Disso nasce uma beleza rústica, provinda da noção de que essas imagens estão sendo reconduzidas a um certo lugar de origem. Resulta, ainda, a produção de diferentes texturas que sugerem a passagem do tempo e a vulnerabilidade das memórias.

Sinais de Cinza é mesmo um filme de texturas – visuais e sonoras. As falas de gente como Helena Ignez, Silvio Tendler, Vladimir Carvalho, Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, Tuna Espinheira, José Carlos Avellar, o advogado Modesto da Silveira, o artista plástico Antonio Manuel e os irmãos e filhos de Olney emergem parcimoniosas e emocionadas. O texto do conto Manhã Cinzenta”, do próprio Olney e que originou o filme, é lido por um conjunto de vozes em off. Tudo isso vai formando um tecido que eu diria mesmo melodioso. Daí que o verbal se casa tão bem com a trilha musical, a cargo dos filhos Ilya São Paulo (piano) e Olney São Paulo Jr. (violão). Numa sacada de gênio, Henrique incluiu essas performances diegeticamente no filme, como uma espécie de tributo familiar.

Esse é também um filme sobre uma bela família. Entre os São Paulo, a intensidade emocional e a paixão pela arte parecem travar combate contra as marcas da tragédia e deixar um exemplo de amabilidade e comprometimento.          

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