Três bom filmes fora dos cinemas

JÁ NÃO ME SINTO EM CASA NESSE MUNDO, MISTÉRIO NA COSTA CHANEL e DE PALMA podem ser vistos no Netflix, em plataformas on demand ou em DVD

A comédia criminal JÁ NÃO ME SINTO EM CASA NESSE MUNDO, vencedora do último Festival de Sundance e disponível no Netflix, já foi interpretada como um retrato em alto contraste dos EUA atuais. Mas nem a eleição do Trump, nem a troca de envelopes no Oscar poderiam rivalizar com o coquetel de bizarrices agitado por Macon Blair.

Quem encarna a afirmação do título é uma jovem auxiliar de enfermagem deprimida, para quem o mundo se afigura como uma sucessão infinita de incômodos – do cocô de cachorro que o vizinho não recolhe à conversa de bar em que um desconhecido antecipa revelações do livro que ela está lendo. Sua preocupação maior é com o planeta cheio de idiotas que em pouco tempo, como ela, vão virar carbono. Mas Ruth (a ótima Melanie Lynskey) é a menos extravagante de quantos cruzam o seu caminho. Quando ocorre um roubo em sua casa e a polícia não dá a mínima, ela parte para investigar por conta própria. Acaba enfrentando uma rede de receptadores com a ajuda de um vizinho (Elijah Wood) que não comete nenhuma ultraviolência sem antes perfilar-se numa oração.

A pegada deve um bocado aos Irmãos Coen e a Tarantino, com notória influência dos romances juvenis em série que vários personagens consomem com paixão. Os tipos são hilários e a trama evolui com propriedade da comédia de comportamento para uma vertiginosa debandada pelo thriller de ação. Sem nunca perder o senso de humor negro.



À saída da cabine de imprensa de MISTÉRIO NA COSTA CHANEL, o sábio Alberto Shatovsky comentou que Bruno Dumont havia virado seu cinema de cabeça para baixo. De fato, se descontarmos a recente telessérie satírica “P’tit Quinquin”, a filmografia pregressa desse diretor francês se caracteriza por dramas sombrios envolvendo crimes, abuso sexual, marginalidade e espiritualidade. Alguns desses ingredientes reaparecem aqui, mas fantasiados de comédia de humor negro.

Dumont se mantém fiel também aos cenários de pequenas localidades desprovidas de atrativos. Nesse caso, um trecho do litoral norte da França conhecido como Costa de Opala. A história se passa em 1910 e trata de dois grupos: uma família burguesa em veraneio, toda ela interpretada em tom de caricatura por astros do cinema europeu (Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi), e uma família de pescadores de mariscos, vivida por atores regionais dotados das excentricidades físicas de praxe em personagens do diretor. Entre os dois grupos, uma dupla de policiais inspirada em O Gordo e o Magro investiga misteriosos desaparecimentos de pessoas na região.

Para não cortar o prazer de algumas surpresas por parte do espectador, basta dizer que se espere androginia, canibalismo, levitações e outros fenômenos igualmente – como dizer? – corriqueiros. Enquanto os “pobres” agem com sobriedade e determinação, o elenco dos “ricos” se arrisca em performances exacerbadas, cheias de tiques e gritos. O sabor de época vem também em gags típicas do cinema mudo e da comédia pastelão. De certa forma, o filme evoca ainda antigas comédias campestres francesas protagonizadas por Michel Simon ou Raimu, onde a luta de classes era retratada com ironia e alguma perversidade.

Há um problema de medida no filme, que faz com que a graça não se sustente do começo ao fim. Os excessos vez por outra comprometem o ritmo e colocam os atores à beira da canastrice. Mas a diversão e o inesperado acabam sempre ganhando a parada. Mistério, para mim, ficam sendo os títulos do filme. O original, “Ma Loute”, nome de um personagem, é gíria que significa “minha menina”. Quanto ao brasileiro, quem sabe me dizer que “Costa Chanel” é essa?



DE PALMA, o documentário que Noah Baumbach e Jake Paltrow fizeram sobre Brian De Palma, tem o formato mais simples e objetivo possível: uma entrevista com o cineasta (filmada provavelmente em um único dia) e uma montagem esperta de cenas de seus filmes e daqueles que mais o influenciaram. Nada a ver, portanto, com o estilo elaborado, tortuoso e um tanto “camp” de De Palma. Ele próprio se coloca de maneira clara diante da câmera, sempre muito simpático e autoconsciente. Repassa sua biografia e carreira com a pachorra de quem sabe que acertou e errou em iguais proporções. Provou do sucesso e do fracasso esperados e inesperados.

Filho de um cirurgião que traía a mulher, e a quem Brian seguia como um detetive, ele transferiu essas pulsões para muitos de seus filmes. Encarou críticas pesadas por tratar as mulheres com violência desmesurada em suas tramas (em “Dublê de Corpo”, uma delas é assassinada com uma broca elétrica). Fez parte da geração de mavericks que renovou Hollywood nos anos 1970, mas brigou um bocado para se desviar do clichês e impedir que eliminassem suas cenas mais incômodas. Até que se cansou do sistema e passou a filmar na Europa a partir de “Femme Fatale” (2002).

De Palma comenta sequências, planos, trilhas sonoras, escolhas, relacionamentos profissionais e dificuldades para tocar seus projetos. O interesse cinefílico é evidente, embora fique circunscrito a esse círculo. Sobressai o perfil de um cineasta-cinéfilo satisfeito em admitir que se inspirou em mestres que o antecederam, sobretudo Hitchcock, Godard e os cultores do filme noir. Suas experiências individuais são insights de como funcionava a máquina hollywoodiana na época de sua última grande renovação.

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