O cinema na hora da verdade

A 23ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade começa nesta quinta, em São Paulo e no Rio. Chamo aqui atenção para os filmes mais promissores e politicamente importantes da programação

Missão 115, de Silvio Da-Rin

Talvez como um reflexo da nova conjuntura dos apoios à cultura no período pós-golpe, o festival É Tudo Verdade perdeu este ano os tradicionais patrocínios da Petrobras e do BNDEs. O criador e diretor do evento, Amir Labaki, atribui o fato “à redução das verbas de patrocínios culturais devido à legislação restritiva num ano eleitoral”. Ainda assim, ele sustenta que este é “um festival robusto, embora um pouco mais enxuto, com o público sendo o mais prejudicado pela redução do número de filmes e de sessões, ainda que tenhamos conseguido manter a entrada franca”.  

Além da gratuidade, não faltam atrativos na programação que vai até o dia 22 de abril, em cinemas de São Paulo e do Rio. A começar pelas esperadíssimas primeiras apresentações no Brasil de O Processo, radiografia do golpe parlamentar-jurídico-midiático que derrubou a presidenta Dilma Roussef em 2016. Já escrevi aqui no blog sobre o excepcional filme de Maria Augusta Ramos. Confira.   

Ainda na seara dos atentados contra a democracia brasileira, o veterano Silvio Da-Rin nos traz sua investigação sobre o episódio do Riocentro no Primeiro de Maio de 1981. O título do filme, Missão 115, foi o nome atribuído pelo DOI-CODI a uma suposta operação de vigilância durante um show musical no Riocentro. Na verdade, tratava-se de um atentado à bomba, afinal frustrado, que visava sabotar a redemocratização do país. Uma das maiores autoridades em documentário no Brasil, Da-Rin (Hércules 56, Paralelo 10) foi ativista da Ação Popular, do Comando de Libertação Nacional (Colina) e da VAR-Palmares. Ex-preso político, ele se engaja pessoalmente nesse projeto de esmiuçar as circunstâncias do atentado, autêntico terrorismo de estado. O filme incorpora entrevistas, revisitas a locais cruciais e vinhetas dramatizadas das ações clandestinas de um terrorista ficcional. Pela primeira vez um dos membros daquela equipe de terroristas, o ex-policial Claudio Guerra, conta em detalhes como a operação foi planejada e executada. Os trabalhos recentes da Comissão Nacional da Verdade também jogam uma luz nova sobre o episódio e as sucessivas tentativas de apuração ao longo de mais de duas décadas. Um filme essencial também como alerta contra a escalada do fascismo no Brasil de hoje.

O curta Arara: Um Filme Sobre um Filme Sobrevivente, de Lipe Canêdo, resgata um registro probatório sobre o ensino de tortura durante a ditadura civil-militar. São imagens da formatura da Guarda Rural Indígena, em Belo Horizonte, produzidas por Jesco Von Puttkamer em 1970.      

Pelas Américas

Che Guevara é personagem de dois filmes dirigidos por mulheres. No brasileiro Che, Memórias de um Ano SecretoMargarita Hernandez pergunta-se onde estava o Che quando desapareceu misteriosamente em dezembro de 1965, no auge da Guerra Fria. Já no argentino Amarra Seu Arado a Uma EstrelaCarmen Guarini traz à tona imagens do realizador Fernando Birri, mestre do cinema latino-americano falecido aos 92 anos em dezembro de 2017. Enfatiza sobretudo o retorno de Birri a seu país em 1997 para documentar o 30º aniversário da morte de Che Guevara e a importância das utopias naquele tempo.

Che, memórias de um ano secreto

Ainda na América Latina, o longa Não Viajarei Escondidade Pablo Zubizarreta, focaliza a vida da escritora e poetisa uruguaia Blanca Luz Brum (1905-1985), que viajou por diversos países participando ativamente de movimentos intelectuais, políticos e artísticos da América Latina. Foi seguidora do pensador marxista peruano José Carlos Mariátegui, casada com o muralista mexicano Siqueiros, amiga e colaboradora de Perón, e (pasmem!) apoiadora de Pinochet.

Atração das mais interessantes é o filme colaborativo Filmmakers Unite: Uma Resposta Coletiva ao Governo dos Estados Unidos, supervisionado por Ellen Bruno e Jay Rosenblatt. Na tela, uma painel de pensamentos e sentimentos sobre a atual situação política nos EUA, em doze episódios dirigidos por cineastas independentes como Alan Berliner e Jay Rosenblatt.

Intifada, refugiados

Do Oriente Médio vem o novo filme da brasileira Julia Bacha, autora do inesquecível Budrus. Em Naila e o Levante, ela documenta a notável jornada de Naila Ayesh, que se entrelaça à mais vibrante e não violenta mobilização da história da Palestina, a Primeira Intifada, ocorrida no final da década de 1980. 

