O menino com a câmera

Sobre ESTAMOS VIVOS, de Filipe Codeço –

Se existissem Olimpíadas do cinema, a modalidade mais desafiadora seria talvez o longa-metragem em um único plano-sequência. Por esse podium certamente já teriam passado Alexander Sokurov, Mike Figgis e o gaúcho Gustavo Spolidoro, só para citar alguns. Sokurov, em Arca Russa, conectou num só plano os espaços do Museu Hermitage e diversos tempos da história russa. Figgis rodou quatro planos-sequência simultâneos para desenvolver a ação do seu Time Code. Spolidoro, em Ainda Orangotangos, rodou meia Porto Alegre seguindo seus personagens sem corte e passou até por dentro do sonho de um deles.

A filmagem de um longa assim passa rapidinho, dura apenas o tempo real, mas para que isso dê certo é preciso um planejamento rigoroso. A façanha requer um senso de timming preciso e uma extraordinária sintonia dos atores entre si e deles com a equipe. É tudo isso o que vamos encontrar em Estamos Vivos. Com a incrível particularidade de que a ação é filmada do ponto de vista de um garoto de oito anos, portador de autismo e obcecado por registrar com sua câmera tudo o que vê.

A experiência me impactou pelo que tem de original. Ela resulta de uma parceria curiosa entre o roteirista Álvaro Chaer e o diretor Filipe Codeço. Ao assumir ele próprio a câmera subjetiva do pequeno Rafa, Filipe imprime diretamente na imagem as suas intenções, como uma espécie de impressão digital autoral. Diretor, cinegrafista e personagem se integram numa só figura, ausente e presente ao mesmo tempo. Porque Rafael, no filme, é uma presença-ausência, ora vigiado, ora ignorado pelos seus familiares. E em certos momentos, em seu silêncio-câmera inquisidor, ele é um incômodo a mais no ajuste de contas de seu pai com os irmãos.

A morte do pai, a reunião da família e a exumação de segredos e traumas passados são um arquétipo de dramaturgia já tantas vezes explorado no cinema e no teatro. Mas não creio que um caso desses já tenha sido mostrado por esse viés de inocência, alheamento, distanciamento involuntário e descompromisso direto com o que se passa diante da câmera. Rafa, em sua introversão especial, não reage como era de se esperar nem de uma criança “normal” dentro da cena, nem de um cinegrafista empenhado em bem narrar. Ao contrário, ele está quase sempre numa deriva que é própria dele, não da ação filmada. Por isso com frequência abandona o centro da ação a esquadrinhar os objetos da casa, fixa-se em pontos cegos, deixa-se fascinar pela borboleta morta na piscina. O enquadramento imperfeito, a escolha de ângulos onde “nada acontece”, tudo converge para esse transporte a que o espectador é convidado desde os primeiros minutos.

Estamos Vivos me colocou numa posição bastante peculiar. Às vezes me senti diante de um documentário de observação sobre os embates de uma família disfuncional, marcada pela tirania do pai e o suicídio da mãe. Em outros momentos, fiquei à mercê de uma subjetividade errática, desprovida de eixo, como se a câmera estivesse voltada não para fora, mas para dentro do menino que a empunha.

E no entanto a ação explícita diante da câmera é tão interessante quanto a impressão implícita por trás dela. Os atores encarnam suas criações com rara espontaneidade e total controle da progressão dramática. Os diálogos nunca deixam a cena esmorecer, nem abrem frestas entre roteiro e improvisação. Eu me senti completamente envolvido por uma filmagem de encontro doméstico, realizada por um cinegrafista nem um pouco convencional.

Um comentário sobre “O menino com a câmera

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s