De amores e livros

Sobre o uruguaio-brasileiro SEVERINA e o coreano O DIA DEPOIS

SEVERINA é um desses filmes que romantizam e fetichizam o contato com livros e livrarias. Não vi “A Livraria”, que também está em cartaz e tem um viés político. SEVERINA caminha em outra avenida, a do amour fou. Um jovem livreiro e aspirante a escritor (Javier Drolas) apaixona-se pela moça enigmática (Carla Quevedo) que entra seguidas vezes em sua pequena livraria para roubar livros. A forma suave e descuidada com que ela age o fascina e a transforma em sua nova musa.

Os desdobramentos da história, divididos em capítulos, levam o rapaz a distanciar-se de si mesmo para entrar na vida da moça. Os mistérios em torno dela despertam nele a inspiração literária, que ele realiza não escrevendo, mas vivendo pequenas alucinações amorosas. É preciso descobrir o nome dela, a identidade do homem mais velho com quem ela mora numa pensão, o objetivo de seus roubos… Numa palavra, a proverbial mulher-esfinge envolta em brumas e suscetível a desaparecimentos.

Tudo respira citações literárias no filme de Felipe Hirsch, baseado em livro do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa e produzido no Uruguai pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. As referências vêm em capas de livros, trechos sublinhados, frases proferidas, alusões a autores, leituras e saraus que têm lugar na livraria “La Entretenida”. Na fotografia sempre cálida de Rui Poças, o casario vetusto de Montevidéu colabora para a evocação de uma atmosfera pouco contemporânea, perfumada pelo aroma de livros antigos que teimam em continuar importantes na era digital.

“O papel não vai acabar tão cedo”, diz alguém numa conversa. Nem, ao que parece, o charme dessas fantasias românticas que se esgueiram entre estantes. Numa ótima cena em que o rapaz revista a moça em busca de um livro roubado, o filme sintetiza à perfeição o vínculo entre livros, roubos e erotismo.



Querido dos cinéfilos pela simplicidade profunda e a constância autoral, o coreano Hong Sang-soo é um dos mais prolíficos cineastas em atividade nos últimos dez anos. O DIA DEPOIS é o terceiro filme que ele lançou em 2017. Tanta produção leva inevitavelmente a irregularidades. Este eu considero um momento menor em seu típico cinema do déja vu.

Como quase sempre, há uma pequena rede de afetos e expectativas em torno de poucos personagens, vividos por atores do círculo do diretor. Algo como um Domingos Oliveira de olhos rasgados.

Bongwan, dono de uma pequena editora, há pouco se separou da secretária Changsook, com quem mantinha um caso extra-conjugal. No longo dia em que se passa o filme, chega a novata Areum, e uma amizade instantânea se estabelece entre os dois. Mas a descoberta, pela esposa de Bongwan, de um antigo bilhete de amor e um retorno tenaz de Changsook vão complicar a nova situação.

“As palavras são uma coisa, a realidade é outra”, diz mais ou menos assim o nosso editor, que é também crítico literário. Ele é o homem instável e embaraçado por excelência, cujas decisões refletem mais circunstâncias que consciência. Seu pendor para o pensamento filosófico, exercitado numa conversa com a recém-admitida Areum, rapidamente se desfaz diante da urgência física e dos estratagemas da apaixonada Changsook. As mulheres são sempre mais fortes e determinadas.

Hong Sang-soo explora os longos diálogos em planos de perfil dos personagens à mesa, os deslocamentos temporais intempestivos e as repetições/variações habituais. Tudo pode voltar a acontecer no seu ciclo dramatúrgico, ainda que com leves diferenças. Seja no escritório, nos cafés ou num táxi, as pessoas podem voltar a se encontrar e as falas a se repetir, pois o déja vu está sempre à espreita. Aqui, no entanto, essa fórmula dá sinais de um certo cansaço. Um déja vu do déja vu, por assim dizer. A singeleza do estilo e a justeza das atuações me pareceram ficar dois pontos acima do que esse conto mínimo de amor e renúncia tem a oferecer.

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