A situação dos refugiados no mundo ganha espaço em diversos filmes. Um deles é também dirigido por um brasileiro, Paschoal Samora. Zaatari – Memórias do Labirinto é o registro da vida durante um mês no imenso acampamento de Zaatari, na Jordânia, onde mais de 80 mil refugiados sírios vivem há cinco anos numa espécie de limbo. Samora ouve alguns personagens representativos de uma situação que impõe improvisar uma vida sem raízes e criar um simulacro de lar no meio do deserto. Ele entra também na intimidade de algumas famílias para melhor revelar como o provisório se tornou regular com o nascimento dos filhos, o cultivo de um jardim, a formação de uma comunidade. Um filme capaz de nos fazer sentir a dimensão mais básica e cotidiana dessa realidade.
 

Zaatari – Memórias do Labirinto, de Paschoal Samora

 

O curta Ressonâncias, do libanês Nicolas Khoury, faz uma varredura em um campo de refugiados sírios em Bekaa, no Líbano. Promete uma viagem pelos corpos e as mentes dos refugiados, assim como a revelação de algumas histórias insólitas. Outro curta, O Intérpretede Reneé van der Ven, enfoca o dia a dia de Fadil, refugiado iraquiano que trabalha como intérprete em ligações telefônicas na Holanda. De seu cômodo em um sótão, ele traduz chamadas entre refugiados e agências de governo. 

Documentando conflitos

O conflito russo-ucraniano foi abordado em O Distante Latido dos Cães, de Simon Lereng Wilmont. O longa examina os efeitos da guerra sobre os primos Oleg e Yarin, meninos que vivem em Donesk, região leste da Ucrânia, afetada frequentemente por fogo antiaéreo e ataques de mísseis. 

 O Distante Latido dos Cães, de Simon Lereng Wilmont

 

Ecos de outros conflitos também mereceram a atenção dos documentaristas. É o caso dos curtas Nome de Batismo – Alice, de Tila Chitunda, e  Por Fora: Paz; Por Dentro: Guerra, da alemã Katja Berls. O primeiro acompanha a primeira visita a Angola de Alice, única filha brasileira de uma família angolana que encontrou refúgio no Brasil. Quarenta anos depois da fuga da família durante a guerra civil que matou e expulsou muitos angolanos de suas terras, Alice sai atrás das histórias que motivaram seus pais a lhe batizarem com esse nome. No segundo curta, duas irmãs falam sobre as experiências de violência física e sexual sofridas durante a II Guerra Mundial. Vale ainda citar o longa As Crianças da Rua Saint-Maur, de Ruth Zylberman, coleta de histórias dos moradores de um prédio residencial num bairro judeu de Paris, antes, durante e depois da II Guerra.

Da França vem o documentário 68de Patrick Rotman, trazendo um tesouro audiovisual sobre aquele ano agitado e transformador. Enquanto usualmente temos acesso a imagens de 1968 em preto e branco, esse filme traz exclusivamente cenas coloridas de eventos que marcaram o mundo, dos EUA à França, da Alemanha à América Latina, da então Tchecoslováquia ao Vietnã.

Outros destaques

Cinema do cinema é o que nos oferece A Batalha de Argel, um Filme Dentro da História, de Malek Bensmaïl. Trata-se de uma análise das condições em que foi feito o clássico do docudrama político A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, que reconstituía os eventos históricos de apenas três anos antes, no limite entre realidade e encenação.  

Destaco, ainda, dois longas brasileiros. Auto de Resistênciade Natasha Neri e Lula Carvalho, faz um panorama contemporâneo de homicídios praticados pela polícia contra civis, no Rio de Janeiro, em situações inicialmente classificadas como legítima defesa. Por sua vez, em Ex-Pajé Luiz Bolognesi nos dá um elogiadíssimo retrato do índio Perpera, que viveu na floresta sem contato com os brancos até os 20 anos de idade. Era um pajé poderoso até o contato do povo Paiter Suruí com o homem branco e a religião pentecostal.

Auto de Resistênciade Natasha Neri e Lula Carvalho

 

Por fim, chamo atenção para os três filmes realizados na Guatemala pela americana Pamela Yates, cineasta e ativista dos direitos humanos, homenageada do festival. Os longas 500 Anos, Granito e Quando as Montanhas Tremem compõem a chamada Trilogia Guatemalteca. Realizada num período de 35 anos, a trilogia a um só tempo documentou e ajudou a alterar o destino da Guatemala, em especial de sua população maia. Em parceria com o Human Rights Watch Brasil, o É Tudo Verdade apresenta pela primeira vez no país a trilogia na íntegra, na presença de Yates e de seu produtor, Paco de Onis.

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